Domingo, 23 de Maio de 2010

RUA FEIA EM CONSTRUÇÃO

Alfredo Pancorbo

 

Há quatro anos, ela contou. A outra mulher ouviu e reconta como se lhe pertencesse a origem do conto.

 

Nem me lembro da razão. Ou nem houve nenhuma e por isso não lembre o que nunca existiu. Mas sei do mês – Julho. Dia abafado e sem sol.

Naquele tempo, as mensagens por pouco não igualavam os cigarros fumados, teus e meus. Quantificando graficamente as emoções apaixonadas em unidades SMS, tendo por ordenada a adrenalina emotiva e como abcissa o tempo da relação, o ramo de hipérbole não nos descreve – este resume casais aconchegados ao histórico comum. Aqueles que, amando-se, esqueceram de amantes a condição. Serenamente embalados. Connosco não. Picos e negaças. A média? Um amor irremediável. Sofrido, eufórico, lustroso, baço. Nunca translúcido ou tépido.

Encontrámo-nos numa das ruas em construção. Ruas feias por delas não entender o futuro. Contentores de restos das obras em construção. Ferros torcidos. Farinha de cimento no chão. Ervas empertigadas no entulho. (Des)Empregados de ocasião escorriam suor empastado que a todos uniformizava. Larápio da expressão. Como máscara que o «ser» encobria. Anónimos operários do bairro em construção.

Ficámos por ali. De pé. Hesitantes. Desejando estar sós. Lidando mal com involuntárias testemunhas da nossa paixão. Sem tempo para mais do que encontro breve interrompendo o dia e as profissões. Fugas imperiosas a que obedecíamos para respirar com o outro o mesmo ar, permutar da pele o sentir, (re)encontrar a certeza de não ser quimera o amor da véspera. Insuportável urgência de confirmação.

Encostado ao automóvel, puxaste-me para ti. Demorámos o abraço e tentámos falar. Evitar carícias vistosas. Apertavas-me. A cada minuto, um pouco mais. Ou era eu que ao teu corpo colava o meu? Não sei. Mas o desejo cresceu e escorreu, enquanto murmúrios sem nexo se alimentavam do vagar dum beijo na rua em construção.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 13:54
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