Sábado, 11 de Setembro de 2010

DESPEDIDA DO VERÃO E DE VIDAS

 

 À ida, é o entusiasmo e a ansiedade do novo ou do conhecido diferente pelo dia outro. Puxado o zip da última mochila, espreitam fios de alegria sem nó que os remate. E é a estrada, depois, o rio, depois o mar. No barco ou no navio, a espera do zarpar. Na amurada, talvez despedida de dias como todos, talvez o inaugurar do tempo, sempre curto, do prazer. Debruçam-se rostos augurando profecias no escuro esmeralda das águas profundas. O vago, o incompreensível, o oculto, o incerto. O enigma do advir. Por aquele momento, negado o empiorar, também causa do ir. Ainda é Verão e o sonho está ali no convés. Zumbe a partida. O rio, na margem, verdes e casario desdobram adeuses. A estrada líquida é, finalmente, caminho.

 

 

Setembro quase meado. Na praia abandonada, na mesa, conchas e crustáceos, bivalves frutos do lugar revirado pelas ondas preservam a dignidade do palpitar ido – quem ama vidas sabe concertar sabores, construir harmonias em partituras interpretadas por vegetais, tenruras recolhidas da terra ou do mar. E não é nostálgico pensar no estio prestes a ceder lugar, nas férias guardadas em malas de cartão, do tempo de sol e das canções porque o ciclo existe. 

 

 

Houvesse mistral e habituar-se-ia a correr sem veleiros que dele esperassem o sopro. Mas seria o cabelo da mulher a sentir-lhe a falta. O sol companheiro brilhará em declínio, julgará zangados quem não o recebe na pele inteira. E na chuva miúda que o esconde(rá), um autocarro desliza e esvai passageiros numa ravina. A tragédia, clandestina, entrou com eles. Mortos e feridos em terra estrangeira. Cruzeiro acabado ali na redondeza de Ceuta. Foi anteontem, foi há nove anos em Nova Iorque que cruzadas malditas destruíram respirações. Mas nos primeiros dias de Verão, mágoas esquecidas, voltaremos à festa dos crustáceos e dos areais ensolarados.

 

Nota: no texto, excertos em tradução livre e oportunista das palavras do La Madrague. A versão original logo abaixo do vídeo.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

Sur la plage abandonnée
Coquillage et crustacés
Qui l'eût cru déplorent la perte de l'été
Qui depuis s'en est allé
On a rangé les vacances
Dans des valises en carton
Et c'est triste quand on pense à la saison
Du soleil et des chansons

Pourtant je sais bien l'année prochaine
Tout refleurira nous reviendrons
Mais en attendant je suis en peine
De quitter la mer et ma maison

Le mistral va s'habituer
A courir sans les voiliers
Et c'est dans ma chevelure ébouriffée
Qu'il va le plus me manquer
Le soleil mon grand copain
Ne me brulera que de loin
Croyant que nous sommes ensemble un peu fâchés
D'être tous deux séparés

Le train m'emmènera vers l'automne
Retrouver la ville sous la pluie
Mon chagrin ne sera pour personne
Je le garderai comme un ami

Mais aux premiers jours d'été
Tous les ennuis oubliés
Nous reviendrons faire la fête aux crustacés
De la plage ensoleillée
De la plage ensoleillée
De la plage ensoleillée

 

publicado por Maria Brojo às 10:33
link do post | Veneno ou Açúcar? | favorito
12 comentários:
De António a 11 de Setembro de 2010 às 11:39
chapadas de realidade são as estrelas do mar que fenecem à míngua de saberes antigos onde se conjugam todos os seres, todas as vidas e todas as suas encarnações

outro tanto o chorar de minas ruinosas que nos prendem a respiração como aos marinheiros do SSGN Kursk:


«Ceptros

Um estrondo metálico de pavor horrendo e violento/
Fez o mundo côncavo e o olhar perdido em infinita dúvida/
E no mesmo instante, no estômago vazio, na boca húmida/
Ecoou o medo de perder quanto sei e não sei, dei e não dei/

Com um míssil empunhado, ai Deus me valha/
Perguntei ao capitão meu general presidente/
Respondeu um luto oco, silêncio de podridão/
E o eco impune do estado à prova de embarcação/

Com um martelo empunhado, ai Deus me valha/
Perguntei ao vasto mar feito estepe omnipresente/
Respondeu o medo frio com gelo no coração/
E um eco sufocado à prova de embarcação/

Com um lápis empunhado, ai Deus me valha/
Perguntei ao céu imenso e ao seu brilhar imponente/
Ouvi o breu mais negro no escuro da solidão/
E um eco desolado à prova de embarcação/

Fechadas as portas da luz, da lei, da terra e do ar,/
A vida revista em segundos procurando o Imanente/
Eu, marinheiro do Kursk, escrevi no fundo do mar:/
Abre-me a porta Deus meu, aqui estou eu, eu, eu .../»


ou, repetidas vezes, irrepetíveis estrondos rodoviários, ladeira abaixo não raro, em vez de um beijo no meio da via

mas sejam ciclos, feche-se em luto e sossego tudo quanto atormenta, apontando ao equinócio da apaziguação, espreitando a réstia de Verão e, bem sabemos, a sua próxima visitação

porque há vida e a vida é para viver

;_)))


De Maria Brojo a 11 de Setembro de 2010 às 21:33
António - chapadas a mais, dor a mais, mineiros e submersos nas profundezas que dizem da esperança e dor.
De jotaeme a 11 de Setembro de 2010 às 17:57
Teresa: Como dizem os franceses,"c´est la vie!".
Ciclos das nossas Vidas que se interrompem sempre com a promessa de se voltarem a repetir... claro que os sentimentos do fim do ciclo são mais sensiveis... a chegada é uma espera de coisas boas e a partida é o cortar com essas mesmas coisas boas que nos aconteceram...
Planos alterados por eventos trágicoa como se ali estivessem á nossa espera(portugueses em Ceuta!), quando o fundamento era a alegria e a descompressão... ciclos de Vida e de Morte!
Estás bonita "carago"! Um bronze de invejar!
Sorry! EStava a brincar...
Um bom regresso aos deveres...
Um bom fim de semana!
Jorge
De Maria Brojo a 11 de Setembro de 2010 às 18:05
Jorge - obrigada amigo! Belíssimo resto de fim-de-semana e óptima semana para ti.
De Veneno C. a 11 de Setembro de 2010 às 22:10
"Houvesse mistral e habituar-se-ia a correr sem veleiros que dele esperassem o sopro": Felizmente o original deixa-nos tranquilos.

As havaianas prendem o olho!

O verde é venenoso (como eu, ostras não).

sem cosméticos (http://www.dailymotion.com/video/xe0b11_de-l-arsenic-a-la-plage-de-la-madra_news)
De Maria Brojo a 14 de Setembro de 2010 às 17:52
Veneno C. - o verde só é venenoso para quem o envenena. ;)
De Veneno C. a 15 de Setembro de 2010 às 00:56
Essa é a pior das hipóteses... em princípio, pela melhor, é só para os outros a quem é destinado que los hay! (http://www.pixmac.com.br/picture/evil+feiticeiro+lan%C3%A7ar+um+feiti%C3%A7o+sobre+a+sopa+de+veneno+verde/000018118685)
De -pirata-vermelho- a 12 de Setembro de 2010 às 23:09
A Claudia Schiffer -um manequim ou assim...- não é parecida com esta?

Só que esta, mesmo com encenação e vozinha d'anjinho, tem outra docçura (aparentemente)

Doçura... !

c'est à dire...


ça serait plutôt des belles senteurs
De Anónimo a 13 de Setembro de 2010 às 00:06
Belo desafio: conheça-se-lhe a voz(inha).

Ou seja: senteurs des belles?
De Maria Brojo a 14 de Setembro de 2010 às 17:51
Pirata-Vermelho - esta é muito melhor que a Cláudia. Por tudo.
De perseu a 13 de Setembro de 2010 às 14:57
Tal como esta crónica tudo tem principio meio e fim.
Uma estação chegou ao fim,outra virá,por certo,que pena ter terminado definitivamente para seis vidas.
A plenitude do verão esta representada,com muita maestria,pela beleza de uma mulher em todo o seu explendor.
A a B.B. é recordação do mais belo simbolo feminino que a França jámais teve.
Obviamente que é interpretaçãode um não candidato a jogos florais muito menos a comentador.
Outros há com manifestas e reais qualidades.
Pois que se mantenham 'Per gaudius meu'
De Maria Brojo a 14 de Setembro de 2010 às 17:53
Perseu - viva a B.B., vivamos todos muito e bem!

Comentar post

últ. comentários

Olá Teresa: Fico contente com a tua correção "frei...
jotaeme desculpa a correcção, mas o rei freirático...
Lembrai os filhos do FUHRER, QUE NASCIAM NOS COLEG...
Esta narrativa, de contornos reais ou ficionais, t...
Olá!Como vai?Já passaram uns meses... sem saber de...
continuo a espera de voltar a ler-te
decidi ontem voltar a ser blogger, decidi voltar a...
Autor que não foi possível identificar: Andrew Atr...
De férias , para sempre. Fechou a loja... :-(
Curta as férias querida...Beijos

Julho 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

pesquisa

links

arquivos

tags

todas as tags

subscrever feeds