À ida, é o entusiasmo e a ansiedade do novo ou do conhecido diferente pelo dia outro. Puxado o zip da última mochila, espreitam fios de alegria sem nó que os remate. E é a estrada, depois, o rio, depois o mar. No barco ou no navio, a espera do zarpar. Na amurada, talvez despedida de dias como todos, talvez o inaugurar do tempo, sempre curto, do prazer. Debruçam-se rostos augurando profecias no escuro esmeralda das águas profundas. O vago, o incompreensível, o oculto, o incerto. O enigma do advir. Por aquele momento, negado o empiorar, também causa do ir. Ainda é Verão e o sonho está ali no convés. Zumbe a partida. O rio, na margem, verdes e casario desdobram adeuses. A estrada líquida é, finalmente, caminho.
Setembro quase meado. Na praia abandonada, na mesa, conchas e crustáceos, bivalves frutos do lugar revirado pelas ondas preservam a dignidade do palpitar ido – quem ama vidas sabe concertar sabores, construir harmonias em partituras interpretadas por vegetais, tenruras recolhidas da terra ou do mar. E não é nostálgico pensar no estio prestes a ceder lugar, nas férias guardadas em malas de cartão, do tempo de sol e das canções porque o ciclo existe.
Houvesse mistral e habituar-se-ia a correr sem veleiros que dele esperassem o sopro. Mas seria o cabelo da mulher a sentir-lhe a falta. O sol companheiro brilhará em declínio, julgará zangados quem não o recebe na pele inteira. E na chuva miúda que o esconde(rá), um autocarro desliza e esvai passageiros numa ravina. A tragédia, clandestina, entrou com eles. Mortos e feridos em terra estrangeira. Cruzeiro acabado ali na redondeza de Ceuta. Foi anteontem, foi há nove anos em Nova Iorque que cruzadas malditas destruíram respirações. Mas nos primeiros dias de Verão, mágoas esquecidas, voltaremos à festa dos crustáceos e dos areais ensolarados.
Nota: no texto, excertos em tradução livre e oportunista das palavras do La Madrague. A versão original logo abaixo do vídeo.
CAFÉ DA MANHÃ
Sur la plage abandonnée Coquillage et crustacés Qui l'eût cru déplorent la perte de l'été Qui depuis s'en est allé On a rangé les vacances Dans des valises en carton Et c'est triste quand on pense à la saison Du soleil et des chansons
Pourtant je sais bien l'année prochaine Tout refleurira nous reviendrons Mais en attendant je suis en peine De quitter la mer et ma maison
Le mistral va s'habituer A courir sans les voiliers Et c'est dans ma chevelure ébouriffée Qu'il va le plus me manquer Le soleil mon grand copain Ne me brulera que de loin Croyant que nous sommes ensemble un peu fâchés D'être tous deux séparés
Le train m'emmènera vers l'automne Retrouver la ville sous la pluie Mon chagrin ne sera pour personne Je le garderai comme un ami
Mais aux premiers jours d'été Tous les ennuis oubliés Nous reviendrons faire la fête aux crustacés De la plage ensoleillée De la plage ensoleillée De la plage ensoleillée
chapadas de realidade são as estrelas do mar que fenecem à míngua de saberes antigos onde se conjugam todos os seres, todas as vidas e todas as suas encarnações
outro tanto o chorar de minas ruinosas que nos prendem a respiração como aos marinheiros do SSGN Kursk:
«Ceptros
Um estrondo metálico de pavor horrendo e violento/ Fez o mundo côncavo e o olhar perdido em infinita dúvida/ E no mesmo instante, no estômago vazio, na boca húmida/ Ecoou o medo de perder quanto sei e não sei, dei e não dei/
Com um míssil empunhado, ai Deus me valha/ Perguntei ao capitão meu general presidente/ Respondeu um luto oco, silêncio de podridão/ E o eco impune do estado à prova de embarcação/
Com um martelo empunhado, ai Deus me valha/ Perguntei ao vasto mar feito estepe omnipresente/ Respondeu o medo frio com gelo no coração/ E um eco sufocado à prova de embarcação/
Com um lápis empunhado, ai Deus me valha/ Perguntei ao céu imenso e ao seu brilhar imponente/ Ouvi o breu mais negro no escuro da solidão/ E um eco desolado à prova de embarcação/
Fechadas as portas da luz, da lei, da terra e do ar,/ A vida revista em segundos procurando o Imanente/ Eu, marinheiro do Kursk, escrevi no fundo do mar:/ Abre-me a porta Deus meu, aqui estou eu, eu, eu .../»
ou, repetidas vezes, irrepetíveis estrondos rodoviários, ladeira abaixo não raro, em vez de um beijo no meio da via
mas sejam ciclos, feche-se em luto e sossego tudo quanto atormenta, apontando ao equinócio da apaziguação, espreitando a réstia de Verão e, bem sabemos, a sua próxima visitação
Teresa: Como dizem os franceses,"c´est la vie!". Ciclos das nossas Vidas que se interrompem sempre com a promessa de se voltarem a repetir... claro que os sentimentos do fim do ciclo são mais sensiveis... a chegada é uma espera de coisas boas e a partida é o cortar com essas mesmas coisas boas que nos aconteceram... Planos alterados por eventos trágicoa como se ali estivessem á nossa espera(portugueses em Ceuta!), quando o fundamento era a alegria e a descompressão... ciclos de Vida e de Morte! Estás bonita "carago"! Um bronze de invejar! Sorry! EStava a brincar... Um bom regresso aos deveres... Um bom fim de semana! Jorge
Essa é a pior das hipóteses... em princípio, pela melhor, é só para os outros a quem é destinado que los hay! (http://www.pixmac.com.br/picture/evil+feiticeiro+lan%C3%A7ar+um+feiti%C3%A7o+sobre+a+sopa+de+veneno+verde/000018118685)
Tal como esta crónica tudo tem principio meio e fim. Uma estação chegou ao fim,outra virá,por certo,que pena ter terminado definitivamente para seis vidas. A plenitude do verão esta representada,com muita maestria,pela beleza de uma mulher em todo o seu explendor. A a B.B. é recordação do mais belo simbolo feminino que a França jámais teve. Obviamente que é interpretaçãode um não candidato a jogos florais muito menos a comentador. Outros há com manifestas e reais qualidades. Pois que se mantenham 'Per gaudius meu'