Domingo, 19 de Setembro de 2010

NA DESPENSA OU NA COPA

Autor que não foi possível identificar, Myra Schuetter

 

Sem esconder fantasia/cobiça, quem dera ser herdada por emigrante brasileiro dos fins do IXX ou início dos XX. Conta bancária em maré alta não motiva a fantasia – antes desta enésima descendente muitos a teriam repartido e partido e feito em nada. Diz a sabedoria popular que não necessita de ser letrada para dizeres assisados: “a primeira geração constrói, a segunda consolida, a terceira arruína”. Circulando a atenção nas empresas familiares é comum a trindade de etapas. Como moeda caída na areia, desaparece o bem construído pelo ouro acumulado que predispõe os herdeiros segundos para vida de facilidade.

 

Os emigrantes portugueses que no século e pouco anterior debandaram para o Brasil fugiam da condição campesina ou artesanal que miseravelmente e a custo alimentava a família. Gente do Norte e Centro interior aventurou bilhete para a esperança. Cruzar o Atlântico na situação de pobres embalados por ondas. Pelo sacrifício pessoal, alguns deram em ricos. Destes, poucos voltaram e construíram casas exuberantes, orgulhosamente distintas do ambiente rural que vira partir os donos.

 

As Casas dos Brasileiros que desde as férias da infância me alimentam o imaginário, pela majestade e profusão ornamental foram ridicularizadas: exibição de poderes e haveres por pessoas sem instrução e gosto. Mas continuam como soberbos testemunhos dum tempo e apelam a quem nelas deseje atentar. Foram integradas no ‘património qualificado’ Anteciparam tendência actual da arquitectura: arte nómada. Duma delas gostaria de ter herdado, pelo menos, lugar na despensa ou na copa e perder-me dentro e fora.

 

CAFÉ DA MANHÃ

  

publicado por Maria Brojo às 10:46
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8 comentários:
De Veneno C. a 19 de Setembro de 2010
Então, seriam boas pela despensa ou pela copa? Só?
E por se perder... dentro ou fora?
São gostos...

Ser herdada por emigrante brasileiro... não me soa.
Será fantasia/cobiça algo extravagante?

"Não peças a quem pediu, não devas a quem deveu, nem sirvas a quem serviu; pede a quem o herdou, que não sabe o que lhe custou."

Apelam a quem nelas deseje atentar? Claramente. Inevitavelmente. Obrigatóriamente. Obviamente. Evidentemente.

E há (mais) quem atente:

http://www.fotodigital-online.com/actividades/livros/360-casas-de-brasileiro.html

«Com a fotografia de Júlio de Matos e os textos de Jorge F. Sampaio, Casas de Brasileiro, edição de 2008, aborda “de uma forma simbólica a influência na arquitetura de Portugal dos emigrantes que retornaram à terra natal, vindos do Brasil, na transição dos séculos XIX e XX. “»

«O Palacete de D. Chica, perto de Braga, terra natal de Júlio de Matos, fascinou-o desde pequeno. Se por um lado tinha todo o estigma de "novo-riquismo", por outro, povoou o imaginário da criança com uma imensa galeria de personagens, míticas saídas do sonho. Foi por essa casa que começou quando, homem crescido, decidiu fotografar as “casas de brasileiro”, demanda que o levou a percorrer diversas cidades portuguesas para documentar essa preciosa herança e registar curiosas histórias que ainda sobrevivem em suas paredes: "a casa de brasileiro é antes de tudo uma lição de afectos".»

De Maria Brojo a 20 de Setembro de 2010
Veneno C. - boa transcrição esta! Estou com ela. Não poderia ser minha pela falta de verbo à altura.
De Veneno C. a 20 de Setembro de 2010
Me alegro. No aproveitar é que está o ganho...
De António a 19 de Setembro de 2010
eh eh ... acontece!

há lugares incríveis que nos prendem de forma incrível, a que apetece pertencer ou povoar!!

certa vez, entrei (saltei o portanito mas a porta estava aberta) num grandioso palacete, roído de curiosidade e perplexo pela presença do colosso em tão recôndito lugar, que nem freguesia era

sei que está hoje recuperado mas à época evidenciava fadiga e maus tratos, além de abandono, mas suficientemente preservado para lhe surpreender o rico mobiliário antigo, incluídas escrivaninhas de encantar e uma fascinante "pharmácia", com potes e cadinhos de preparos e mezinhas, carbonatos e sais, ervas e líquidos coloridos de gasear a imaginação, com vários folhetos de instrução, da feitura ou administração e preconizados efeitos respectivos

as estantes enfeitiçavam de exemplares antigos, grossos volumes encadernados e ilustrados, muitos nunca haviam sido lidos pois mantinham intactos os cadernos em que se agregavam as folhas na técnica editorial de antanho

contratos de concessão, dos primeiros do País, em versão de uso corrente como hoje deveriam dar-se publicamente a conhecer, para evitar equívocos - claro que hoje, em vez de sintéticos fascículos, seriam profusos volumes em juridiquês incompreensível, que assim deliberadamente são confeccionados para desentendimento e mistificação geral a que só acedem peritos dotados de poderes divinatórios, regra geral recrutados nos escritórios de advogados que nomeiam os ministros que assinam tais contratos e depois vão a presidentes ou assessores das concessionárias ou respectivas consultoras

e, concluindo, causando tais assoalhadas a sensação de ali querer ter nascido e vivido ou, ao menos, que o fim de semana em apreço pudesse prolongar-se o bastante para comer os figos e maças da propriedade, beber da água do poço com rãs, manusear aquela valente livralhada e..., Deus me valha, botar o dente nas cartas (res)guardadas naquelas gavetas acumuladoras de vidas e histórias e sonhos e palavras antigamente usadas a poder de aparos e tintas aquém teclas

hmmm...

;_)))


De Maria Brojo a 20 de Setembro de 2010
António - qualquer acrescento ou tentativa de contrapor argumentos, que não tenho, ao seu escrito seria ocioso. Tive o privilégio, durante a infância, de me mover num espaço assim. Memórias indeléveis. Gosto para a vida.
De EJSantos a 20 de Setembro de 2010
"As Casas dos Brasileiros que desde as férias da infância me alimentam o imaginário, pela majestade e profusão ornamental foram ridicularizadas: exibição de poderes e haveres por pessoas sem instrução e gosto"

Pois, pois. Tinham que ser ridiculo. Afinal, aqueles pobres, que deixaram de o ser, cometeram o grande pecado das pessoas invejosas: tuveram corajem de tentar a sorte e venceram.
Ainda hoje as pessoas assim suscitam inveja. E os mesquihos, tentam sempre deminuir esta gente de valor.
De Maria Brojo a 20 de Setembro de 2010
EJSantos - ontem, como hoje, as invejas miúdas existem. Que pena não abrir as almas ao muito que possuem os pobres ditos por instruir!
De perseu a 20 de Setembro de 2010
Não tendo conhecido nenhuma 'morança'nem os hábitos dessa nobre gente para quem a Pátria foi madrasta,creio que não obstante tinham o sentido do equilibrio e da estética.
Tal não aconteceu com os emigrantes do anos 60,foram construidas e consentidas autenticas aberrações reveladoras de gosto magano e de manifesta sobranceria.
Para além do alarde que fazem ao seu estatuto de 'bimbalho'que sabe "parlê française'.
Vieram mais bimbos que bimbos foram.

"Nunca sirvas a quem serviu...

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