Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010

IMPÉRIO DO ‘TEM QUE SER’

Nathalie Picoulet, Mauro Cano

 

Por razões profissionais e voluntárias, veio recambiada para Lisboa. Aluguer de casa, mudança dos púcaros e tarecos, novo ambiente de trabalho. Cidade por dominar nos atalhos e desvios e nos caminhos d’alcatrão que dum lugar levam a outro. Treina percursos, acabada jornada de trabalho. Filha pequena a 300km de distância por ter iniciado actividades lectivas ainda a mãe não mudara do ninho quente que às duas comprazia. Uma vez por mês, está com a sua menina na cidade donde veio, custos descontados no parco vencimento de licenciada com pós-graduações no cume das ondas científicas; na outra é o pai, ex-marido, que lha traz. A renda paga ao senhorio pela casa digna que de Janeiro em diante, acabado o primeiro período escolar, alojará mãe e filha. Do pré, leva a maior fatia. Descompensada afectivamente pela ausência da criança prolongamento do útero e amor maior. Ouve-a ao telefone. Umas vezes chora, raramente espraia no rosto sorriso - apavora-a perder o cordão que unia ambas.

 

Procura escola para a filha. Sobreviver capital na capital. Compatibilizar horário de trabalho com o cuidado de estar na escola a tempo e horas para a menina não sentir esperas de falso abandono. Mulher só na moura urbe. Sem rede de apoio familiar. E quando vierem febres infantis? Faltar pode, mas não deve sob pena de danos profissionais que à pequena família acrescente reveses. Quotidiano difícil para mães e pais isolados com filhos a cargo. Famílias monoparentais, classificação useira. Nelas, o império do ‘tem que ser’ substitui escolhas. Valem, como âncora, afectos - «novam» e renovam o brilho dos dias.  

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:42
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De Veneno C. a 11 de Novembro de 2010
Quase poético: 'nos caminhos d’alcatrão que dum lugar levam a outro'. Ou seja, as banais ruas.

Mas este levam irritaria um vulgar alentejano que, não sendo muito dado a poesias... reagiria com grosseria à inspirada musa, invocando cena que levaria a sítios menos polidos ;-)

O ninho quente também é quase poético... a menos que estivesse um calor danado ou fosse básico de canídeo rafeiro?

Mais que poético: com pós-graduações no cume das ondas científicas. Há um famoso poema que trata de todos os cumes... mas não chegou a este nível ;-)

Nada poético, até Janeiro: só está com a filha duas vezes por mês (duas em Novembro e duas em Dezembro).

Surrealismo? Criança prolongamento do útero :-(

Melhor fazer seguro: apavora-a perder o cordão...

Grande frase: sobreviver capital na capital (tenho pena de não ter pena - resta-me teclar).

Castigo dos deuses: para a menina não sofrer esperas de falso abandono :-(

Impossível: mulher só na moura urbe (será Lisboa?)

Violações gramaticais:

revezes (ê)

s. f. pl.
Us. na locução adv. a revezes, cada um por sua vez; ora um ora outro.


useiro
(uso + -eiro)

adj.
Que costuma fazer alguma coisa.
ser useiro e vezeiro: fazer muitas vezes alguma coisa, geralmente censurável.
(é o caso!)

Salvação última: os afectos. Renovam o brilho dos dias. Quando há sol. Não das noites.

Valeu. A pena. Não tenho. Alguém tem. Não desdenho a cena mas o texto. E o título: não há qualquer império. Im(pro)pério? Apetece. E o 'tem que ser' tem muita força: é a vida? Alternadamente, sim, às vezes não.



De Veneno C. a 11 de Novembro de 2010
Confesso que não quis ter graça na dupla desgraça, do texto e da mãe pós-graduada. Terá sido um sentimento de repulsa pela desapropriada atitude de ilustrar um texto com um ficcionado drama a puxar ao 'coitadinha', ficando tudo assim... como estava?

E voltei para admitir um possível contágio do Catita, desmontando a realidade, como que 'trincando o pastel para o sentir desfolhar'? Um alerta para admitir que há coisas que melhor seria deixar estar, respeitando a sua intimidade.

http://www.youtube.com/watch?v=yNeJG1PBAfM
De Maria Brojo a 12 de Novembro de 2010
Veneno C. - análise escrutinadora da palavra mais ínfima. Justiça, ora sim, ora não.

O vídeo é um primor de desconcerto. :)
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