Al Moore
Não aqui nesta Lisboa cinzenta e fria para peles que geadas não enrijaram. Mas caem nas regiões altaneiras do meio para cima de Portugal. Cristais brancos de água, sólidos porque as moléculas estruturam regularmente nós de redes em anéis, são os farrapos brancos que fogem dos céus plúmbeos, depois branco cerrado e luminoso enquanto a neve cai. No ‘ai que isto vai a pior’, escolas anteciparam o fecho e enviaram, em segurança, a criançada para casa. Seja o borralho de brasas ou sob a forma geométrica de termoventiladores e condicionados, acolhe e sabe bem a cada um da família que, aos poucos, reuniu.
Talvez amanhã, o hoje de quem lê, estradas interrompidas por gelos dificultem rituais. Faltam limpa-neves que conservem estradas desimpedidas num país brando em frialdagens, em lareiras onde mal fervem nas panelas de ferro contestações sem extravasarem as bordas. Evaporado o solvente de sobra, geram caldo morno, excepto para quem o consome devido à precisão; mais parece água chilra com couves sobrenadantes do que sopa de substância. Falta o naco de carne ou de chouriço de vinho, o feijão encarnado, abóbora em pedaços que lastram o estômago e não envergonham quem, hospitaleiro, convida: _ Venha p'ra tigela de sopa connosco!
Indiferentes, os flocos caem, as indignações sobem não passando do limite feito de telhas encarreiradas. Engolidas com o caldo de nada e o cozido de coisa nenhuma. As indignações, porque o telhado resiste. Até um dia. Até ver.
CAFÉ DA MANHÃ
Adoçantes
Peregrinando
Brasileiros