Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

PANEGÍRICO A MANUEL DA ENCARNAÇÃO MARQUES

Stevan Dohanos, Pal Fried

 

Não é usual barbeiro ser notícia quando a tumba o recebe, salvo se tornado bem-sucedido empresário ou ministro ou investigador ou criminoso ou artista. Porém, na biografia deste que aos noventa e cinco se despediu nada consta de relevante excepto ter aparado pêlos a Salazar. À época, devia ser honra equiparada à da depiladora da Rainha Isabel II ou à pedicure que lhe cuida os pés. A diferença essencial reside no aproveitamento pós-morte dos famosos que os sobrevivos prestadores de serviços íntimos fazem. Nalguns lugares estrangeiros, sopram com força o trombone e espalham aos ventos quatro muitas e porcas misérias. Tablóides e jornais sérios publicam, livros entram no prelo, despontam amantes ocultos, filharada incógnita. Almas farisaicas vendem confidências a troco de vultuosas lentilhas.

 

Por cá, somos mais puros. O Sr. Manuel da Encarnação Marques, durante quarenta anos após o falecimento de Salazar, pouco mais disse do que ser o “Doutor muito educado, mas muito cabeça no ar”. Por tal, confessou não ter sido causa da doença e morte a queda da cadeira desengonçada, mas pomposo trambolhão. Sobre mais não descoseu o silêncio. Nada sobre os elegantes e fátuos romances do pinga-amor António de Oliveira Salazar no Vimeiro e fora dele. Se confidências outras houveram entre barbeiro e o seu habitual cliente, para sempre afundadas na cova.

 

Isto, sim, é dignidade. Reste como exemplo. Que o 14 de Janeiro figure no calendário nacional como o Dia da Discrição. Ao menos uma vez no ano, contenham-se gorgomilos destravados e não emprenhem ouvidos. Fineza agradecida pelo povo.

 

CAFÉ DA MANHÃ

  

No tempo do flower power, finou-se o pregador. Cortesia do Pirata-Vermelho.

 

publicado por Maria Brojo às 06:29
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9 comentários:
De António a 18 de Janeiro de 2011
pois muito educado, é bom de notar, e entre barba e cabelo mandava outros discretos profissionais pentear uns denunciados como rebeldes ou comunistas - é que se não fossem eles, podiam ser os filhos ou os pais deles

e enquanto lhe caíam os ditos pêlos, aos que não eram torturados ou aviados servia-lhes de lição

;(


De Veneno C. a 18 de Janeiro de 2011
Aquelas lentilhas (vultuosas: vermelhas e inchadas) aparecem algo indigestas junto com as quatro muitas e porcas misérias testemunhadas pela pedicura que trata dos pés e do barbeiro que corta a barba (e o cabelo). Talvez até da massagista que faz massagens?

Claro que se o homem não fosse muito (com a) cabeça no ar, como poderia ele aparar-lhe os ditos com o devido rigor e aprumo?

Não podendo, de facto, descoser o silêncio por incapaz, apesar de ser forte em tesourar, descaíu-se com o houveram (ouviram?) trambolhões... mas sem se descoser sobre o onde, quando, como. Um verdadeiro baluarte.

Parece que a fineza do povo se inclina mais para um ano inteirinho de à discrição (À livre escolha. À vontade. Em abundância. Tanto quanto se queira). ;-)

(finura bem demonstrada na actual campanha eleitora)

http://www.youtube.com/watch?v=jFcZKVRl7gU



De Veneno C. a 18 de Janeiro de 2011
A respeitos dos vários powers presentes

1- As lentilhas (desta vez) não eram para o António (que bem as merece!)
2- O homem das tesouras era mesmo certinho (nasceu e morreu a 14, viveu os 95 em ponto)
3- É muito mais energético o da Stone (ou não?)

http://www.youtube.com/watch?v=TBH8o8XXnVM
De Veneno C. a 18 de Janeiro de 2011
Para dissipar... em vez de lentilhas, ondas e gaivotas ;-)

http://www.youtube.com/watch?v=zMaRqvMsiEM
De Maria Brojo a 23 de Janeiro de 2011
António - o homem era sabido, figura e figurão. Ele lá sabia como prender por tantos anos o Dr. Salazar.
De perseu a 18 de Janeiro de 2011

Havemos de considerar que foi um Homem fiel.
Ridiculo neste tempo onde tudo se vende.
Quanto teria ganho se vendesse aos pasquins e às tvs de choldra as suas memórias ?
Paz à alma de um Homem.
De Maria Brojo a 23 de Janeiro de 2011
Perseu - descanse em paz!
De António a 20 de Janeiro de 2011
Veneno: bem vindas as não fiduciárias lentilhas, de predilecção se confeccionadas à maneira - em saladas e em muitos pratos portuguesinhos - por exemplo para variar das também simpáticas ervilhas, nos ovos escalfados, nas farinheiradas e enchidos afins - e até a acompanhar bacalhau!

Perseu: fiel, o botas? além de fiel a si próprio, só mesmo fiel à fraude eleitoral como forma de se perpetuar no poder, à tortura para aterrorizar supostos adversários e a população em geral, ao assassinato para eliminar opositores, ao isolamento do País na miséria, ao subdesenvolvimento, à iliteracia, à desnutrição, à tísica, à mortalidade infantil e à mutilação da juventude, à imposição da cultura de subserviência que ainda hoje clama por autoritários e venera supostas sumidades financeiras, ao provincianismo, ao paroquialismo de padrecos, regedores e senhores doutores!!

Veneno: magníficas as ditosas, o revolto mar e o seguro cais em que, noto agora, se vislumbram claras influências a Ben Harpour!!!

;_)))


De perseu a 24 de Janeiro de 2011
Santo Deus António!
Referia-me ao barbeiro.
Nunca ao manholas ultramontano.

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