Sexta-feira, 4 de Março de 2011

BOTAS, BOTECO E SANDÁLIAS

Sorayama Hajime, Sally Davies, autor que não foi possível identificar

 

Pelas nove, antes do horário estipulado para trabalho, o uso de há um ano: entrar no quase boteco, quase restaurante, ajeitar uma cadeira, pedir um café bem cheio e um copo de água. Podia tomar a delícia em casa, mas perderia momentos de conversas facilmente audíveis de gentes comuns em frente, ao lado, no balcão. Futebol, se na véspera houvera jogo com um «grande», o estado da nação reflectido nas vidas, temas avulsos que só aos próprios interessavam, estes segredados, cúmplices.

 

Manhã soalheira e fria. À direita da entrada, no chão, um par de botas pretas, saltos íngremes levemente descascados na base, elegantes no conjunto, obedientes à moda. Estaquei. Quem as ali deixara como lixo sem pensar no recipiente ao lado que acumulava desperdícios, sem que a paróquia, centros outros de recolha solidária fossem hipótese? Intrigada, despedi cogitações – era pressa a dose de adrenalina matinal.

 

Estando o Sr. Pereira sozinho, os narizes mergulhados nos jornais não contavam, perguntei:

_ Bom dia! Sabe das botas, praticamente novas, ali depositadas na entrada?

E ele que sim, que delas soubera pela dona em fúria à conta dos pés maltratados após noite de trabalho, que tomara o pequeno-almoço e partira descalça. Lançou provocação às cozinheiras:

_ Porque não aproveitam as botas novas aqui à porta?

De dentro, respostas:

_ São lindas, mas amigas do serviço nocturno. Pergunte amanhã às colegas da dona se as querem.

_ Não enfio vícios em lado nenhum, quanto mais nos pés!

Ouvi e calei o débito de juízos morais e repulsa. ‘Não sou dessas’, seria réplica mais económica. Ponderei se os homens daquelas mulheres impolutas(?) não seriam clientes de quem elas desprezavam. Afinal, ao deitarem-se com os respectivos, sabiam se aquela ou outras acusadas não estariam presentes na cama pelos restos invisíveis neles deixados?

 

Ainda bebericando a mistura fervente e negra, lembrei cena no Julho passado. Temperatura de ananases. Almoço e passeio num parque cerca de casa. Sandálias com nesga de salto e tiras cruzadas que não resistiram a cabriolice num penhasco. Analisei o estrago: sem arranjo. Caminhar semi-calçada, era desconforto. Larguei-as em bom recato. Arrisquei cumprir a distância descalça. O asfalto, o empedrado escaldava. Arribou interpelação: quem me viu naquela figura rir pelo prazer do diálogo e da aventura que terá pensado? _ Excêntrica, desavergonhada, ‘mulher da vida’ que a tudo se habitua? _ E se fossem alinhar pêlos a macacos?

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

O segundo vídeo é devido a cortesia do Cão do Nilo.

 

publicado por Maria Brojo às 07:36
link | Veneno ou Açúcar? | favorito
10 comentários:
De Cao do nilo a 4 de Março de 2011
Depois de quilometros de auto estrada e rotineiro "lavoro", a pausa antes do almoco.
Sendo a dita como de facto é a mais velha profissao do mundo, pois nada a fazer.Há procura logo há oferta ... o mesmo sucedia nos países de economia centralizada dos "amanha que cantam(riam)
Ilegalizada, puniçao para vendedor(a) ou comprador(a) já.
Legalizada pois ganham todos até os cofres do Estado.
Foi-me cochichado que o Ministério dos Negócios Estrangeiros contrata forte e feio aquando de visitas de dignitários da estranja... Sou como se depreende pela legalizacao.
............................................................................

Se fazer amor é legal
Se vender é legal
porque nao é vender sexo legal?

George Carlin (stand up comediant)

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Agora a musca como se dizia na Beira (Baixa)

Post:

Jackes Brel-Au suivant-English subtitles

Café da manha :) (nao tenho til) e
como quem aos seus sai nao é de Genebra:
Something Stupid-Frank Sinatra

Meu café da madrugada:
J.J.Cale Don¨t go to strangers



De Cao do nilo a 4 de Março de 2011
Dei com esta :))
Como diriam os bifes:
The other side of the switching coin.

Ouvir Youtube (tal como os anteriores)

Jessica Simpson- These Boots
De Maria Brojo a 10 de Março de 2011
Cão do Nilo - sou mais pelo arrumo legal e sanitário das damas da noite em casas próprias. Menos expostas a perigos, com vigilância médica e ordenado sem chulices. Inevitável o IVA e IRS. Trabalhadores somos todos, ou não?

As sugestões? _ Um espanto!
De Veneno C. a 4 de Março de 2011
«Os inimigos da idéia de legalização da prostituição apontam experiências que deram errado. A mais visível delas é a da Holanda. Imaginava-se uma queda de procura pelo sexo pago. Deu-se o oposto e “hoje escuta-se somente sobre tráfico humano, exploração e outras atividades criminosas”, (Job Cohen - prefeito de Amsterdão/Holanda).
Minha opinião a respeito da Legalização é de ser totalmente contra, pois acredito que nenhum ser humano deve ser considerado mercadoria e a regulamentação dessa prostituição fere o direito humano fundamental da dignidade e da autonomia sobre o próprio corpo.»

Assino por baixo

http://williambhz.blogspot.com/2007/06/triste-n.html
De Maria Brojo a 10 de Março de 2011
Veneno C. - não sendo maçada e a propósito do tema em discussão, solicito leitura acima.
De Perseu a 4 de Março de 2011

Acreditava eu que as donas Purificação da Silva já estavam extintaa,supunha eu que a moral de sacristia tinha terminado.
Erro crasso!
Questiono-me;
Quantas donas Purificação da Silva não enfeitam a testa dos esposos com mágnificos cornos, de fazerem inveja aos belos exemplares barrosões?
Claro que se uma dessas impolutas tivesse visto a Teresa nesse preparo teria pensado;Jesus Maria obrigado por eu não ser como aquela pecadora.
De Perseu a 4 de Março de 2011

Desculpe esta nova ocupação do espaço da Teresa,mas gostava de acrencentar;

E SE FOSSEM CATAR PULGAS AOS MACACOS COM LUVAS DE BOXE?
De Maria Brojo a 10 de Março de 2011
Perseu - Bem pensado!
De Veneno C. a 4 de Março de 2011
Nível demasiado elevado. Hipo é o què? Talvez a maioria delas tenha corpo de rabecão.
De Maria Brojo a 10 de Março de 2011
Veneno C. - tantas temos rabecão em forma de corpo e veja lá se não lhes faltam oportunidades!

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