Domingo, 2 de Novembro de 2014

CORTINA OU FALTA DELA

Colecção "Dezembro, Lisboa, 2010"

 

Janelas miúdas. Caixilhos de madeira pintada na esperança de retardar estragos que os anos sempre provocam. Rendas genuínas, bordados fingidos que a China abastece. Curvas de ferro não enfeites, mas dissuasoras de amigos do alheio. Dentro, talvez já o dia tenha acordado vidas, aromatizado com torradas e café o espaço. Ou talvez não, que era também domingo, dia último do sono de fim-de-semana, dia segundo sem guinchar o despertador. Manhã feliz ou abúlica conforme o correr dentro. 

 

 

Apagados os candeeiros, o sol substitui-os. Ilumina detalhes miseráveis pelo abandono, a alegria do amarelo mercê da pintura e das ‘grades de barriga’. A tijoleira em arco esfumado nas rectas limite legitima o sonho de um quarto aberto à noite e à luz da rua onde corpos se deleitam no gozo dos lençóis esticados, depois revoltos, depois puxados acima, não beba o frio o suor do encontro.

 

 

Notas cerâmicas, verde em linha, desenhos que foram moda e hoje história reluzem pintura cozida em muflas. O ondulado das telhas é recorte dum todo, como a imagem, como é o visto por fora das coisas e das pessoas. Quando águas-furtadas desafiam cimos e se alinham em simetrias, resvala a fantasia para espaços aconchegados, quiçá escadaria de madeira que a eles conduza, onde é ouvido o zumbir dos ventos e das chuvas caídas em bátegas.

 

 

Telhados e uma sacada. Cortinas de novo. Pedra circunda-as ou divide cal doutra cal e da caleira seguinte. O tijolo da cor, o declive da sobreposição cuidada do barro a que fornos deram resistência para abrigo, apelam a demora extasiada pelo que foi comum e rareia no presente. A sacada é esquina entre o novo e a tradição – vasos colados ao ferro/borda intrujam quem inventa jardins e horizontes floridos. E que bem o fazem. Que modo feliz de ir além das paredes. 

 

 

Na ronda que termina, mais pedra, mais filigrana em ferro, outro candeeiro enchapelado, outros azulejos como brasão de quem habita e dependura à janela as intimidades que a máquina torceu até não pingarem rua e transeuntes. 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 08:00
link | Veneno ou Açúcar? | favorito
2 comentários:
De António a 12 de Dezembro de 2010
intimidades – passeata serena a coleccionar e partilhar a Lisboa que se esconde e mostra em janelas e atavios mais seus haveres dependurados em fios, delimitadores do público/privado em recortes dos olhos para cima, em varandas, candeeiros e telhados titânicos de surpresa em cada muro, parede e esquina

extimidades – serenata em modo passeio por entre imagens legendadas apesar e em complemento da evidência, ilustrando a molécula mãe da arquitectura de uma cidade que é a sua vivência, talvez mais acesa no momento de se passar junto a uma janela, rapidamente a saber e dar sinal se lá aguarda uma Ophélia ou demoradamente em camarote familiar à espera de ver e referenciar um Poeta a compassar

urbanidades – e assim a cidade povoa e se povoa de histórias e de alguma história, algum dia recuperadas na literatura em novos casos do Beco das Sardinheiras ou a debate entre vizinhas, em tertúlias de café ou em serões de tasquinhas, nos antigos pátios e bairros de casario debruado a cantarias implantadas a régua e esquadro, ou em hipopes e raps nos corredores, terraços e adros chamados espaços, patinados e grafitados dos bairros sociais anodizados, em dinâmicas imprevisíveis mas, também por isso, potenciadoras de narrativas e projectos, namoros e novos sonhos, passos perdidos e reencontros, objecto e também, se assim quisermos, alma do lugar de indizíveis felicidades

;_)))

De Maria Brojo a 17 de Dezembro de 2010
António – colecciono textos seus nos tesouros do SPNI. Este é um deles. Serenata, também ela, que publicarei ao reportar um dos meus calcorreares em Lisboa.

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