Vinte e cinco anos. Sem terem galgado o tempo num «ontem» próximo. Antes recuado. Longínquo. A distância insinuou-se afastando-os. Primeiro, na partilha do sofá. Já sentada entre eles, cobriu-os com manto frio. Dobraram assentos e silêncios. A economia da fala e da partilha pretextou, depois, a divisão de serões. Cumprido o ritual do jantar, ela voltava à sala, ele escapulia-se para o escritório. A banalidade conjugal adormecia com eles. Em silêncio.
Bodas de prata. Marcantes. Dolentes. Num impulso, ele largou tudo e saiu. Uma joia, talvez. E flores como há vinte e cinco anos atrás. Mas não. Seria despropósito. Queria clivagem. Rutura com erros e rotinas. Um recomeço. Optou por um vestido. Branco a condizer com uma nova união, diferente, virginal na acidez das memórias. O tamanho era o dela, sabia-o, sentia-o nas mãos - não esquecera as fronteiras do corpo que desejara, desejava e ambos negavam. Desencontrando frieza e dissimulando o amor.
Ela experimentou o vestido. Viu-se de branco. Corpo bem delineado surgindo do viés da seda. Gostou. Mirou-se num sorriso - não distava assim tanto da mulher que fora! - e voltou-se. Deu-lhe um beijo grato e feliz sem o demorar. Sentia-se cansada. O trabalho do dia, naquele exato instante, pesou toneladas. Carga excessiva para reunir forças e ir jantar fora. Ficaram em casa. No silêncio do costume. Estropiaram ilusões. Como de costume.
Eros, filho de Afrodite, meu maroto, porque não cuidaste acordar-me antes que os raios da da minha madrinha Aurora tocassem o fundo da minha caverna. Lograria pedir, á deusa Simone que se sustenta para lá do Equador, que ousa-se cantar para estes dois mortais, súbditos de Ulisses e, talvez cercanos do Vate, a sua versão da trova “Fica Comigo Esta Noite”, pois: “Lá fora o frio é um açoite / Calor aqui tu terás”. Nem as argamassas de gelo relutariam.
São mel Imagens hiper-realistas. Um persistente paralelo entre passado e presente. Retratos femininos de uma grande sensibilidade. A tranquilidade, o primor dos olhares e a inexcedível formosura de seus modelos. Os vários quadros, vistos assim em sequência, parecem transmitir sentimentos de eterna espera de um amor ausente em que o corpo vai envelhecendo sem outro préstimo que não seja o estético. As maçãs estão lá, onde pára o Adão?
A.Reis - Pascal Chôve é um pintor francês nascido em 1960. A sua obra pictórica é feitiço que vai muito além da simples forma do tema.
A base das pinturas de Pascal Chôve é resina sobre a qual coloca variados materiais como tecido, papelão, rede. Caracteriza o seu trabalho a existência de vários planos e o uso elaborado da luz que surge a partir do canto superior direito, conquanto o esquerdo não seja esquecido.
Os temas nas pinturas mais recentes, fruto de muitos anos de trabalho, são dominados por paisagens, cenas de interiores ou estruturas onde a mulher tem protagonismo.
Pascal Chôve mistura passado e presente na sua obra. Preocupa-o transmitir serenidade com tocante sensibilidade, evitando o lado trágico da vida.
Daquilo que me lembro da história da arte, o modelo de iluminação da cena, dependo do cânone da época do pintor (neoclássico, romântico ou moderno) em que a iluminação não é feita da mesma maneira. Julgo que também pode depender da hora do dia, se for essa a intenção do artista, mas já estou a meter-me em coisas que li em tempos a "vol d'oiseau". Peço perdão por alguma asnatice que aqui eventualmente reproduzi.
A.Reis - não vislumbrei alguma 'asnatice' no comentário. De facto, o modo de iluminar a tela depende dos fatores que mencionou. Contudo, Pascal Chôve optou pelos cantos superior direito ou esquerdo de maneira sistemática.
Obrigada por estimular abordagens com luzes novas.