Segunda-feira, 1 de Junho de 2015

DIÁRIO DE M.

Charles Muench, Kollar Anderson

 

Sábado, 28 de Setembro

 

Não dormi quase nada. Mais uma daquelas noites que espero apagar da memória ao levantar-me. Na vigília, foi vívido o dia em que pressenti e o outro em que soube. Se no primeiro sorri, deslumbrada com o segredo que só eu guardava, no outro, um rubor delicioso e um orgulho único legitimaram a evidência: estava grávida.

 

Não sei porque recordo isto agora. Talvez por ser sábado e me sentir só. Já te confiei, meses atrás, todos os medos, receios e esperanças que envolvem o mistério pelo qual ansiava há muito. Dúvidas, tive, e uma certeza também: vou ter o melhor que a vida me pode dar. Nada rivaliza com esta riqueza que abrigo, nada poderá pô-la em causa ou toldá-la. Não vou deixar.

 

Gostaste da notícia. Primeiro, olhaste-me sem acreditar; ao assimilares a verdade estampada em desenho de felicidade no meu rosto, houve o beijo, a elevação no ar, a inquietude no dizer: «Sou um bruto, não devia!, Estás bem?, Desculpa!». Esvoaçaste em beijos, depois. Eras assim: sensível, meigo, o meu companheiro de anteontem; gostava que o fosses hoje.

 

Para ocupar a solidão vi cinema canalizado. Juntei à ansiedade o pressentido. Irracional, sei. Que saudade do ronronar comum em circunstâncias dantes!... O que tínhamos ia dando para bem mais do que pagar contas correntes. Que fazes longe, quando em casa és preciso, mais agora do que nunca? Dois meses de lonjura, em nove, é muito tempo. Demasiado para ambos. Demasiado para os três que somos. Não era o dinheiro que faltava. A mim faltas-me tu, ao que protejo falta-lhe saber-me afagada pelo pai. 

 

Adormeci agitada. Ele, talvez por isso, não me deixou sossegar. «Vozes amigas» preveniram-me para não te deixar ir, para me obstinar na recusa. Não me atrevi a fazê-lo - deixei-te decidir livremente. Foste. O jogo do mais querer quando a ambição se instala, perverte. Avaliam-se mal os que julgam não serem corrompidos. Mas são. Mais do que merecem ou precisam. Como tu. Do que eu preciso ao teres decidido procurar longe de mim bem-estar aventureiro. Por isto não dormi, não durmo, renovo no dia os pesadelos da noite. Tens de regressar a tempo. Não apenas para assistir ao parto como dizes fazer 'qualquer homem que se preze' - 'homem que se preze' não deixa entregues a outros os tesouros que possui sabendo-os frágeis. Não esperes até nos olhos doutra, como nos meus ou nos teus restar, seco, o sal das lágrimas.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:00
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6 comentários:
De c a 29 de Junho de 2011 às 14:19
sem mais explicações, ou é transcrição ou é transfiguração. ou nenhuma das 3 (ficção plagiada?).

continuação da saga do mexilhão...

http://www.youtube.com/watch?v=fVTr2jrpuxo
De Maria Brojo a 4 de Julho de 2011 às 14:51
C. - não aceita ficção? Todos os escritos têm de ser autobiográficos? Olhe que está redondamente enganado. Alargue a metaleitura. Faz-lhe bem.
De c a 5 de Julho de 2011 às 22:49
pois a leitura correcta é o que se lhe recomenda.
o redondamente enganada parece estar do seu lado.
sem explicações, mantenho a transcrição (como já o fez) ou a transfiguração (menos provável) não descartando a ficção plagiada (não inédita).
também me atrevo a recomendar acto de humildade como tratamento recuperador de maleitas que deixa transparecer (e bem!)

http://www.youtube.com/watch?v=Wbpjjo18zRY
De Maria Brojo a 6 de Julho de 2011 às 14:26
C. - se o diz, que fique contente. Não subscrevo esta sua última reflexão.
De c a 6 de Julho de 2011 às 17:02
contente que fique sempre ;-)
pelos lidos, assume-se como juíza em causa (im)própria: a essência do SPNI?

http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=28751&op=all
De a.r. a 2 de Junho de 2015 às 15:32
Não pretendo envolver-me em querelas intelectuais, mas o tema colocado pela autora do blog é recorrente e, foi já tratado até aos dias de hoje, em muita poesia e em concreto no fado de Lisboa. Julgo que cada um é livre de o abordar sempre que tiver inspiração, pelo que me parece haver por aqui alfinetadas sem motivo aparente.

Aproveito para colocar aqui o poema, datado, da canção Gente Humilde que "C" referiu e que me parece vai tornar-se contemporâneo, dado o rebaixamento social em marcha.

Versão cantada por:


Ângela Maria

Tem certos dias
Em que eu penso
Em minha gente
E sinto assim
Todo meu peito
Se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Como desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a como
Quando eu passo
No subúrbio
E muito bem
Vindo de trem
De algum lugar
Ai me dá uma inveja dessa gente
Que vai frente
Sem nem ter com que contar
São casas simples
com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrita em cima
Que é um lar
E na varanda cores tristes e baldias
Como a alegria de não ter
Onde encostar
Ai me dá uma tristeza no meu peito
Pelo despeito
De eu não ter como lutar
Eu que não tenho
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

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