Quarta-feira, 25 de Junho de 2014

E DA CRISÁLIDA NASCEU A MULHER

The Love Boat by Berit Kruger Johnsen

 

Já contei de uma menina de olhos e cabelo cor de terra, cujo brinquedo maior era a evasão para o mundo inventado? De como se aninhava no cadeirão de verga do jardim ou no sofá do quarto e deixava adormecer as tardes enquanto lia? E como devorava páginas encadernadas a que mãos e pés esticados chegassem? Das fugas solitárias para o areal duro na maré vaza?

Dessa menina veio a mulher. Feita para amar e voar. Amar pessoas e voar para o mundo de faz-de-conta que nunca quis perder - no regresso sempre trouxe reservas de ideal e vontade. Oxigénio das horas que orientam carícias, que fazem esvoaçar os lábios na pele dos que ama. Gostar, dar, receber são verbos que conjuga sem medir a porção das fatias.

A jovem que antecedeu a mulher era outra. A ilusão arrebatava-a, o quotidiano comprimia-a até ao insuportável. Não quadrava nas posturas recomendadas - rebelde, insubmissa, vivia no contraditório. Obrigava-se a exibir o molde certo, para que o «eu», dela apenas conhecido, permanecesse barca vogando na água do silêncio.


No primeiro dia da vida dela, já muitos haviam passado. Ao identificar a fartura de encenação e a míngua de coerência, abanou o seu pequeno mundo que tremeu. Ela com ele. Teve medo, foi forte, fraca, chorou e riu. Aos poucos, da crisálida surgiu a mulher. Dizem-na forte; queixo erguido e desafiador das fronteiras. Mas não, apenas rasga a seda sua. Rejeita a obediência a normas patéticas. E ri. Sofre. É frágil e segura. Até ao sempre num qualquer dia.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:05
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6 comentários:
De a.reis a 25 de Junho de 2014 às 16:36
É mel.
Gosto deste texto. Está carregado de um certo lirismo e, ao mesmo tempo de um realismo oculto, que nos faz pensar sobre o percurso psicológico desta menina, que o tempo transformou em mulher e esposa, que é na sua maior parte transversal a todas fêmeas humanas.
Será que se esqueceu das suas amiguitas ou amiguitos da infância? Não os vi na praia.

A.Reis
De Maria Brojo a 26 de Junho de 2014 às 10:33
A.Reis - não me esqueci. A razão é outra: fui uma criança solitária devido à condição de rebento único em três gerações. Tive e conservo alguns amigos de infância que referi noutros textos, mas a fatia maior da minha meninice foi passada na condição de menina só, embora rodeada de muito amor familiar.
De A.Reis a 26 de Junho de 2014 às 11:23
Não deu conta dos querubins? Eles sussurram-me "estivemos lá!" .
De Maria Brojo a 27 de Junho de 2014 às 09:16
A.Reis - e estiveram. Gostei que os tivesse ouvido.
De A.Reis a 26 de Junho de 2014 às 01:22
CARAVANSARY
Canção do músico e compositor japonês Kitaro, de cariz romântico e contemplativo.
Quando a ouvi, parecia-me o Hotel Califórnia dos Eagles, com a qual parece ter algumas passagens semelhantes.
O poema, segundo se me afigura, trata de alguém que não aproveitou a primavera da vida e do amor e, agora muito tempo depois, e com a caravana já com uma longa jornada, quer disfrutar do amor perdido.
As caravanas seguem um itinerário entre dois pontos opostos e não andam em círculos nem elípticas. A natureza só dá uma chance. A fruta tem épocas próprias.
Olhemos um grão do trigo: nasce, cresce e morre reproduzindo-se, pouco mais somos que isso.
Deixemos o realismo pessimista pois a musica é linda.

De Maria Brojo a 26 de Junho de 2014 às 10:41
A.Reis - foi tal qual como a interpretei. Pela harmonia musical, o compósito foi referido nas 'tags', e por algumas das razões que referiu escolhi-a. Porém, a vertente pessimista em nada condiz comigo: sou uma otimista de primeira água. Gostei da sua análise. Bom dia.

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