Quinta-feira, 26 de Junho de 2014

NÃO URINES DE PÉ

Tetsuya Ishida

 

“Não urines de pé, virado de frente para o sol: desde que se ponha, recorda-o, e até que surja não deves urinar na via ou ao lado dela, ao caminhar, nem se estiveres nu. As noites pertencem aos bem-aventurados. Sentado o faz um homem piedoso, que conhece a prudência, ou encostado a um muro de um pátio recolhido. (...)
Nunca urines na foz dos rios que deslizam para o mar, nem nas fontes deves urinar, mas de todo evitar tal coisa; nem deves defecar nunca; tal não é vantajoso para ti.”
(Hesíodo)

 

O tal de Hesíodo, que até ao lido não conhecia de parte nenhuma – também para educar o povão iletrado como eu serve a blogosfera -, era um cromo daqueles! Que em todos os tempos os houve e nos que vindouros também. Quis saber mais da biografia do grego, mas pouco logrei: considerando-se injustiçado (de facto, ressabiado) com a distribuição da parca herança paterna entre ele e o irmão, encantou-se com musas que o tornaram poeta popular. O António Aleixo lá do sítio, com a subjetividade elevada à enésima potência.

 

Do excerto acima transcrito da sua obra maior, “Os Trabalhos e os Dias”, perpassa fundado respeito pela natureza traduzido numa cidadania polida e ecológica, a deixar longe muitos dos machos-humanos do presente. “Não urinar na via ou ao lado dela”, “na foz dos rios (...), nem nas pontes (...), nem defecar nunca” são louváveis normas de conduta. Contradição perturbadora é a validade de algumas estar circunscrita ao período noturno. De dia, regabofe, à noite, civismo. E qual a razão que subjaz ao princípio de não urinar de frente para o sol? Não havia buraco de ozono, nem os ultravioletas eram conhecidos. Modéstia perante o Deus Sol? Este fazia parte do Olimpo?

 

Por outro lado, parece-me contranatural a recomendação de homem piedoso urinar sentado. Tão horríveis eram consideradas as partes pudendas ou era a modéstia causa? Bem basta o sexo feminino necessitar de assento para levar a cabo a função. Décadas atrás, e não vão mais do que cinco, as mulheres rurais erguiam um pouco as saias amplas mais a alva camisa-de-baixo, e, afastadas as pernas, “aqui vai água!” Giestais, hortas e penedos foram testemunhas silenciosas dos idos do urinar em pé feminino. Que tente mulher de hoje fazer o mesmo – até tirar os atavios, em vez do “vou fazer” concluiria “já fiz!”.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 09:09
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4 comentários:
De a.reis a 26 de Junho de 2014
Não se trata de matéria da esfera da parafilia urofilica, de que tenho a certeza a autora estar arredada, mas de assunto que continua a merecer a reflexão e reprimenda ao comportamento humano.
Sou adepto das Teorias de Darwin, mas começo a vacilar. Em 3000 anos que levamos desde que Hesíodo veio ao mundo, parece que ainda ninguém o ultrapassa voluntariamente. Continuam, muitos gentios, a não observar a regras de saneamento e de recato por ele preconizadas. Ele é nas bermas das estradas, é nas romarias e nas ruas das cidades e vilas durante a noite. Não se regista a evolução comportamental, tão querida do Darwinismo.
Disse um conhecido, meu doutor nestas matérias, num artigo sobre a água dos rios – “estamos a beber água de bexiga tratada”.
De Maria Brojo a 27 de Junho de 2014
A.Reis - assertivo e esclarecedor. Humorado também. Que bem me soube ler esta sua reflexão.
De a.reis a 26 de Junho de 2014

Do que encontrei a “vol de oiseau” sobre Tetsuya Ishida direi que foi um artista plástico nipónico que praticou uma espécie de surrealismo escuro. Nas gravuras de visão de pesadelo onírico, que vão desfilando, vejo submissão, robotização humana forçada, fusão do corpo humano com máquinas, corrida para lado nenhum. Assusta-me.
A sociedade japonesa, apesar de tantos equipamentos tecnológicos ter em boa hora trazido para o mundo, não conseguiu dar o salto do feudalismo para uma sociedade industrial tecnologicamente avançada, sem causar sofrimento entre os seus.
Acho que, o auto,r foi vítima da sua própria obra de análise da sociedade industrial, que o acabou por o levar á auto destruição, sem ter encontrado outra saída. Segundo li, pôs termo á vida, atirando-se de um comboio, um dos símbolos da revolução industrial
De Maria Brojo a 27 de Junho de 2014
A.Reis - quando soube deste pintor, a visão (sur)realista da sociedade em que estava enquadrado também me assustou. Adiei publicar exemplos da sua obra.
Sobre este artista plástico, escrevi:
_ Tetsuya Ishida retratou o isolamento, a ansiedade, o ceticismo, a claustrofobia e solidão pintando alunos, homens de negócios como parte de uma gigantesca fábrica, jovens adultos, principalmente do sexo masculino.
A sua obra contempla três temas fundamentais: a identidade japonesa no mundo atual; as estruturas sociais, académicas e educativas; a luta dos japoneses para se adaptarem às mudanças sociais e tecnológicas.
Os rostos que Tetsuya Ishida pintou são parecidos com ele o que levou à interpretação autobiográfica da sua obra. O artista sempre a negou firmemente.

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