Quarta-feira, 4 de Junho de 2014

NO DESCALÇAR DA MEIA E NA ALÇA CAÍDA

Roy Lichtenstein (1923-1997) - Landscape with figures and rainbow, (1980-1989)

 

Assim fora, assim nunca seria. Ela que sempre e nunca rejeitava usava-os vezes demais. A incoerência reclamada como defesa e arma para advires etéreos. Não conjugava futuros. Ou conjugava pelo gozo da negação imediata - sabia da pequena esfera recolhida junto ao nervo/comando da visão. Talvez morte, talvez vida. Esquecia-a. Lembrava-a se entretinha a tentação do prever. Ceifava-a como na infância vira nas terras fecundas pela natureza e regas.

 

Montanha ao alto, vale em música de cantares/alívios de corpos doridos. Lobos à espreita, raposas arrebatando poedeiras que supriam misérias. Da verdade antiga aos recontos aconchegados nos colos das matriarcas. A menina, ao tempo, das labaredas conhecia as das lareiras confinadas à pedra, castanho velho por remate. Já não assistia às queimadas nos campos nus onde o Outono descia manto de cinza fria.

 

Na urbe, do centro, capital, dez meses de existir: escola, liceu, faculdade. Na geometria parental, a criança era o terceiro vértice. Vazio o outro que desejava ocupado por laço fraterno. Sem ele, ficava a menina debulhando leituras e, pelo carvão, no «cavalinho» registando falhas e fantasias.

 

O quarto de brincar, excessivo, recolhia a criança só. Sem primos na rua de baixo ou de cima ou na cidade que pelos afetos e birras habitassem a irmandade possível. E lembrava da casa beirã o baloiço pendurado no braço robusto da nogueira velha e formosa. O teto de folhagem e frutos verdes. O vaivém que, nas férias serranas, o primo de Lisboa arrojava rápido e alto. _ Voa! Voava. Sem medo. No Jorge, constelava universo de confiança. Como no pai, cúmplice e autoridade. Como no tio franciscano. Como no avô que musicava os dias em pautas de alegria nos acordes da viola afagada pela tarde quase extinta. E havia fogo e turquesa no recorte do vale descido da Estrela até ao Buçaco que os malvas extinguiam do ver.

 

Dos homens e mulheres entendeu o visto entre paredes de amor. Eles laboriosos, providentes e previdentes, ternos, base e fundo da confiança. Elas companheiras, voluntariosas, pondo e dispondo com autonomia sob o tule do véu que levavam à missa de incensos e altares de tranquilidades floridas. Só na aparência submissas. De facto, senhoras donas da família.

 

A crisálida no seu casulo, mais cedo do que o previsto, teve mulher (…)

 

Nota – texto na íntegra aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:50
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