Segunda-feira, 7 de Julho de 2014

"O QUE VERDADEIRAMENTE NOS MATA"

Manuela Pinheiro - Eça de Queirós, 2000                                                                   Autor que não foi possível identificar

 

“O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espetaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros
não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem atos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.

Quando numa crise se protraem as discussões, as análises refletidas, as lentas cogitações, o povo não tem garantias de melhoramento nem o país esperanças de salvação. Nós não somos impacientes. Sabemos que o nosso estado financeiro não se resolve em bem da pátria no espaço de quarenta horas. Sabemos que um deficit arreigado, inoculado, que é um vício nacional, que foi criado em muitos anos, só em muitos anos será destruído.

O que nos magoa é ver que só há energia e atividade para aqueles atos que nos vão empobrecer e aniquilar; que só há repouso, moleza, sono beatífico, para aquelas medidas fecundas que podiam vir adoçar a aspereza do caminho. Trata-se de votar impostos? Todo o mundo se agita, os governos preparam relatórios longos, eruditos e de (…)

 

Eça de Queirós, in 'Distrito de Évora', 3 de março de 1867

 

Nota: texto publicado integralmente aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:26
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3 comentários:
De a.reis a 7 de Julho de 2014
Eça de Queiroz, escritor realista, publicou Os Maias em 1888. A história é contada por uma janela derrotista e pessimista que, parece não ser muito afastada da realidade da época. A actividade política veio-se repetindo, até nós, em ciclos diabólicos, parece que a actual foi tirada a papel químico com um lápis mais grosso.
Não obstante a minha costela agnóstica, sou levado a crer que os problemas persistirão inelutavelmente, por mundo marchar em elípticas em viagem helicoidal e de não se assinalar evolução darwiniana positiva, como alguns ambicionavam. O lado carnívoro e impiedoso atribuído ao Tiranossauros Rex não se extingue nos humanos. A ambição descontrolada é origem dos problemas.
Agora para os apocalípticos crentes:
Quando Deus despertar, ao oitavo dia universal, vai-nos arremessar mais um ebuliente asteróide, para que tudo recomece sobre as cinzas desta “choldra ignóbil”.
De Maria Brojo a 8 de Julho de 2014
A.Reis - e vai daqui, o tema de hoje são asteroides bicudos e tenho outro pronto sobre os Maias. Isto sim, são coincidências com graça.
De a.reis a 8 de Julho de 2014

Palpita-me que as coincidências são provocadas pelo néctar das amoras rubras, amadurecidas pelo estio e, não fui eu que criei a fórmula.

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