Sábado, 5 de Julho de 2014

Ó SENHOR «DÓTOR»!

  
Norman Rockwell

 

Antigamente, era o «Deus-Médico». Determinavam, com precisão quase  matemática, o tempo  de vida que restava ao doente e «davam» uns tantos meses ao «desiludido dos médicos» (negociável  se o doente fosse rico ou filósofo...)
Ainda há cinquenta anos passavam as receitas em latim.
Na província, recebiam os honorários em galinhas, queijos da serra e tudo o mais que os  doentes, desesperados, de fé inabalável no Senhor «Dótor» e na Nossa Senhora de Fátima, como que compreendendo que a saúde se compra e vende. Nos seus corações, cabiam todas as fés do mundo: no bruxo Alexandrino, na bruxa da Ladeira, nas medicinas alternativas, nos homeopatas e nos Senhores «Dótores».

 

A medicina evoluiu. Deve-se à engenharia que lhes pôs os raios X à disposição, que lhes fez as máquinas para “verem” os tecidos moles como as TAC e as RM que lhes cedeu laboratorialmente uma plêiade de parametrização biomédica. Assim, o diagnóstico matou o de «olho clínico» que passou a ser científico e de tal forma translúcido que põe em questão a necessidade do veredito do homem de bata branca.
lhes Auxiliares de Diagnóstico como se fossem coisa sua, mística, transcendental. Nunca mais deram um passo ou emitiram uma opinião, sem a panóplia completa de exames laboratoriais que, compiladas, não precisam de médico algum para determinar o que se passa com o paciente. Já nos tempos de estudante, brincávamos com os colegas de medicina. Dizíamos: se os engenheiros precisam de 5 anos para fazer coisas tão diversas como pontes, edifícios  e máquinas, porque precisam os médicos de estudar 6 anos, uma única coisa que é o corpo humano?  Estudam 6 anos a mesma coisa?!


Presentemente, a Internet tem tudo que os médicos sabem e tem também tudo que eles não sabem. Experimente-se perguntar a um clínico todas as funções da tiroide ou das cápsulas suprarrenais e é vê-los a regurgitar expressões incoercíveis como se lhes tivessem espreitado por debaixo das saias. Alegarão, por certo, uma súbita chamada de urgência do hospital onde nunca trabalhou.

Desde que as Seguradoras classificaram o valor de cada ato médico, assistimos a um ping-pong de clínicos saltando de umas Seguradoras para outras como pipocas. Porquê? Porque todo o ato médico é antes de tudo um ato comercial!
Sejamos realistas: se uma família investiu milhares na educação de um filho para ser médico não é para ele passar as dificuldades de um mineiro, um empregado de escritório ou um operário fabril. O meu filho é cirurgião – dirão – mesmo que passe a vida a tirar quistos e apêndices o que um bom enfermeiro faria na perfeição.


Quando, no calor do 25 de Abril, os comunistas falaram em privatizar a medicina, os senhores Doutores exclamaram: “Isso é só até o Presidente da República ter a primeira constipação.” Há uns anos, o Reitor da Universidade de Medicina do Porto adaptou, no final duma palestra de duas horas aos novos médicos, uma frase lapidar cuja essência data do século XIV: “Não obstante os enormes desenvolvimentos da medicina, (essencialmente após a 2ª Guerra Mundial – acrescentou) o certo, é que continuamos todos a morrer a 100%.”

Em todas as profissões há bons e maus; consensualmente, assume-se que por cada 30 formados haja um, verdadeiramente brilhante. A alguns desses, que com inestimável privilégio, tive a oportunidade de conhecer, médicos investigadores, cirurgiões, endocrinologistas e epidemiologistas, presto a minha admiração e reconhecimento. Tinham em comum aquele respeito antigo pelos doentes, pela última novidade científica e elevavam acima das suas cabeças o juramento de Hipócrates. Distintos médicos em tudo merecedores do epíteto.


Mas na generalidade, porém, se os médicos soubessem mais, ou melhor, do que o comum dos mortais, durariam pelo menos, mais uns anos. Contudo, vivem apenas o tempo de qualquer outro mortal mesmo recorrendo, corporativamente, uns aos outros. Recentemente, no nosso país, desde que o Ministro Macedo lhes abriu caça, que é o termo, descobrindo todo o tipo de trafulhices, à média de três por dia apanhados pela Polícia Judiciária, médicos, farmacêuticos e delegados de propaganda médica, não tiveram outro remédio senão desaparecerem dos Centros de Saúde ou demitirem-se dos Hospitais.


Nas Urgências, passamos a dizer ‘Spassiva’ (obrigado em Ucraniano) ou ‘Gracias’ em Castelhano aos médicos que nos atendem com todo o profissionalismo e deferência que todo o ser humano merece. Não é preciso esperar meia hora pela auxiliar que empurre a maca nem pela enfermeira que ponha o cateter nem pelo aparelho de eletrocardiograma que, porque único, está no segundo andar. O médico estrangeiro faz tudo sozinho (e bem) sem a cagança, do médico português, este último, calçado com ‘crocs’, bata imaculada e estetoscópio ao pescoço. O médico português revê-se no Dr. House em ambiente hospitalar.  Atenderá sem  em primeiro lugar e sem qualquer pudor, o homem de fato que lhe vem oferecer o ingresso no Congresso do Algarve onde poderá levar aquela amiga que há muito traz debaixo de olho.


Os Senhores “Dótores” começam agora a enfrentar uma classe de doentes com formação e computador debaixo do braço. Estes, leram a última literatura científica sobre o problema que os atormenta e discutem a opinião do clínico em base científica; subtilmente, olham para o «canudo» exposto no consultório e reparam a nota final com que o clínico se formou.

Os doentes de agora já não são os velhinhos crentes no Doutor-Deus, nos quais se perpetrava todo o tipo de experiências como cobaias no melhor estilo de Joseph Mengele, mas sim, jovens biólogos, químicos e outros, que contestam as panaceias e os placebos que habitualmente se receitavam. Questionam a eficácia do ácido clavulânico mais amoxicilina prescrito  para um espetro tão vasto como a queda do cabelo, o streptococcus aureus, o reumatismo, as dores na alma, a osteoporose, a unha  encravada, a inflamação na válvula mitral ou erradicação da helicobacter pylori. Tudo porque foi este o nome do medicamento deixado pelo delegado da propaganda médica  nas costas da chapa com o próprio nome do médico pousada sobre a secretária.

Os novos doentes questionarão o porquê e a eficiência real da inibição da produção de químicos orgânicas causadores da perturbação que os atormenta. Questionarão até o simples e recorrente abuso de linguagem do ‘perder peso’, expressão comercialmente impactante mas prenhe de desprezo pelas noções básicas de volume e densidade aprendidos no 3º ano dos Liceus (ao que quer que isso corresponda nas escolinhas de agora.)


Os médicos começam a ter dificuldade em culpar o omnipresente tabagismo como o alfa e o ómega de todos os males porque alguns doentes, ‘hellás,’ deixaram mesmo de fumar. Estarão os médicos portugueses ao nível dos novos doentes do Séc. XXI?  Ou será melhor aproveitarem a greve a 7 e 8 deste mês para um ato de contrição?

 

Crónica de Júlio Gamelas Gonçalves, autor do livro "Caixeiro-Viajante"

 

CAFÉ DA MANHÃ

 
publicado por Maria Brojo às 10:28
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