São diferentes pela terna corrente de aço que os prendem a nós. Melhores e piores que os outros nos defeitos e virtudes _ neles exacerbamos expoentes de imperfeita perfeição. A que interessa. A outra, a «compostinha» e erudita que não desafina num semitom, é tédio insuportável.
Passa um ano ou passam anos. Telefonemas ocasionais. _ Está bem? Queres contar de ti? _ Começas tu ou eu? Qual enguia, desliza o tempo. Ele e ela experimentam a falta do «estarem». Noção que o quotidiano cheio havia erodido. Até um dia. Até a ausência adquirir o estatuto insano de prioridade em desalinho. Como o cabelo no acordar.
Antes do reencontro, o arrepio desce do cérebro até às pontas do corpo. A cumplicidade do olhar, da fala com lábios em frente estará intacta? Está. Estão. Ou não. Sabem no primeiro segundo. Depois é a escalada rumo a picos novos. Outros.
Já defendi, com veemência, a possibilidade de amizade sem pele entre um homem e mulher. O mesmo é dizer asséptica. Limpa de carne e sentimentos menores. Como o ciúme. Maiores, como a sedução e o desejo. No presente, medito nas certezas de outrora. Nada sei. Mas sinto. Amigo homem traz, implícito, registo diferente do estabelecido entre duas mulheres. Ambos aprazíveis. Porém, condimentados com especiarias desiguais. Pimenta e alecrim. Caril e salsa. Cravinho e noz moscada.
A união só por atracção sexual e sem amor, que é sentimento mais inebriante e profundo, decerto não persistirá muito. A busca egocêntrica, do ou da ausente do quotidiano, de prazeres momentâneos com uma companheira ou companheiro, quando as hormonas sobem ao “capacete”, só conduzirão á frustração e á destruição do lado mais sensível. Creio haver sempre um ínfimo de atracção sexual entre homens e mulheres. Contudo, as pessoas de sexos opostos que cultivem amizade entre si , para a não a demolirem , julgo que têm de ter o cuidado de pensar com racionabilidade e razoabilidade para não se deixarem arrastar por pulsões que podem dar em amor , o que pode criar uma hecatombe a sua volta, no caso de sexo fora do casamento, que deixará para trás mazelas e sofrimentos aos que os rodeiam e o descrédito a nível do local de trabalho, situações que decerto já muitos testemunharam. __________________________________________
Lado B
Os deuses perdoam aos que se amam.
A canção de Edith Piaf ” Hymne à l’ámour “ é um trecho para quem sofre de amores ouvir. ……..“Dans le ciel, plus de problemes Dieu reunit ceux qui s'aiment.”
A.Reis - Lado A: sobre a consumação de algum apelo sexual entre amigos, penso ser um risco a carecer de senso mesmo que cada um dos parceiros seja livre de compromissos conjugais ou equivalentes. A verdade, digo eu, é que amizade até aí aprazível pode mudar ou perder-se deixando luto evitável.
Lado B: "Hymne à l’ámour" encanta-me pelo poema e, obviamente, pela voz potente e emocional da Edith Piaf. Também julgo que a vida tormentosa da Piaf influenciou a seleção rigorosa dos poemas que lhe eram apresentados e viria a interpretar.