Sábado, 1 de Novembro de 2014

ROMARIA DE AFETOS VIVOS

Paul Wolber

 

Bandos de crianças. Nas mãos, abóbora escavada como se caveira fosse iluminada por vela interior. Em alternativa, caixa de sapatos com enfeites semelhantes. Na noite de 31 de Outubro, nos pequenos meios urbanos ou rurais, a pequenada, míngua em número, sai à rua. Desperta o sentimento de no amanhã os adultos honrarem santos e os seus mortos que nas campas são restos.

 

No dia de Todos-os-Santos, está arredada a noção de santidade. Nem remeto para o conceito e para os rituais católicos que nas igrejas são celebrados. Santos há mortos e vivos pela dádiva da vida ao serviço dos outros. Muito se devem amar a si primeiro para desse amor sobrarem gestos servidos em bandeja aos precisados de um afeto, de uma palavra, de uma presença. Porque a santidade não se confina aos altares nem a aros de ouro enfeitando cabeças escultóricas nem a ramalhetes de flores aos pés de imagens postadas em toalhas de renda. A santidade é outra coisa. Não carece de certificados de garantia concedidos pelo Vaticano. Não obriga à condição de mártir. De frade ou freira. Ou padre. Ou qualquer outro degrau na hierarquia católica dos profissionais da causa divina. Ainda menos de eremita. O caminho da santidade é o caminho da paz interior, do bem estar com o próprio e com os outros. E santo pode ser qualquer um que de melhorar quem é não desista. Milagreiro, sim, ao transbordar amor para uma, várias, muitas vidas que rente à pele e ao espírito o sentiram. Nunca mais um, mas alguém especial que mereceu inesperada oferenda.

 

Hoje, os cemitérios são floridos lugares de saudade e servem romaria de afectos vivos. De porta em porta, cantarolam as crianças:
_ Bolinhos e bolinhós, para mim e para vós, para dar aos finados, que estão mortos e enterrados.


No interior da casa, luzes acesas. Esperam a criançada afabilidade, ternura, momento de companhia para os idosos que nos pequenos visitantes (re)vêem (bis)netos ausentes. A acompanhar, guloseimas, romãs e nozes frutos do Verão finado e do Outono meado. Amealhada a oferta última, segue cantoria/agradecimento:
_ Esta casa cheira a broa, aqui mora gente boa.
Mantendo-se a porta cerrada, a miudagem não se fica:
_ Esta casa cheira a alho, aqui mora algum espantalho!

 

Tradição antiga recuperada pelas autarquias como meio de aproximar habitantes, estimular a confraternização e constituir forma outra de pedagogia para crescidos e pequenos.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 07:50
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14 comentários:
De -pirata-vermelho- a 1 de Novembro de 2009
Acaba bem que boa tripeça tem.

Você deu-se-lhe agora para surpreender a gente c'as coisas que sempre soube e deixava fechadas no baú.
É o seu lado educado... mais bonito!
De Maria Brojo a 2 de Novembro de 2009
Pirata-Vermelho - comentário assim vindo dum caríssimo não-inimigo é surpresa inesperada.
Não entendi: "É o seu lado educado... mais bonito!". pode ter a fineza de explicar è mulher lerda que sou?
De -pirata-vermelho- a 2 de Novembro de 2009
Quis-se dzer
'o seu lado educado é mais bonito e também se manifesta de temps en temps'
e
quis-se dzer
'acaba bem quem boa tripeça tem'
a pensar
'...quem boa tripeça peça'
mas ia ser outro filme
De Maria Brojo a 3 de Novembro de 2009
Pirata-Vermelho - a minha lerdice cedeu! Esse filme outro até que apetecia ler.
De carlos menezes a 1 de Novembro de 2009
Ora viva!

Enquanto houver quem assim escreva, a tradição ainda é, e será aquilo que era.
Conseguiu na perfeição, trazer-nos o 'quadro' alegórico que tão bem ilustra momentos da nossa cultura.
Confesso que não conhecia na totalidade, algumas das rimas usadas nesta circunstância de vida.
Não há dúvida: estamos sempre a aprender uns com os outros e eu fiquei um pouco mais rico. Agradecido.

Saudações amigas a todos.

Carlos Menezes
De Maria Brojo a 2 de Novembro de 2009
Carlos Menezes - ainda miúda pequena, assisti a estes rituais. Actualmente, incentivados nalgumas autarquias. Em Lisboa, onde faço vida, tive bandos de criançada tocando à campainha. Entraram e foi festa. Houve bolinhos e bolinhós. Nozes que não embaladas, também. Rejeitaram maçãs e romãs.
De zeka a 2 de Novembro de 2009
O que aqui refere, em termos de visitas, cantares e guloseimas, entendo apenas como sendo as tradicionais Janeiras ou Reis. Nunca vi/ouvi que tal celebração em Portugal estivesse ligada, aos Santos, aos Mortos, aos Cemitérios.

Veja-se, por exemplo, esta referência

«Halloween no Brasil
No Brasil a comemoração desta data é recente. Chegou ao nosso país através da grande influência da cultura americana, principalmente vinda pela televisão. Os cursos de língua inglesa também colaboram para a propagação da festa em território nacional, pois valorizam e comemoram esta data com seus alunos: uma forma de vivenciar com os estudantes a cultura norte-americana. Muitos brasileiros defendem que a data nada tem a ver com nossa cultura e, portanto, deveria ser deixada de lado. Argumentam que o Brasil tem os “mitos do folclore” que deveria ser mais valorizado. Para tanto, foi criado pelo governo, em 2005, o Dia do Saci (comemorado também em 31 de outubro).»

E estoutra

«Halloween no Mundo
Essa festa refere-se ao dia de todos os Santos e simultaneamente ao dia de finados. Geralmente o Halloween é mais difundido em países de língua anglo-saxônica, os países de língua hispânica não celebram essa festa, e sim o dia dos mortos, no oriente médio esse período é marcado pela tradição e crença popular.
Na Espanha, assim como em Portugal, é comemorado o dia de Todos os Santos, a data destinada a esse evento é o dia 1 e 2 de novembro, sendo respectivamente comemorados o dia de Todos os Santos e Finados, no último as pessoas tributam os mortos levando flores aos túmulos.
A Irlanda é considerada o “berço” da tradição do Halloween, as pessoas comemoram construindo fogueiras, no caso, os adultos, pois as crianças andam nas ruas exclamando o famoso “tricks or treats”, que traduzido significa “doces ou travessuras”.»

Mais um excerto

« Se analisarmos o modo como o Halloween é celebrado hoje, veremos que pouco tem a ver com as suas origens: só restou uma alusão aos mortos, mas com um carácter completamente distinto do que tinha ao princípio. Além disso foi sendo pouco a pouco incorporada toda uma série de elementos estranhos tanto à festa de Finados como à de Todos os Santos.»

Não transcrevo os 'links' para evitar sobrecarregar a leitura ;-)

De zekRaM a 2 de Novembro de 2009
Poupando nos 'links'... ganho espaço para suspirar

Com este protótipo de fada-bruxa (cabri olé!) é mais que evidente "Desperta o sentimento de no amanhã seguinte os adultos honrarem santos e os seus mortos que nas campas são restos."

Assim nos ajuda Stª Teresa. Ah men. ;-))
De Maria Brojo a 2 de Novembro de 2009
Zeka - não mereço ascender à santidade. Se a imagem o gratificou, ainda bem!
De Maria Brojo a 2 de Novembro de 2009
Keka - se nunca assistiu a rituail como o mencionado, nem sabe o que perdeu e perde. Tendo a fineza de ler o comentário acima, fica elucidado.
De z(k)eka a 3 de Novembro de 2009
Sou todo gratidão, pela e ludi cida ção ;-)

O meu res trito grupo vai avançando na pes quisa.
Por Águeda, talvez o Alegre possa contar/cantar?
Entretanto, já conta Tentúgal, pela mão da Olga Cavaleiro.

Veja esta referência (2004):
Há um velho costume em Coimbra por altura dos Fiéis Defuntos. Depois do jantar, as crianças juntam-se, vestidas de escuro, com as caras pintalgadas de negro, transportando caixas de cartão ou abóboras vazias, decoradas com carantonhas, dentro das quais levam velas acesas. Tocam às portas da vizinhança, e cantam uma lúgubre cantilena, pedindo "bolinhos e bolinhós". As pessoas dão-lhes dinheiro ou guloseimas, que agradecem cantando uns versos apropriados; para quem nada dá, há também versos adequados.
Quando eu era pequena, nunca os meus pais me autorizaram a participar em tal brincadeira, vá-se lá saber porquê. Agora, a minha filha anda com as amigas pela rua fora, disfarçada de bruxa, com uma abóbora iluminada na mão. As influências americanas do Halloween associam-se a esta tradição que não sei datar, mas é bem antiga em Coimbra.

E esta, de 2005:
Eu, quanto a mim, fui testemunha há 50 anos de uma tradição, já moribunda, que se usava aqui, na cidade de Coimbra. Dizem-me familiares com idade suficiente que há 80 anos essa tradição era prática comum.
E em que consistia essa tradição?
Em primeiro lugar, punha-se a mesa na noite de defuntos (de 1 para 2 de Novembro), para que estes, voltando à casa dos seus familiares, se pudessem banquetear.
Por outro lado, os meninos mais pobres (há 50 anos, aqui em Coimbra, eram as crianças do bairro da lata da Conchada, ali junto ao cemitério) vinham pedir pelas portas entoando uma canção que se chamava "Bolinhos e bolinhós". Esses meninos traziam abóboras cortadas de modo a fazer a figura de uma carantonha, abóboras essas que eram iluminadas com velas acesas dispostas no seu interior.


Encontrei mais citações referindo Oeiras (Lisboa?) e Mafra (Pão de Deus).

De Dr.PC a 2 de Novembro de 2009
Afinal a tradidição ainda é o que era, segundo este aromático retrato da autora. Eu continuo a notar um certo cheiro a alho quando passo por S.Bento.
Quanto a RAM denotam-se francas melhorias...
...é que nem todos os leitores têm capacidade (ou interesse) em fazer parte de «grupos restritos» e
para que possamos cantar «Esta casa cheira a broa, aqui mora gente boa»
De zekRaM a 2 de Novembro de 2009
Pois ainda não estou em casa, relativamente à tradição em causa ;-)

Além de também haver outros S. Bentos na terra (algum menos santo... lenço branco?), não é ainda tão evidente que muitas autarquias tenham recuperado essa tradição :-(

"Esta casa cheira a vinho, aqui mora algum santinho»
De Maria Brojo a 2 de Novembro de 2009
Zeka - pois fique o caríssimo comentador sabendo que em Águeda a tradição foi restaurada. O "Diário de Coimbra" deu-lhe o devido destaque. Noutros diários regionais, mais notícias do mesmo.

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