Sábado, 18 de Outubro de 2014

SABEDORIA DE MULHER

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Edward B. Gordon

 

Ela passou o primeiro dia empacotando todos os seus bens pessoais em caixas e malas. No segundo dia, ela chamou os homens da transportadora que levaram os bens pessoais. No terceiro dia, ela sentou-se pela última vez na bela mesa da sala de jantar, à luz de velas, pôs uma música suave e deliciou-se com uns camarões, caviar e uma garrafa de Chardonnay. De seguida, em cada uma das divisões, colocou nas cavidades dos varões das cortinas pedaços de casca de camarão besuntados com caviar. Limpou a cozinha e saiu.

 

Quando o marido retornou com a nova namorada, tudo estava um brinco nos primeiros dias. Pouco a pouco, a casa começou a feder. Tentaram tudo: lavaram, arejaram a casa, verificaram todas as aberturas de ventilação, não contivessem ratos mortos. Os tapetes foram limpos com vapor. Desodorizantes de ar e ambiente espalhados pela casa. A empresa de desinfeção introduziu gás tóxico nas canalizações. Durante alguns dias, o casal teve de sair de casa e, no regresso, o cheiro nauseabundo persistia.

 

Os amigos deixaram de os visitar. Os funcionários das empresas de consertos recusavam-se a trabalhar na casa. A empregada demitiu-se. Finalmente, decidiram mudar de casa. Um mês depois, apesar de terem reduzido para metade o valor da casa, não existiam compradores. A notícia correu. Finalmente, foram obrigados a contrair um elevado empréstimo para comprar outra habitação.

 

A ex-esposa ligou para o marido e perguntou como andavam as coisas. Ele contou-lhe o martírio da casa podre. Ela escutou pacientemente e disse das muitas saudades da casa antiga e estar disposta a reduzir a parte que lhe caberia no acordo de separação dos bens, em troca da casa. Convencido de que a «ex» não fazia ideia do fedor, acordou num preço cerca de 1/10 do real valor se ela assinasse os papéis naquele mesmo dia. Assim foi. Em menos de uma hora, o acordo estava consumado.

 

Uma semana depois, o homem e a namorada assistiam, com um sorriso malicioso, aos homens da mudança levando os respetivos pertences para a nova casa. Os varões das cortinas também.

 

Nota - Texto adaptado de outro selecionado pelo belíssimo gosto e humor do António Eça de Queiroz. O sobrinho, Afonso Reis Cabral, foi ontem anunciado como vencedor do “Prémio Leya 2014” com o romance “O Meu Irmão”.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 11:21
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