Domingo, 2 de Outubro de 2011

A CASA DOS AFECTOS

 

 

A chair is still a chair
Even when there's no one sittin' there
But a chair is not a house
And a house is not a home
When there's no one there to hold you tight
And no one there you can kiss goodnight
Woah girl”

 

Por muito que seja limpa e reconstituída uma casa não é um lar, como escreveu Luther Vandross, se os afectos não a habitarem. Mas esta foi e é lugar de almas que ama(ra)m, por isso lar. As paredes vetustas rogam pintura dentro e fora que honrem amados feitos pó na terra e que também fizeram da menina descendente única em três gerações a mulher escriba menor. Não recusa o desafio - vai adiante e tenta reconstituir com pertences esquecidos e sobras do esplendor de outrora sítio que a acolha e às novas gerações. Durante as sucessivas barrelas, a cada objecto seu mimo pelas memórias/doçuras que, sendo impressivas, o tempo não apaga.

 

 

Na saleta, há trinta anos 'jardim de Inverno', desapareceram avencas, espargos, todos com folhagem rendilhada, cadeirões almofadados onde eram fruídas partes de manhãs desde o pequeno-almoço até à leitura dos diários entregues pelo carteiro. Luz a rodos mesmo se a chuva ou a neve ocultavam o Sol. Hoje, sobre a mesa, lenço com o qual me enfeitava nas brincadeiras de criança só. No lado oposto, escritório e quarto abrem portadas à montanha e à aldeia incrustada no vale estreito. Baú e mala de viagem, testemunham o regresso da ‘América’, por navio, do bisavô materno, bonito, aventureiro, sonhador. Que encheria o «malão» de ferragens douradas, azul como a mala rígida e também semelhante nos latões/fechaduras? _ Presentes para as filhas já adultas e solteiras como restariam até ao final? Mais malas existem conservando como as outras em papel colado o nome do proprietário, camarote e companhia de navegação. Deste bisavô recordo descrições de Nova Iorque onde viveu décadas, da Grande Depressão, do renascer dum país e do seu povo. De parte do mundo com ele.

 

 

Chaves tantas! Após tentativas várias, foi impossível reconhecer qual pertence a que porta. Ao monte, esperam serem devolvidas à dona. Curioso encontrar dois objectos em cerâmica, iguais, e que comportam quatro velas. Não possuo recordação deles. Símbolos devem ser, mas de quê? Numa parede, tem destaque retrato imperfeito - a desproporção das figuras é notória. Abandonei pruridos artísticos e deixei ficar a tela, prova de amor aos retratados. Pintada quando iniciei os óleos e do «lambidinho» não passava. Se retratos a carvão me ocuparam idos da adolescência e juventude com relativo êxito perante olhares queridos, neste falhei, conquanto espíritos benevolentes afirmem os rostos tal qual. Não aprovo. Para melhor e em muito diferentes.

 

 

Casa de afectos, de rendas e bordados até na despensa. Das arcas, ou não contabilizasse oito no total, a maioria aguarda carícias da cera. Semana e meia revelou-se curto intervalo para do almejado cuidar. À cozinha, após limpeza, foi dado jeito respeitoso, todavia simples. Mais há a fazer em honra das preciosidades gastronómicas ali cozinhadas e merecedoras dos aplausos da família e dos bispos e dos párocos convidados para as cerimónias religiosas nas festas anuais do São Cosme e de São Damião. A romaria era linda de ver - misturava sagrado e profano em amável coabitação, trazia gentes de fora e os mordomos sempre respeitaram as tradições de Aldeias. Para dela obter ainda melhor panorama é preciso subir até ao segundo andar.  

 

 

Das cinco divisões cimeiras, somente duas, a Este, permitem aceder a imagem que a retina não perdoa. Parte da casa que mais foi esventrada de bens para moradia com cinquenta anos a mil e poucos metros de afastamento. Dos armários biblioteca, antigamente no escritório, resta um. Na saleta de costura, revistas de croché, de ponto de cruz, de figurinos impressos que remontam a meados do dezanove, máquina que oleei e ficou pronta a uso. Num dos quartos, a simplicidade esconsa, o móvel em cujas gavetas pontificavam ‘santinhos’, imagens pias, rosários. Nos gavetões, vestidos e combinações de seda, peles e veludos. Todos enviados para a lavandaria, muito recomendados ou não sejam devolvidos como farrapos sem préstimo. Perfumes e retratos e bijutaria em taças retirados ou para o lixo, os primeiros, para restauro, os segundos, para lavar, os enfeites. Duas camas, mesinha de cabeceira, conjunto de porcelana composto de lavatório, balde jarro, recipiente fundo cujo nome ignoro e suporte em ferro preenchem o espaço restante. Contíguo, o quarto do bisavô americano. Mais à frente, dois esconsos – rouparia e arrumo destinado a compotas, fruta, e outros bens preciosos da terra consumidos durando a época pobre do ano. Ao fundo, a janela por onde me esgueirava e descia pelo telhado para a liberdade do jardim enquanto as tias e o tio padre bisavô cumpriam o ritual da sesta. Quantas telhas partidas na descida e hoje me dariam arranjo para cobrir áreas em que faltam! Assim, restou-me comprar parecidas por daquelas ser difícil obter iguais. Mas não desisto: irei à cata de casas em remodelação que as possuam. Lugarejo que seja, mal dele tenha notícia ou vislumbre, ali me terá mais feliz do que na Avenue Foch ou na George V.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:48
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