Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

A TABERNA DO SENHOR EUGÉNIO

Gil Elvgren

 

Em qualquer urbe grande ou pequena, pontificam tabernas. O evoluir e a globalização de costumes e normas a muitas retirou simbolismos e passaram à banalidade de mini-mercados ou cafés, ainda assim servindo ao balcão ‘taças’ de branco ou de tinto ou mata-bicho de aguardente para o dia bem começar e acrescer gordura no fígado, aliás o que menos importa ao dono respectivo pois do estado do dito não faz a menor ideia. Nem quer fazer o doente julgado são, que isto de ir ao médico quantas vezes é causa de sair acabrunhado quem se tinha por rijo como pêra camoesa. E é de experiência feita, aquela de entrar num hospital com queixas de dores num pulso, ser observado criteriosamente e sair de lá com indicação mais cartinha para consulta oftalmológica. Cumpridor, o queixoso vai ao ‘médico dos olhos’. Após leitura atenta da missiva enviada pelo colega, o especialista pergunta:

_ Sente «areias» nos olhos?

_ Nunca dei por elas, Senhor Doutor.

_ Vou introduzir-lhe na base da pálpebra inferior tira de papel filtro e já se vê.

O cliente nem uma, nem duas. À uma, pela perplexidade acompanhada da contínua dor no pulso tão longe do olho como dos pés; às duas, porque médicos são autoridades sabedoras e o paciente ignorante do que vai nas entranhas. Arregala os olhos, é metido o papel e daquele modo fica minutos que lhe parecem horas. Quando o doutor o livra do incómodo mira a tira e remata:

_ Não fabrica lágrimas em quantidade suficiente. Sofre de síndroma de anticorpos antifosfolípidos.

Continua a dor no pulso e sai alapardado pela maleita de nome impronunciável que nem dá para nomear a amigos e conhecidos. Uma pepineira!

 

A taberna do Senhor Eugénio tem décadas de história. Herdada do Sr. Moisés, o pai, no largo principal das Aldeias, prestou serviço público de monta. ‘Matava o bicho’, funcionava como bar – cervejas, vinhos e aguardentes correntes - entretinha quem das novidades gostava saber como se fora jornal diário, possuía o único telefone da aldeia, recebia o correio ao qual as gentes acudiam para da família receber notícias, era marco de correio, vendia açúcar, farinha, arroz, feijão e bens outros para o tacho, os tachos também, alguidares e plásticos e pesticidas e adubos e panos de chita ou de categorias acima, alfaias agrícolas. O demais vendido seria descrição fastidiosa e no mercado das quintas, em Gouveia, o Senhor Eugénio mais a mulher e a única filha exibiam tecidos à moda para costureiras confeccionarem obras-primas. E havia-as, copiadas nos últimos figurinos das colecções que Paris ditava, botões tal qual incluídos.

 

O Senhor Moisés destinou o filho à mais nova das meninas Brojo da terceira geração anterior à que, hoje, desponta. Por desaprovação da interessada e das matriarcas, o amor pra vida seria outro – militar que em Gouveia veio prestar serviço e depressa se encantou pela beleza, recato, postura exemplar, condição de «menina-família» sempre bem vestida, conquanto sem arrebiques ociosos. Ele, homem e profissional exemplar, desposou a donzela num gélido 31 de Maio na igreja das Aldeias desde há muito associada à família da nubente. Tinha vinte anos a noiva, como a mãe, como a filha que o casal geraria.

 

O jovem par faria princípio de vida em Gouveia, curto tempo, depois na Guarda, idêntica duração e, pelos sete anos da filha, em Coimbra. Até hoje, a Senhora Brojo, até há seis anos, o amor da vida. Ele dum lado pró outro desde o início da guerra colonial, Áfricas algumas, sempre desfeito pela dor da partida. E aguardava-o a mulher/amante, suavizada a saudade pelos aerogramas e férias. Piores eram os Natais que a «têvê» inundava de mensagens dos forçados guerreiros, o atraso da correspondência, a Noite Santa sem do amor e do pai e do genro e do sobrinho haver notícia. Missa do Galo com lágrimas, mãos unidas em prece, esperançada em que o Menino recém-nascido não se esquecesse do pai, oração crente da menina/filha. Retorno no breu serrano. Eram as férias do Natal e a volta nevada para Coimbra amena.

 

Somente aos dezoito anos, a jovem soube a delícia de ter o pai junto continuadamente. Do susto aterrorizador por ele sentido se era batida com força a porta do frigorífico. Da discrição nos horrores passados por conta de tiranos ilusionistas. De tudo viria a saber, já mãe, nos infindáveis passeios/partilhas a dois pelos carreiros de cabrestos acima.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 08:25
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