Domingo, 30 de Março de 2014

DE CANÍDEOS E HUMANOS - LENINE

 

 

 

O retrato começa aqui, a história não - somente no final surge e justifica a escolha do tema. Cauda farta, patas robustas.

 

 

 

O focinho é desvendado aos poucos. O porte também.

 

 

 

Após passeio matinal, o olhar de criança expetante seduz.

 

 

 

Chegado a casa, fica alerta, não se avizinhe intruso.

 

 

Pelas tranquilas redondezas, mergulha no sono dos inocentes.

 

 

 

Acordou em sobressalto. Talvez ruído suspeito. Talvez aproximação indevida que pressentiu. Da serenidade habitual, passou a lobo pronto a defender os donos. Na parede, tantos os saltos, a impressão digital.

 

 

E partiu à desfilada pela quinta fora. Tem hoje família que o protege e o considera parte dela. Longínqua a causa da adoção. Relatada a seguir.

 

História vera contada por um dos donos do Lenine

 

“Estavam os quatro amigos numa cêntrica pastelaria de Lisboa bebericando o café matinal e surge a proposta de um deles:

_ Hoje é dia de feira em S. Teotónio (Alentejo) e conheço lá uma velhota que faz a melhor sopa de grão do mundo. Vamos? Podemos pernoitar na pensão de um amigo na Zambujeira do Mar.

E aí vão eles.

 

Chegados, apresentam-se à ‘Ti Rosa’. Amesendam-se. A sopa era realmente divinal. Como soe acontecer por bandas aquelas, à sopa seguiu-se o queijo, o presunto o salpicão, et cetera e tal, sempre acolitados por bom vinho alentejano caseiro. Seguiram-se digestivos muitos. Bebedeira monumental. De tal ordem que acordei só e noite avançada sob a proteção duma azinheira próxima dum valado. O meu pé e tornozelo direitos tinham-se transformado em pata de elefante devido a queda da qual não tenho memória.

 

Pensei: tenho que caminhar até S. Teotónio e daí apanhar táxi para a Zambujeira para o merecido gelo no tornozelo e descanso. Fui-me arrastando até S. Teotónio. Mas táxi não havia.

_ Não há? Vou a pé.

Arrasto-me a muito custo e eis que surge da negrura um cão enorme que ao ver-me se foi chegando. E não é que o bicho começa a chorar? Continuo a arrastar-me e o fiel amigo à minha frente abrindo caminho. A cada bifurcação da estrada parava chorando até eu o alcançar. Escolhido por mim o caminho ajustado, lá ia ele à frente guiando. E assim chegámos à pensão do amigo na Zambujeira do Mar. Quis dar-lhe petiscos e festas. Debalde. Foi-se. Tinha cumprido a sua missão. Já não me lembro se chorei.” 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 06:52
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Sábado, 21 de Setembro de 2013

CELEBRAÇÃO DO AMANHÃ

 

Autor que não foi possível identificar

 

Passados dois terços do Verão, ainda os pavimentos suam acalorados, já ela distingue cobre nas folhagens das tílias e plátanos, o verde que murcha nos fetos dos pinhais e escurece copas frondosas. Não o verde quase negro à mistura com cinzento que pinta arbustos e árvores em Nova Iorque. É outro. Remete para o dos ciprestes destacados no ocre dos solos agrícolas da Toscânia onde apetece rolar na imensidão aveludada pelas sobras de palha das colheitas. E se ela não o compara ao dos sobreiros do Alentejo amado, tem uma razão: os caules laivados de vermelho se a riqueza da cortiça lhes foi escamada e os deixou nus como ovelhas sem lã após a tosquia.

 

Passados dois terços do Verão, já ela conhece pelo relógio íntimo o descair mais cedo do Sol no horizonte com suavidade dourada e ígnea sempre crescida até ao arrumo para sono tranquilo. E chega a noite das estrelas e grilos, dos pirilampos que lampejam em dança de sedução que as fêmeas aguardam, a mulher também. E por ali fica esquecida da janta. Por ali, rente ao chão e à alma, espera do turquesa o azul noite que a irá despir.

 

Hoje, a mulher baila, feliz, tarantella. Inventa brisa como par. É do Outono a chegada, mansa, sem despedir rudemente o ciclo que termina.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:38
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Domingo, 19 de Junho de 2011

REPETIR FELICIDADES

 

Vidas feitas de coisas pequenas. Felizes. Memoráveis. Lembradas amiúde quando os dias correm iguais, quando as surpresas abandonam quotidianos, quando nada acresce emoção. Ou o contrário: vidas grávidas de vontade para tudo abarcarem num instante. E as recordações compõem o bouquet, ramalhete à boa maneira portuguesa. Regresso a lugares onde felicidades foram rainhas.

 

 

Arrozais e casarios em vistas reencontradas. Muralhas geométricas nas ameias. A plenitude que o horizonte largo comporta. O desaguar do chão no céu entremeado pela alvura do casario. E quedo-me como se nunca houvera visto. E nem lembro idos, respiro, porque os olhos também inspiram e expiram.

 

 

Descido o Sol pra cama longínqua, azuis e violetas cobrem o espaço no momento restrito. Cantares e vestimentas doutras eras, o pendular dos corpos ao ritmo musicado, abóbadas, varandins debruados a ferros lineares, tons que de irreais, parecem, não se acreditam. Mas escurecem à medida das horas noctívagas. Outra alegria, nova felicidade para quem nela atente. Os distraídos vêem noite onde outros percepcionam fantasia. 

 

 

Acordada a manhã soalheira, as gentes com ela, é nova a pintura. Os telhados sobrepostos por honesta telha, sem modismos à francesa, bem espreitados exibem no canto esquerdo cúpula alentejana que poderia ser redondo de ilha grega. Felizmente é nossa, ou estaríamos desesperados e lacrimejantes como os nativos da Grécia que da ruína económica não sai nem revela sinais de ressurreição. Paciência, o saber gerir e criatividade não faltem para almejarmos melhor.

 

 

É Alentejo em suas bordas ocres caiadas ao redor das portadas e janelas. Azul sulfato afastaria mosquitada pela repelência do enxofre. Barragem privada, as dunas do Sado à beira, cais palafítico ali tão cerca atraem formas de vida incómodas, todavia com direito a sobrevivência. Dela dão provas ao entardecer multiplicando picadas, depois coceira, depois, ferida.

 

 

Para quem dos verdes não abdica, jardins são maravilha. Os sobreiros, engrossados ano a ano pela casca de cortiça, fornecem sombra e frescura. Cascalho reveste o solo onde germinam cheiros e cores e folhagens várias com intervalos floridos. 

 

 

Apertando o calor, terraço oferece assento almofadado, sombra e bem-estar. As conversas desabrochadas em tão doce lugar, são mel que o esmorecer do dia não afecta. E vão pela noite adentro, e enchem o espírito, e alegram almas já antes contentes.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:53
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