Sexta-feira, 11 de Maio de 2012

LUTAR É OBRIGAÇÃO

Baseado numa obra de William Bouguereau

 

Falseia a meteorologia, destrói expectativas de sol e mar. Também a vida se encarrega de desmoronar projetos quotidianos que nos do amanhã apenas é certo continuar a degradação social do povo onde somos, esteja cada indivíduo ainda presente ao cimo da Terra ou não.

 

Chegando a degradação pessoal devido a doença insidiosa que o ser transforma, Alzheimer é o caso, engasta na alma dos familiares dor constante. Assistir às mudanças de atitude, às capacidades decrescentes, ao pensamento tornado errático, ao sofrimento do próprio nos parcos momentos de lucidez onde consciencializa o vestígio do passado em que se transformou, é mágoa para os cuidadores.

 

Pela certeza de ausência de melhoria no estado do paciente, os afetos com memórias do ontem e coração repleto de amor pelo doente, correm perigos: resvalar para uma tristeza sem fim, para incapacidade de levar em frente o quotidiano com aparente normalidade. Esvai-se a alegria. Diminuem os momentos felizes. Omissa a vontade de fruir de tempo a só não se interponha crise no entretanto. Lutar contra tudo isto é também obrigação do cuidador familiar.

 

E o nosso amor presente/ausente torna-se num anjo urbano planando acima de nós.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 11:40
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Sexta-feira, 22 de Julho de 2011

DOS LUTOS, O CELEBRAR

Fabian Perez

 

Ao almoço de amigas, faltaram duas, também pertença do núcleo duro que, há décadas, formavam. Idades próximas. Eram quatro a fruir do encontro. Adiaram os pedidos, debicaram entradas originais ou não fosse o dono um gastrónomo exigente – da cozinha tradicional  portuguesa, colhia ideias para culinária de fusão. Enquanto comiscavam, a conversa fluía. No início, alegre partilha de novidades, muitas da família e todas próprias de quem há algum tempo não se via. Depois, notícias familiares ora boas traduzidas em imagens felizes, ora preocupantes se a saúde periclitava.

 

Da Mariana ouviram o choque sentido ao saber a mãe com Alzheimer. Havia suspeita pelos indícios do comportamento, mas, no momento em que o neurologista, discretamente não fosse a mãe entender, estabeleceu o diagnóstico, fugiu-lhe o chão. Manteve a compostura por razão idêntica à do especialista, acrescida de amor e sofrimento indizível. Contou a dor, o reagir trémulo, a incapacidade de afastar do cérebro o repetido pensar no estado de quem a dera para a luz.

 

A Isabel deu conta do idêntico mal da mãe. Desolador o quadro que ela acompanhava momento a momento. Sendo Alzheimer doença que, felizmente, não causa sofrimento ao doente, mas sim a quem, de perto, assiste à progressão, a Isabel deixara de ter um instante disponível para ela, fosse dia, fosse noite. Devagar, aceitara o desmoronar psíquico da mulher outrora diligente, sensata, dedicada à família sempre. Internada, havia uma semana, no hospital por maleita outra não diagnosticada. Mais do íntimo descreveu a Isabel: o sentir-se em falta ao arredar o pé do quarto, a necessidade de acompanhar a mãe e entender-lhe o possível.  

 

Ontem, morreu a Dona Vitória. O negrume cobriu família e as seis amigas que privaram com a senhora anos a fio. Fazer o luto das lembranças da mulher por todas gostada, é quebra dum ciclo. Algumas partidas experimentaram aquelas mulheres - nunca o hábito se instala, nunca as almas deixam de sangrar, conquanto o tempo suavize o esvair. E se qualquer luto é penoso, seja pelo divórcio ou por um tempo sem regresso, nenhum é comparado aos que transformam em anjos pais, filhos e companheiros.

 

Mas novo almoço ficou marcado. Há que celebrar as benesses dos que ficam, desfiar memórias que honram esta partida, o tempo de viver.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 11:35
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Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

A FALA DO SILÊNCIO-AMOR

Autores que não foi possível identificar

 

Un Homme qu'il me Plaît, o “Homem que eu Amo”, de Claude Lelouch sumiu dos DVDs p’ra venda ou aluguer, os canais dedicados esqueceram-no. De acordo com a tradição dos críticos de cinema foi e é considerada obra menor. Dizem-na fita revisitada com fundamento na fórmula que fez do “Um Homem, Um Mulher”, do mesmo realizador, filme referência. Lelouch foi tido como auto plagiador de histórias românticas que, pela fotografia e banda sonora de Francis Lai, bem podiam ser spots publicitários. Mas não. Foi o contrário – a publicidade inspirou-se no director e repetiu, à exaustão, a receita.

 

No “Homem que eu Amo”, uma mulher (Annie Girardot) apaixona-se por um homem (Jean-Paul Belmondo). Ela julga retribuído o seu amor. O olhar de Annie prova-o quando os dois são passageiros de um pequeno avião onde nada mais cabe que um amor incerto. Outra sequência em que o silêncio impera, tal como na anterior dominada pela mímica de Belmondo, é a de Annie, perto do final, esperando o homem que prometera reencontrá-la. Angustiada, toma um café no aeroporto, observa a aterragem do avião. Silêncio. A música de Francis Lai é fala. Na expressão da mulher, a densidade de sentimentos como só uma grande actriz é capaz. Un Homme qu'il me Plaît irá chegar?

 

Com idade avançada, Annie Girardot padece de Alzheimer. Como tantos outros. Como a mãe de uma querida amiga. A filha atende-a diariamente – a de Annie e a minha amiga. Mas a actriz, no seu mutismo e mundo outro, nem por uma vez denunciou lembrar-se do seu passado célebre. Giulia Salvatori, a filha que teve com Renato Salvatori, sabe que ouvir Brassens a anima. Rompe a galáxia onde se resguardou. O silêncio/alheamento dos pacientes de Alzheimer protege-os? Em que meandros lhes deslizará o espírito? Difícil é aceitar a dor por um amor vivo que partiu sem partir.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:38
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