Sábado, 16 de Maio de 2015

A CIGARRA E A FORMIGA. COMO FOI, COMO É

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Versão tradicional

 

 

“A formiga trabalha durante todo o Verão debaixo de Sol. Constrói a sua casa e enche-a de provisões para o Inverno.

 

A cigarra acha que a formiga é burra, ri, vai para a praia, toma umas «bejecas», vai ao ‘Rock in Rio’ e deixa o tempo passar.

 

Quando chega o Inverno a formiga está quentinha e bem alimentada. A cigarra está cheia de frio, não tem casa nem comida e morre de fome.”

 

Fim

 

Versão atual

 

“A formiga trabalha durante todo o Verão debaixo de Sol. Constrói a sua casa e enche-a de provisões para o Inverno.

 

A cigarra acha que a formiga é burra, ri, vai para a praia, bebe umas «bejecas», vai ao ‘Rock in Rio’ e deixa o tempo passar.

 

Quando chega o Inverno a formiga está quentinha e bem alimentada. A cigarra, cheia de frio, organiza uma conferência de imprensa e pergunta porque é que a formiga tem o direito de estar quentinha e bem alimentada enquanto as pobres cigarras, que não tiveram sorte na vida, têm fome e frio.

 

A televisão organiza emissões em direto que mostram a cigarra a tremer de frio e esfomeada ao mesmo tempo que exibem vídeos da formiga em casa, toda quentinha, a comer o seu jantar com uma mesa cheia de coisas boas à sua frente.

 

A opinião pública tuga escandaliza-se porque não é justo que uns passem fome enquanto outros vivem no bem bom. As associações anti pobreza manifestam-se diante da casa da formiga.

 

Os jornalistas organizam entrevistas e mesas redondas com montes de comentadores que comentam a forma injusta como a formiga enriqueceu à custa da cigarra e exigem ao Governo que aumente os impostos da formiga para contribuir para a solidariedade social.

 

A CGTP, o PCP, o BE, os Verdes, a Geração à Rasca, os Indignados e a ala esquerda do PS com a Helena Roseta e a Ana Gomes à frente e o apoio do Mário Soares organizam manifestações diante da casa da formiga.

 

Os funcionários públicos e os transportes decidem fazer uma greve de solidariedade de uma hora por dia (os transportes à hora de ponta) de duração ilimitada.

 

Fernando Rosas escreve um livro que demonstra as ligações da formiga com os nazis de Auschwitz.

 

Para responder às sondagens o Governo faz passar uma lei sobre a igualdade económica e outra de anti descriminação (esta com efeitos retroativos ao princípio do Verão).

 

Os impostos da formiga são aumentados sete vezes e simultaneamente é multada por não ter dado emprego à cigarra. A casa da formiga é confiscada pelas Finanças porque a formiga não tem dinheiro que chegue para pagar os impostos e a multa.

 

A formiga abandona Portugal e vai-se instalar na Suíça onde, passado pouco tempo, começa a contribuir para o desenvolvimento da economia local.

 

A televisão faz uma reportagem sobre a cigarra, agora instalada na casa da formiga e a comer os bens que aquela teve de deixar para trás.

 

Embora a Primavera ainda venha longe já conseguiu dar cabo das provisões todas organizando umas "parties" com os amigos e umas "raves" com artistas e escritores progressistas que duram até de madrugada. Sérgio Godinho compõe a canção de protesto "Formiga fascista, inimiga do artista".

 

A antiga casa da formiga deteriora-se rapidamente porque a cigarra está-se nas tintas para a sua conservação. Em vez disso queixa-se que o Governo não faz nada para manter a casa como deve de ser. É nomeada uma comissão de inquérito para averiguar as causas da decrepitude da casa da formiga. O custo da comissão (interpartidária mais parceiros sociais) vai para o Orçamento de Estado: são 3 milhões de euros por ano.

 

Enquanto a comissão prepara a primeira reunião para daí a três meses, a cigarra morre de «overdose». Rui Tavares comenta no Público a incapacidade do Governo para corrigir o problema da desigualdade social e para evitar as causas que levaram a cigarra à depressão e ao suicídio.

 

A casa da formiga, ao abandono, é ocupada por um bando de baratas, imigrantes ilegais, que há já dois anos que foram intimadas a sair do País mas que decidiram cá ficar, dedicando-se ao tráfego da droga e a aterrorizar a vizinhança.

 

Ana Gomes, um pouco a despropósito, afirma que as carências da integração social se devem à compra dos submarinos, faz uma relação que só ela entende entre as baratas ilegais e os voos da CIA e aproveita para insultar Paulo Portas.

 

Entretanto o Governo felicita-se pela diversidade cultural do País e pela sua aptidão para integrar harmoniosamente as diferenças sociais e as contribuições das diversas comunidades que nele encontraram uma vida melhor.

 

A formiga, entretanto, refez a vida na Suíça e está quase milionária...”

 

Fim

 

 

CAFÉ DA MANHà

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 08:00
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Sexta-feira, 27 de Junho de 2014

800 ANOS DA LÍNGUA PORTUGUESA

   

 

“A língua que falamos não é apenas comunicação ou forma de fazer um negócio. Também é. Mas é muito mais. É uma forma de sentir e de lembrar; um registo, arca de muitas memórias; um modo de pensar, uma maneira de ser – e de dizer. É espaço de cultura, mar de muitas culturas, um traço de união, uma ligação. É passado e é futuro; é história. É poesia e discurso, sussurro e murmúrios, segredos, gritaria, declamação, conversa, bate-papo, discussão e debate, palestra, comércio, conto e romance, imagem, filosofia, ensaio, ciência, oração, música e canção, até silêncio. É um abraço. É raiz e é caminho. É horizonte, passado e destino.

 

Na era da globalização, falar português, uma das grandes línguas globais do planeta, que partilha e põe em comum culturas da Europa, das Américas, de África e da Ásia e Oceânia, com centenas de milhões de falantes em todos os continentes, é um imenso património e um poderoso veículo de união e progresso.

 

Neste dia, queremos festejar esses oito séculos da nossa língua, a língua do mar, a língua da gente, uma grande língua da globalização. Fazemo-lo centrados nesse dia e ao longo de um ano, para festejar com o mundo inteiro esta nossa língua: a terceira língua do Ocidente, uma língua em crescimento em todos os continentes, uma das mais faladas do mundo, a língua mais usada no Hemisfério Sul. Celebramos o futuro.”

 

“O "Manifesto 2014 -- 800 anos da Língua Portuguesa" é uma iniciativa que visa celebrar os oito séculos do português, tendo como base o testamento de D. Afonso II (1214), o mais antigo documento régio e oficial escrito em língua portuguesa.

A apresentação oficial do "Manifesto 2014" vai decorrer no Padrão dos Descobrimentos, em Belém. A cerimónia começará com a apresentação de 16 poemas dos oitos países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) - Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Ao princípio da tarde, 800 crianças lançarão 800 balões para assinalar os 800 anos da língua portuguesa.”

 

Fontes: esta e esta.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:47
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Terça-feira, 27 de Maio de 2014

DO FADO AO TANGO E AO BOLERO

      

Frente e Verso do ‘Picture Disc’ com as primeiras gravações de Amália Rodrigues

 

“Fado de Lisboa esteve na origem de tango e bolero, diz o investigador e professor universitário chileno Miguel Angel Vera. Explicou que estes géneros musicais são na verdade um «encontro de famílias» resultantes das travessias do Atlântico Sul feitas por muitos portugueses entre 1880 e 1930. Defende que o fado de Lisboa esteve na origem do tango e do bolero, uma tese que começa numa música que Amália Rodrigues costumava cantar nos seus espetáculos. Miguel Angel Vera mais disse: a investigação começou quando a fadista portuguesa disse que “Fallaste Corazón”, uma canção ranchera, era um fado mexicano.

 

Miguel Angel Vera, que está a apresentar um disco com dezasseis inéditos de Amália, resultado de pesquisas que fez na América Latina, e designado “De Porto a Porto” com apresentação agendada para esta quinta-feira no “Mouraria”, procurou provas que juntassem numa família vários tipos de canção urbana, todas nascidas em cidades portuárias, como Vera Cruz, Santiago de Chile, Cuba, Callao, Buenos Aires e Guayaquil.

 

«Não é por acaso que nestes portos que existem músicas que são semelhantes ao fado», acrescentou Miguel Angel Vera, numa referência a géneros como rancheras, boleros, cantineros e cantigas crioulas que têm o mesmo compasso binário que o fado. Este professor chileno descobriu que um quarto das tripulações que faziam travessias rumo ao Atlântico Sul entre 1880 e 1930 eram de origem portuguesa e que, por isso, o fado e as cantigas da América do Sul são «encontros de famílias».”

 

Fonte: http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=3935807

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:29
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Quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2014

“NÃO É ALEGRE NEM TRISTE”

 

 

Morte da Severa - autor que não foi possível identificar

 

 

Grácio Freitas – Amália, pop arte                                                                          Grácio Freitas – Mariza, pop arte

 

Li:Fernando Pessoa afirmou ao Diário de Notícias, em 1929, que “a canção é uma poesia ajudada” e, referindo-se ao fado, sobre o qual escreveu “Há uma música do povo”, o poeta disse que “não é alegre nem triste". "É um episódio de intervalo”.

“Domou-o a alma portuguesa, quando não existia, e desejava tudo sem ter força para o desejar”, acrescentou Pessoa, referindo que, "no fado, os Deuses regressam legítimos e longínquos".”

 

Soube: em Abril, é editado o novo álbum de Mariza. Um dos temas, “É ou não é”, foi originalmente interpretado por Amália Rodrigues e criado por Alberto Janes, um dos mais populares compositores portugueses das décadas de 1950 e 1960, autor de alguns dos fados mais conhecidos da nossa fadista maior. A letra mantém atualidade. Vejamos:

 

“É ou não é
Que o trabalho dignifica
É assim que nos explica
O rifão que nunca falha?
É ou não é
Que disto, toda a verdade,
Que só por dignidade
No mundo, ninguém trabalha!

É ou não é
Que o povo diz que não,
Que o nariz não é feição
Seja grande ou delicado?
No meio da cara
Tem por força que se ver,
Mesmo até eu não meter
Aonde não é chamado!

Digam lá se assim ou não é?
Ai, não, não é!
Digam lá se assim ou não é?
Ai, não, não é! Pois é!

É ou não é
Que um velho que à rua saia
Pensa, ao ver a minissaia:
Este mundo está perdido?!
Mas se voltasse
Agora a ser rapazote
Acharia que saiote
É muitíssimo comprido?

É ou não é
Bondosa a humanidade
Todos sabem que a bondade
É que faz ganhar o céu?
Mas na verdade, não
Lá sem salamaleque,
Eu tive que aprender
É que ai de mim se não for eu!

 

Proponho: ouvir as interpretações de Amália Rodrigues e de Mariza do “É ou não é”.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:43
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Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

VINTE E QUATRO CÊNTIMOS

 

Autor que não foi possível identificar, Janet Hills

 

Cebolas a um euro e dez cêntimos. Dava voltas à rede averiguando ultraje na pele estaladiça. Nada. Tamanho médio e bem conservadas.

 _ Vão estas!

Ele aproxima-se e sussurra:

_ Aquelas são vinte e quatro cêntimos mais baratas!

Fizeram silêncio a condizer com o momento.

_ Que dizes?

_ Não sei, tu é que vês.

 Decidida:

_ Vão estas. Poupamos a diferença noutro lado. E é Natal. Para o ano, sabe Deus se por cá andaremos.

Ambos baixos. Ele mais do que ela, também na curvatura das costas. Enrolavam-se no pequeno mundo que importava. De tempos mais vistosos havia registo nalgumas das peças que vestiam. Usadas, não coçadas, antecipando hábitos económicos: para casa «marcha» a roupa de uso que permita abrir a porta sem rubor envergonhado. O cachecol dele, por exemplo, pura caxemira. O casaco comprido dela há muitos anos deixara as mãos da modista, mas fora feito à medida, via-se.

O agigantado carro promotor do consumo somente tinha o fundo repleto. Chocolates. Ovos. Canela. Açúcar. Leite. Óleo. Farinha e abóbora. Para a sopa ou para os fritos do Natal.

_ Chegam na sexta, não é?

Ele assentiu ao ruminar: o mês está difícil, mas como lhe brilham os olhos ao preparar a casa para receber os filhos e os netos... Merece tudo, ela. Boa mãe e companheira. Lembrou-a, mão na mão, ao subirem as escadas do Centro de Saúde. Como do outro pressentiam o hesitar do coração medido pelo cansaço... Cedeu. Legitimou na face uma lágrima. Tão cristalina como na infância traquinas quando era castigado ou na juventude poderosa derramada em África. A mulher escolhia o bacalhau. Ele tirou do bolso o lenço e secou a emoção; depois, assoou-se.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:10
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Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

PERDIDO NA COLINA

Marcello Petisci, Lory Lockwood

 

É dia de Santa Cecília cuja história edificante é contada aqui. Que me perdoem os múltiplos altares dedicados à exemplar mulher, mas para mim é dia de santa oficina, de madrugada à custa dela, de espelho retrovisor, de santo mecânico que me devolverá, completa, a viatura. Tanto adiei para hoje à custa da paragem forçada, que o tempo, desfiado como rosário, não dá para mais - as andanças programadas não se compatibilizam com táxis pela distância envolvida na área da ‘Grande Lisboa’.

 

E lembro momentos que me apagam lamúrias tão ociosas como as de cima.

Um homem, uma tarde de arranjos caseiros. Entre o tilintar das ferramentas e o zumbido das brocas, deslizou a fala. Económica. Pelo meio do trabalho, propus uma pausa. No ruído, na tarefa, na tarde. Aceitou um café. O sol entrava a rodos e subia à janela o odor da terra grávida.

Cereja após cereja que as palavras sempre são, chegámos à mais carnuda: felicidade. Disse com o olhar perdido na colina relvada.

_ Sou feliz!

O meu silêncio encorajou-o.

_ Não tenho o que desejo, mas gosto do que tenho.

Esboçou um sorriso como se o aroma do café e os afagos do sol lhe sussurrassem o «abracadabra» de um reduto íntimo.

Perguntam alguns de que é feita a felicidade dos 'simples'. _ De análoga massa lêveda à dos demais, por muitos complicada na metafísica de oníricas beatitudes. Distantes do real. Não reconhecendo a felicidade, sem, contudo, legitimarem o estatuto de infelizes. Peregrinos distraídos dos mosteiros e santuários da caminhada.

Aquele homem conhecia a serenidade. Genuína. Encostei-me ao parapeito, omiti a cacofonia e senti no meu o pulsar da Terra. Feliz.

 

CAFÉ DA MANHÃ

                                                                                                                                           Sugestão do C.

 

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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

_ COMO? ‘PIMBA’?

Jean Gabriel Domergue

 

Segundo os padrões familiares, nova demais para assistir ao Teatro de Revista quando o esplendor lhe pertencia, vi a primeira ‘revista’ pouco antes do 25 de Abril de 74. Recordo-me da sensação de forma de teatro menor, conquanto divertido, cenicamente encantador. Falas brejeiras, muitas; as de censura à censura vigente e à sociedade portuguesa mais aos governantes, por tanto curarem da discrição, somente entendimentos treinados as assimilavam. Na altura, jovem espigadota, enformada pela doutrina vigente, não fora a liberalidade da JEC, restaria surda e cega ao sistema ditatorial.

 

Com o espírito de então, ao Teatro de Revista chamaria 'pimba' fazendo uso da atávica arrogância juvenil a pender para o ‘intelectualóide’. Nem perceberia que 'pimba' era eu devido às palas que me restringiam horizontes e das quais foi difícil abdicar. Mas lembro, sim, os corpos perfeitos das coristas, os strass e cetins, a ousadia da rede nas meias, o ar canaille que pairava. E quando levantavam em simultâneo as longas pernas, os seios pulando dos espartilhos ousados? Os homens, habituados à modéstia dos sutiãs e cintas caseiras, às camisas de grosseira flanela das senhoras donas esposas no deitar, iam ao rubro e babavam na cadeira. Deles, os mais libert(in)os, enviavam flores aos camarins das artistas, coristas incluídas, pois então!, e esperavam, findo o espectáculo, acesso a momentos de luxúria inauditos. Da vontade da mulher, da conta bancária ou do arrojo e figura marialva dependia o sim e o não.

 

Vem ao caso o tratado pela audição desde há três dias da “Rádio Sim”. Casa esvaziada de fios ligados a satélites, o trazido deu «nega», os antigos, rijos como peros do Vale D. Pedro, funcionam. Sintonia única a emitir: “Rádio Sim”. Inenarrável a programação para quem é ouvinte da TSF - noticiários emprestados pela Rádio Renascença, música portuguesa de tempos que há muito foram outros. Tem ‘discos pedidos’, adivinhas, conversas madrugada dentro com gentes acordadas pelo ofício ou cujas insónias entretêm; idosos na maioria. Antes de ter «crescido», classificá-la-ia de ‘pimba’. Já não. Traz alegria, gargalhadas vigorosas, ânimo aos molhos a quem a procura e com ela suaviza solidões e achaques.

 

‘Pimba’ esta rádio? ‘Pimba’ quem a ouve? ‘Pimba’ o Quim Barreiros? _ Não! ‘Pimbas’ são os falsos profetas, os arrogantes de tigela meada, os ricos que maltratam ou exploram funcionários e passam aos alheios o estatuto de mecenas, escritores pretensiosos, artistas curvados ao que no pretenso elitismo “está a dar”.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:13
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Sábado, 13 de Agosto de 2011

ESTÓRIAS D’ALDEIA

 

Blake Flynn

 

I

Acabado de cozer o pão, quem na cabeça o trazia em tabuleiro de madeira apoiado na «rodilha» - aliviava o desconforto e equilibrava o peso - dizia aos passantes:

_ Olhe, tome lá do nosso pão e com saúde o coma.

Respondiam:

_ E vossemecê o que lá tiver.

 

II

Era comum ouvir:

_ Amor dado é recebido.

Os menos indulgentes resmoneavam:

_ «Atão»… É dado porque já foi recebido.

 

III

Numa procissão da Festa de São Cosme e São Damião, «anjinhos» à frente, andores carregados aos ombros pelos mordomos, seguiam-nos em duas «carreiras» paralelas crentes com velas na mão. Dado o caso de um dos mordomos ter vislumbrado teia de aranha no andor, vozeou:

_ Pare a música que o Senhor leva «bixo»!

 

IV

O pároco da freguesia, não raro, utilizava a homilia para «recados». Era recorrente apelar aos casais no sentido de engendrarem mais filhos. Ora, sendo a pobreza regra pedir nascimentos era injusto até pela elevada taxa de mortalidade no parto de mães e neófitos. Como em todas as liturgias, na nave da igreja, mulheres, no coro, homens. Vinda do alto, trovejou a voz do ‘tio’ Monteiro, quatro filhos a custo alimentados, farto de ouvir o mesmo:

_ Ó Senhor Prior, olhe que já “fiz a minha perna” (contava quatro filhos)!.

 

V

Durante a semana santa, era uso vir de fora um sacerdote pregar. No púlpito, paramentado com cetins e dourados pomposos, advertiu:

_ As três paixões que levam o homem ao Inferno são: o mundo, o demónio e a carne.

Findo o sermão, já no adro, juntam-se três mulheres: Paixão do Rita, Paixão Mereira e Paixão do Canto. Lamentavam-se por julgarem ser uma o demónio, outra o mundo e a última a carne. A Paixão do Rita não se conteve:

_ Mas que foram dizer ao padre?! Toda a gente sabe a minha vida e a do meu homem. Não mereço ouvir uma destas do “altar abaixo”.

 

VI

A moçoila mais cortejada na aldeia teve direito a serenata organizada pelo Tito Bruno, rapaz de muitas posses, e outros amigos da vila. O hábito era a homenageada, sem assomar à janela ou “ficaria falada”, acender a apagar a luz duas vezes como sinal de ter recebido o mimo. Assim fez. A ‘tia’ Amélia cujo principal ofício era receber e espalhar mexericos sorriu, melíflua, e interpelou:

_ Ó Rosinha, ontem não deu por nada? Pois saiba que me fizeram uma serenata esta noite! Prá menina, não, que o senhor seu pai, “dando fé”, sumia os moços em menos de nada.

VII

Na ribeira, era lavada a roupa pelas mulheres da comunidade. Preparando-se uma delas para desacato verbal enquanto os lençóis coravam, outra logo respondeu:

_ Olha, “vai lavar a «rouupa»” e cala-te!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

À época do contado, na aldeia, era ídolo Amália Rodrigues, “Fado Amália” o preferido.

 

publicado por Maria Brojo às 10:12
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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

SERENATA A LISBOA

J. B. Durão

 

Sobre Lisboa, escreveu o António:

 

"intimidades – passeata serena a coleccionar e partilhar a Lisboa que se esconde e mostra em janelas e atavios mais seus haveres dependurados em fios, delimitadores do público/privado em recortes dos olhos para cima, em varandas, candeeiros e telhados titânicos de surpresa em cada muro, parede e esquina

extimidades – serenata em modo passeio por entre imagens legendadas apesar e em complemento da evidência, ilustrando a molécula mãe da arquitectura de uma cidade que é a sua vivência, talvez mais acesa no momento de se passar junto a uma janela, rapidamente a saber e dar sinal se lá aguarda uma Ophélia ou demoradamente em camarote familiar à espera de ver e referenciar um Poeta a compassar

urbanidades – e assim a cidade povoa e se povoa de histórias e de alguma história, algum dia recuperadas na literatura em novos casos do Beco das Sardinheiras ou a debate entre vizinhas, em tertúlias de café ou em serões de tasquinhas, nos antigos pátios e bairros de casario debruado a cantarias implantadas a régua e esquadro, ou em hipopes e raps nos corredores, terraços e adros chamados espaços, patinados e grafitados dos bairros sociais anodizados, em dinâmicas imprevisíveis mas, também por isso, potenciadoras de narrativas e projectos, namoros e novos sonhos, passos perdidos e reencontros, objecto e também, se assim quisermos, alma do lugar de indizíveis felicidades."

 

Nota: nestes dias, o acesso à net é difícil. Publicarei, lerei os comentários e na volta responderei gostosamente um a um. 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 11:29
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Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

CORAÇÃO INDEPENDENTE E FIBRAS ÓPTICAS

Boris Valejjo

 

Progressos nas telecomunicações são o denominador comum dos investigadores laureados. Três mestres da luz receberam o Prémio Nobel da Física. Avançaram nas transmissões da radiação electromagnética propagada no vazio a trezentos milhões de metros por segundo. Comumente designada luz, embora haja muitas – da “gama” até às ondas da rádio que muito informam e colaboram com a Teresa C.

 

Um deles, Kao, rentabilizou as fibras ópticas – suportes de transmissão com elevado débito. Constituídas por três elementos:
- o coração serve para a propagação dos raios luminosos;
- a bainha óptica que cerca o coração é constituída por um material cujo índice de refracção é inferior ao do coração e confina a propagação dos raios luminosos;
- o revestimento de protecção protege a bainha óptica das degradações físicas.

 

Os outros dois premiados, Williard Boyle e George E. Smith, congeminaram o CCD - sensor de imagem capaz de captar e ler sinais com uma imensidade de pontos de imagem (pixels). Aplica, elaboradamente, o efeito fotoeléctrico teorizado por Einstein.

 

Para hoje a estreia do apurado Cd “Coração Independente” de Amália. Ontem, a inauguração da “Rádio Amália” e a efeméride da década de saudade pela diva. A luz não é somente privilégio de campos electromagnéticos perpendiculares vibrando entre si. Alguns humanos encandeiam os outros por brilho outro. Porém, luz.

 

CAFÉ DA MANHÃ
 

 

publicado por Maria Brojo às 06:28
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Recomendo:

Exposição de Artes Plásticas - Conceito

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Lembrai os filhos do FUHRER, QUE NASCIAM NOS COLEG...
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ABANDONODAVID MOURÃO FERREIRAPor teu livre pensame...
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