Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2013

RELATO DE UMA VIRGEM EM SEX SHOPS

 

 

Toulouse Lautrec - La Goulue                                                     David Olère

 

Quando a virgindade é um estado de alma, desflorá-la obriga a ponderação - abrir brechas nos redutos de inocência envolve custos e benefícios. Num «pós-lua-de-mel» em Paris, comi, pela primeira vez, couscous magrebinos. Fosse pelas unhas do funcionário manifestamente encardidas, ou pela decadência no Bairro de Saint-Denis, vomitei couscous, sobremesa e nojo. Atravessei, sonâmbula, as ruas sem sono de uma Paris de néons e farrapos que excluíra nas passagens anteriores. Do Can-can e da ambiência retro do Moulin Rouge, somente conhecia a La Goulue pintada por Toulouse Lautrec. Lembro a perfeição dos corpos e gestos das bailarinas que ali e no Lido confirmaram ser uma questão de atitude a feminilidade sedutora. Visita de estudo cujos ensinamentos a menina-mulher gravou. Perdida foi a virgindade em couscous e na venda das peças de carne penduradas em saltos.

 

Vagabundearia, curtos anos depois, no Bairro Vermelho em Amesterdão onde as montras mais as lojas de brinquedos adultos pasmam carneirada turística. Emocionalmente foi inócuo, após o tumulto do espírito por cada degrau subido na casa de Anne Frank. Aqui, rasguei a virgindade na perceção vívida do Holocausto.

 

Anos e desflorações posteriores, a minha alma, ou o que dela fizer a vez, sangrou na aldeia mártir de Oradour-sur-Glane. A memória do cerco das SS está incrustada no interior da igreja que testemunhou, impotente, a morte de 452 mulheres e crianças. Nos celeiros, 190 homens foram fuzilados por dois pelotões nazis. Sobra o esqueleto carbonizado de um vilarejo rural.

 

Talvez pelos abanões experimentados nalgumas perdas de virgindade, a cautela filtra a infinita curiosidade pelo novo. Todavia, exterior inusitado a lembrar comércio londrino deteve-me os passos. Sólida madeira protegida com cera, montra recolhida e porta campainhada. Fosse pela curiosidade ou pela companhia, rodaram as dobradiças. No interior, aroma de almíscar, bom gosto e silêncio. As madeiras continuavam. Alinhados nas prateleiras, mantimentos que presumo costumados.

 

Embasbaquei perante milagres consentidos pelos polímeros e a diversidade das fontes do prazer humano. Embeveci-me com os corpetes e a originalidade das meias ditas de «vidro». Deplorei a imagem das bonecas vazias espalmadas na embalagem. Havia tules feminis há muito procurados. Comprei. Dois pares de meias vieram. Um corpete de cetim, que o século dezoito não desdenharia, piscara o olho desde a entrada. Não cometi a desfeita de o abandonar pendurado. Papel reciclado como matéria do saco-embrulho. Espiga atada com ráfia honrou o dia que a comemorava.

 

Um objeto é, em si mesmo, inocente. A obscenidade está nos espíritos e nos atos que os preconceitos, a perversidade ou a cobardia toldam.

 

Nota:

- memória publicada no “Escrever é Triste";

- à conta de corpetes e espartilhos, texto esquecido que outro da Eugénia Vasconcellos lembrou.

 

CAFÉ DA TARDE

 

publicado por Maria Brojo às 12:05
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