Sábado, 2 de Julho de 2011

NEM TODOS OS BEIJOS SÃO

 

~

Andrew Valko

 

Nem todos os beijos são. Alguns, despacho despachando acto. Outros, violino nas telhas ‘antes de’, nas vezes, prova de falta deles e só por isso trocados. Mais existem: aqueles que afloram pele como fatia do chão empedrado na Castilho pelo lilás caído dos jacarandás e fazem tapete que abafam passos andados; escassos os que desafiam corpos a partir dos lábios; raros os que provam mais do que lascívia e (pres)sentem amores medidos pelo invisível. Sem hierarquização porque ausente tabela que cronometre segundos e razões. Veros, todos. Acontecidos. Exclusivos no instante onde foram e das bocas decididas ao fragmento exibido de afecto fundo ou do ‘porque sim’. Dissecar motivos dos beijos mais ocioso do que encontrar agulha em relva densa. E se foi escrito o escrito, devo-o ao António que, a propósito do “Por isso belas”, publicou mais e melhor:

 

“é!
há por aí beijos despudorados!! aparecem em todo o lugar, estão, vão, são!!! e uma luz indicia que de olhos fechados se vê, um rumor explicita que o silêncio diz e uma humidade desponta onde oceanos apaziguam rios... sirva-se à temperatura e tempere-se a pressão, volvem pétalas onde se sente a mão, onde o perfume lembra a incondição, onde a memória se faz lábio, a vivência é boca e o desejo sufoca a sofreguidão
galáxias em forma de coração e alvíssaras a explicação, a um canto a obsessão, a vida tem o condão de prover a imensidão, a intensidade e a verdadeira alegria, em despudorados beijos de ocasião, de catálogo, de recordação, os que trazemos perdidos à espera de uma canção, os que oferecemos à noite e ao alvor já lá não estão, os suspirados sem grito nem sopro ou respiração, os que nos dão de mansinho em mimos de arribação, os que perduram no corpo, nos poros e entranhas e em toda a ilusão, os que demoram a haver e juram não se perder, os que sofremos por querer e os que gozámos sem ter, os outros, os todos, os mais, os que nunca foram ais, os melhores que estão p'ra vir, os que não param de fugir, os que bebemos de um trago num postal por emitir, os que sabemos de cor por tanto não existir, os que demos de mãos dadas e os que roubámos no escuro, os que sabemos tão pouco até não nos afligir, os que inventamos de pronto para não chorar a rir, os que mordemos em panos, escondidos e envergonhados, os que um dia descobrimos se portanto apaixonados, os que p'ra sempre exaltamos quando neles nos casámos, os que se beijo, logo existo, os que dá-mos já que não resisto, os que depois bem verás, os que etecetera e tal, os que nunca saberás e os que descem as paredes, árvores, chaminés e nos recobrem de amor do toutiço até aos pés, os de choquinhos com tinta que denunciam a avó, os do gato shiu à pála da corda ao relógio, os que saíram do armário e que ainda lá ficaram, os à cinéfilo da primeira à última fila e à casinha do projector e mais uns quantos pelo corredor, outros tantos em redor e mais alguns dos sem pudor, os ... e mais quais' ah... os mais, os a mais e os tais, sim, despudorados, sim, sejam “

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:22
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Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

CARA DE BONECA

Jan Bollaert

 

Quando ela entrou para o comboio, já vinha com cara de boneca. Rosto quadrado, lábios quase sintéticos, olhos escuros, meio encobertos pela franja perfeita de um cabelo que parecia peruca. O único movimento que traía a sua fisionomia de brinquedo era o contínuo mascar de uma pastilha, que resistia apesar de sucessivamente esmoída pelos movimentos basculantes do maxilar inferior.

Encostou-se junto à porta, na posição de máxima interferência com a saída e entrada de passageiros, e iniciou o processo. Qual processo? O de se embonecar ainda mais. Tirou da bolsa um estojinho, abriu-o e, com um pompom, aplicou um pó qualquer sobre o rosto. Fê-lo com movimentos precisos, conduzindo com destreza a almofada pelos contornos faciais, várias vezes sobre cada ponto, até dar-se por satisfeita.

Mas o serviço não estava completo, longe disso. O estojo voltou para dentro da mala e, em troca, surgiu o pincel - não um qualquer, mas um desses de cabeça larga e pelagem fofa, bom para tortura nos pés. Com a mesma habilidade, a rapariga valeu-se do utensílio, em garbosas pinceladas nos cantos essenciais da face.

Eu, sentado a meio da carruagem, na minha posição de moribundo matinal, já começava a quedar hipnotizado pela cena. E mais ainda fiquei quando o pincel foi fazer companhia ao estojinho e da bolsa emergiu uma espécie de caneta grossa, como um bastão de cola. Não colava, mas preenchia. O quê, não me perguntem, pois a pele da miúda, congruente com a sua idade, ainda estava despida dos vales epidérmicos da progressão etária. Mas ela lá sabia, e entreteve-se durante alguns minutos a retocar alguns pontos invisíveis de imperfeição. O que ela fazia com aplicações leves e cirúrgicas, eu não conseguiria nem com duas demãos de massa de pedreiro.

O comboio já ia a meio do caminho, com mais passageiros em pé do que sentados, incluindo o meu objecto de estudo naquele dia. Cogitei onde ela trabalharia, para ser precisa tanta maquilhagem. Intrigava-me também como o constante esforço na mastigação da pastilha não comprometia o revestimento facial recém-aposto.

Mas a rapariga não dava tréguas para reflexão profunda. Era um produto atrás do outro que saía daquela mala. Depois da caneta grossa, veio outra, fininha, para o contorno dos olhos. A seguir, um lápis para o lado externo da pálpebra. Depois, outro para a borda interna da mesma. Uma escovinha de pentear as sobrancelhas. Outra para os cílios. Uma coisa qualquer para a testa. Batom. Brilho. Reforço. Lustro.

Quando eu julgava esgotadas todas as possibilidades, ela avançou para o cabelo. Uma escova para alongar, outra diferente para enrolar a franja. Um espelho para os retoques finais. À chegada do comboio ao Cais do Sodré, estava no spray, aplicado sobre a sua arquitectura capilar e o ombro do passageiro ao lado. Desceu na estação terminal com mais cara de boneca do que quando entrara e deu com uma amiga, que também vinha no mesmo comboio.

- Olá, estás boa? - disse e cumprimentou-a com um beijinho, daqueles em que apenas as bochechas se tocam. Temi que as duas ficassem para sempre com a cara colada. Mas não, havia muita ciência naquela maquilhagem.

 

Nota - “Cara de boneca” por Ricardo Garcia com a prestimosa ajuda do António a propósito do texto aqui publicado “Batom-Cola” no dia 18 de Julho de 2010.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:09
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Sábado, 12 de Junho de 2010

QUANDO OS BEIJOS SÃO

Justine Lai’s

 

Nem todos os beijos são. Alguns, despacho despachando acto. Outros, violino nas telhas ‘antes de’, prova de falta deles e só por isso trocados. Mais existem: aqueles que afloram pele como na fatia do chão empedrado da Castilho pelo lilás caído dos jacarandás - fazem tapete que abafam passos andados; escassos os que desafiam corpos a partir dos lábios; raros os que alongam lascívia e (pres)sentem amores medidos pelo invisível. Sem hierarquização porque ausente tabela que cronometre segundos e razões. Veros, todos. Acontecidos. Exclusivos no instante onde foram e das bocas decididas ao fragmento exibido de afecto fundo ou do ‘porque sim’. Dissecar motivos dos beijos mais ocioso do que encontrar agulha em relva densa. E se foi escrito o escrito, devo-o ao António que, a propósito do “Por isso belas”, publicou mais e melhor:

 

“é!
há por aí beijos despudorados!! aparecem em todo o lugar, estão, vão, são!!! e uma luz indicia que de olhos fechados se vê, um rumor explicita que o silêncio diz e uma humidade desponta onde oceanos apaziguam rios... sirva-se à temperatura e tempere-se a pressão, volvem pétalas onde se sente a mão, onde o perfume lembra a incondição, onde a memória se faz lábio, a vivência é boca e o desejo sufoca a sofreguidão
galáxias em forma de coração e alvíssaras a explicação, a um canto a obsessão, a vida tem o condão de prover a imensidão, a intensidade e a verdadeira alegria, em despudorados beijos de ocasião, de catálogo, de recordação, os que trazemos perdidos à espera de uma canção, os que oferecemos à noite e ao alvor já lá não estão, os suspirados sem grito nem sopro ou respiração, os que nos dão de mansinho em mimos de arribação, os que perduram no corpo, nos poros e entranhas e em toda a ilusão, os que demoram a haver e juram não se perder, os que sofremos por querer e os que gozámos sem ter, os outros, os todos, os mais, os que nunca foram ais, os melhores que estão p'ra vir, os que não param de fugir, os que bebemos de um trago num postal por emitir, os que sabemos de cor por tanto não existir, os que demos de mãos dadas e os que roubámos no escuro, os que sabemos tão pouco até não nos afligir, os que inventamos de pronto para não chorar a rir, os que mordemos em panos, escondidos e envergonhados, os que um dia descobrimos se portanto apaixonados, os que p'ra sempre exaltamos quando neles nos casámos, os que se beijo, logo existo, os que dá-mos já que não resisto, os que depois bem verás, os que etecetera e tal, os que nunca saberás e os que descem as paredes, árvores, chaminés e nos recobrem de amor do toutiço até aos pés, os de choquinhos com tinta que denunciam a avó, os do gato shiu à pála da corda ao relógio, os que saíram do armário e que ainda lá ficaram, os à cinéfilo da primeira à última fila e à casinha do projector e mais uns quantos pelo corredor, outros tantos em redor e mais alguns dos sem pudor, os ... e mais quais' ah... os mais, os a mais e os tais, sim, despudorados, sim, sejam “

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:56
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Sábado, 29 de Maio de 2010

EM LX, CORETO DE TRONCOS FEITO

Babis Kiliaris

 

Há projecto da Câmara Municipal de Lisboa para inovar o largo que medeia a subida do Rato pela Rua da Escola Politécnica, de seu nome Jardim do Príncipe Real. Bem-vindo se respeitasse a nobreza da rua onde desafiam modernidade mal «enjorcada» o prédio Gonzaga Ribeiro, o Palacete Castilho, o Palácio Rebelo de Andrade Seia, o Palácio Cruz Alagoa. Em frente do Real Colégio dos Nobres, depois Escola Politécnica, por detrás e ao lado o Jardim Botânico, a Casa das 11 Portas. Da Real Fábrica das Sedas, vestígios que alojariam o café “Flor do Rato”.  

Numa das colinas mais nobres, num jardim histórico que abre para moradores e quem passa a serenidade verde, abater quase meia centena de árvores a favor dum parque de estacionamento, é crime. Lembra o assassinato da Avenida dos Aliados no Porto:

_ Onde estavas com a cabeça e o engenho Siza?

 

No Jardim do Príncipe Real, não existe coreto; substitui-o roda imensa nascida de troncos enlaçados. A propósito, destaco reflexão do António sobre a Praça de Espanha inserida no aqui publicado a 4 de Fevereiro deste ano. Merece ser lida, relida e treslida. Fascina-me este texto cujo final igualmente deslumbra.

 

(…)

“b) vai daí um dia tiram-nos a Pausa de Espanha a poder de homotética viadutização (ou tunelização santanal, é facilitar a vereação e...) de tão desaproveitada Praça onde só raramente pastam vaquinhas alentejanas sob pavilhão açoriano, e então tiram muito que é o pouco que lá há, caras conhecidas meia dúzia, os da Cais, os dos jornais que já foram mais dados, o do pé a descoberto, o negro malabirista entre sinais, os romenos arredios ou intermitentes, ora os do pára-brisas arranhado a esfregão da loiça infecto de ameaças, ora uma esquadra de romenas perfiladas de bébé ao colo em cada cruzamento, ora a venderem Bordas d'Água, ora pensos rápidos, ora papelinhos atrelados a boneco sebento e vai-se a ver estava escrito tenho fome dê-me dinheiro e vá de proceder a despachadas recolhas no preciso momento em que muda o semáforo, mais as pombas e agora cada vez mais gaivotas e feirantes e seus clientes matinais em bares de contentores numerados, romarias à Oncologia e arrepia-se ao passar no sítio exacto onde o verdadeiro artista português viola a fila de pacientes condutores meio entorpecidos da manhã sem ponta prolongada por toda a hora do santo dia e uns viram nos semáforos se estão no primeiro ou último lugar da fila enganada, uns atravessas que arriscam a vida para quê? para recuperar minutos atrasados que o próximo metro poderá devolver se as buzinas forem só de raiva pelo inesperado e forçado recurso do travão e por muito que se queira dali não se tira uma canção, não é (ai) Mouraria nem rua do Cá-á-rmo ou Chiado acima acelerava à ida e à volta do trabalho e claro que o das línguas de sogra não é bem línguas de sogra são uns abolachados como as baunilhas dos gelados mas em cilindro em vez de cone e por vezes compra-se um saquinho ou dois daquilo a contentar o sujeito, nem tanto o vendedor que arrecada tão magras moedas como a sua tremelgante figura mas antes o sujeito que tenta aliviar o mal estar de quem está refastelado em bela viatura e se dirige à família em preparos de refeição e egrégora a que o solitário e esforçado baunilheiro não pertence e uma vida inteira depois ali está no meio da via, no meio da via... quase transparente!

c) coreto: a magia e a memória e o namoro e a música e a poesia e a alegria e o mistério e a surpresa de um beijo inesperado de tão secretamente esperado, retribuído e, porque não?, recordado em todos os coretos, lugares de reencontro, reformulando bio-ritmos, humores e amores!”

António

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 09:34
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