Terça-feira, 3 de Setembro de 2013

CAPITÃO ALATRISTE, PÉREZ-REVERTE, MADRID

 

Velaz­quez, “La Ren­di­ción de Breda”, Museu do Prado

 

Aventura literária começada por tela no Museu do Prado. Velázquez, o autor. "La Rendición de Breda”, o nome. Professora de História da Arte acompanhava punhado de adolescentes. Coincidimos frente à “Las Lanzas”, como é mais conhecida a obra. Imponente pelas dimensões, composição, luminosidade e transparência. Ouvindo a professora, como se fora mais um dos seus pupilos, fui além no saber sobre o contexto histórico retratado: a conturbada Espanha nos finais do século XVI e princípios do seguinte. Reinava Filipe IV. Decidida empreitada militar: a recuperação da cidade de Breda, na Flandres, como ponto nevrálgico para outros avanços nos Países Baixos. Breda cai e a tela reproduz a dignidade dos generais e militares de altas patentes no momento da rendição dos holandeses. Comentada a falta do Capitão Alatriste entre os generais Spinola e Justino de Nassau. Do tal capitão ao livro e seu autor foi um passo. À leitura do “Capitan Alatriste”, em espanhol, outro.

 

“El Capitan Alatriste”, o primeiro duma coleção onde são narradas as aventuras do arrebatado capitão por Arturo Pérez-Reverte, revelou-se memorável companheiro de viagem quando em Madrid o apelo havia sido a combinação de duas exposições: Picasso no Reyna Sofia, Modiglianni no Tyssen. Lembra as intrépidas aventuras de capa e espada de Dumas com diferença substantiva: Dumas não pretendeu expor a tragédia de ser francês, enquanto Arturo Pérez-Reverte revela toda a amargura vivida na decadente Espanha do século XVII sob o reinado de Filipe IV.

 

Réverte escolhe um mercenário, um personagem lateral à sociedade, porém orientado pela ética. No hoje, ontem e amanhã também contam, um proscrito pela atual manipulação de valores como decência, vergonha pela cobardia em vigor, dignidade, honradez e reputação. Personagem memorável como Sherlock Holmes, Marlowe, Hercule Poirot.

 

Regressada há dias duma surtida a Madrid, (...)

 

Nota - texto integral aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:24
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Sábado, 27 de Outubro de 2012

‘Room with a view’

Autor que não foi possível identificar

 

Garota, sonhadora, depressa cansei livros de inocentes afetos, bondade às pazadas, fadas, sapos que eram príncipes, príncipes que eram uma maçada. Tudo envolto em bosques, castelos, heroínas louras com lábios de rubi. Olhos azuis ou esmeralda. Os joelhos esfolados por campeonatos de salto à corda e à «macaca» não me davam aspeto de menina bem comportada. Que não era, também pelas atrevidas leituras à socapa. Mimada e enamorada pela família, desgostá-la era mágoa pesada. Aprendi a conciliar. A ler Sarah Beirão. A engolir grito de dor ao desinfetar ferida sorrateira nos joelhos tapados com a fímbria do vestido. A inventar sítios novos para esconder livros pecado, alimento da minha sofreguidão. Charlotte Brontë foi deslumbre na baralhada passagem de menina a adolescente.

 

A leitura continua isolamento amigável. Separa o pequeno mundo onde sou. Abre outros. Concilia a mulher com pensares diferentes. Promove sonhos nem às paredes confessados. Daí a necessidade duma janela, dum espaço que respire o fora, dum room with a view para dar tempo a metaleitura firmada quando o olhar se desprende da página e procura o longe íntimo. Observador daria por inexpugnável o castelo de quem a si própria, lendo, faz companhia.

 

Jean-Pierre Gibrat

 

Má leitora pela índole conduzida ao hábito de devoradora de livros, incrementei a necessidade de voltar ao lido. Confesso mais de vintena de regressos a obras que me caíram no goto, algumas na adolescência. A Cidade e as Serras transportam-me ao Minho da infância estival, aos sabores conseguidos no ferro da panela à lareira, aos rituais agrícolas, às graçolas das gentes, às graças finamente engendradas pelo Eça. Leitura outonal acompanhada pelo roer de maçãs, se camoesas melhor. Indiciada a dependência dos retornos pelos ciclos da Terra. Ao Gonzalo Torrente Ballester no Filomeno, para meu pesar e ao Umberto Eco reservo o Inverno. A inauguração da Primavera ergue-me os braços para retirar Música de Praia da prateleira onde o resto do ano passa ao lado de Pat Conroy. No Verão, releio sagas. Eugénio de Andrade, sempre.

 

Discordo da opinião de amigo estimado, leitor e escritor exigente, ao afirmar que se lhe ofertassem as Fnacs ficaria com dez por cento e para reciclagem útil mandaria os noventa de sobra. A tão radical sentença, oponho o meu congénito ecletismo.

 

Domen Lombergar 

 

Defeito e qualidade.

 

Verso e reverso.

 

Sou dispersa nas escolhas. Leio por inteiro o comprado ou ofertado, à exceção do “Linguado” e dos últimos pedantismos do Mário de Carvalho. Se pelo vocabulário - obriga a dicionário d’antanho, outro atual ao lado - julga atingir hallelujah, que se desengane. Evoluiu, sim, desde a singeleza exemplar no Beco das Sardinheiras. Por dobrões não contados entregou ao diacho que o não leve a pureza sábia.

Refinou e perverteu.

 

Por ora, com entremeios de cambraias outras, leio, em castelhano, Arturo Pérez-Reverte no room with a view. Oferto cambraias finas.

 

A redação está conforme ao «Tpc», querida Tia?

 

CAFÉ DA TARDE

 

publicado por Maria Brojo às 12:30
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Domingo, 11 de Dezembro de 2011

OCRE, LARANJA, "NARANJAS"

 

Na condição de visitante por horas, na Plaza de Espana reaprendi o gosto por Sevilha. Quando a luz e as cores entontecem, ainda hoje e passada semana e meia, faltam palavras que dela mais digam do que banalidades. Serão poupadas.

 

 

A Catedral ascende até ao antigo minarete árabe, La Giralda, que por tanta beleza sobreviveu à destruição da mesquita islâmica onde o actual templo foi implantado. Rampa em vez de escadas - por ali subiam a cavalo os encarregados de anunciar os momentos de oração – quem não teme os trinta metros e chega ao cimo da Giralda é contemplado com uma visão fascinante da capital da Andaluzia. Afirmam alguns que a Catedral pela sua extensão – é maior que a de São Pedro em Roma, a de São Paulo em Londres e a terceira no mundo – polui visualmente Sevilha. Más-línguas, pela certa.

 

 

O Bairro Judeu é perdição que ignorava. Descoberta que soube a pouco, tantos cantos, recantos, pátios floridos onde, na quentura estival as sombras apetecem e aliviam os corpos cativos do Sol impiedoso. Por ruelas estreitas e detalhes também é feito o bairro. A placa lembra ter ali nascido Murillo, o pintor que de modo soberbo representou o barroco espanhol. Outras surpresas emergem a cada esquina dobrada. Demais para caberem aqui.

 

 

Do Palácio dos Arcebispos e da cafetaria La Campana «fala» um conhecido escritor espanhol em livro de excepção. No conjunto dos que li da sua extensa obra, está em segundo lugar nas minhas escolhas. Como sempre, é exercício crítico sobre os comportamentos fétidos da humanidade. Aconselho a edição espanhola pelo esplendor original da escrita não sair desvirtuado numa tradução. Pergunta com direito a prémio: _ Qual o nome do autor e do livro mencionados?

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:59
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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011

“LA REINA DEL SUR”

Fotografia de Teresa C., autor que não foi possível identificar, Fabian Perez

 

Neste Verão prestes a definhar, o apetite por esplanadas descobriu novas onde a paz acontece seja meada manhã ou tarde, cinza ou soalheiras as horas. Amplitude no horizonte diante para que a janela do olhar se levante das páginas e analise o lido, a perfeição duma frase, o momento interior, os silêncios de outros companheiros na sombra escolhida. Nesses instantes, a vida é série filmada, digerida por episódios. Flashbacks revelam subentendidos nas curvas do guião que se desenvolve no ecrã íntimo. É sempre assim nos lugares onde a leitura é objectivo. Se caseira, as paredes confinam deambulações ambiciosas, a falta do longe ao olhar entope a descodificação dos signos por o espírito tender a enredar-se em detalhes ociosos _ Aquele quadro está desalinhado, não posso esquecer ligar a máquina da roupa, tenho de organizar esta papelada. No regresso às letras impressas, ficou diluída a emoção. Já pela noitinha, quando o sono indicia para breve adormecer o corpo alongado na cama/esplanada e parece anular a força da gravidade, a metacognição está apurada. Expostas ficam impressões subjectivas.

 

Em lugares de perdição, andarilhei pelo México e Espanha sem do mesmo poiso sair. Partilhei bravuras, homens/desamores, traições, fidelidades, vidas corridas no fio da espada. Segui o tortuoso carreiro de duas mulheres, Teresa Mendoza uma delas. Decidida, arrojada, contida, é a que se pensa com lucidez, que pensa aqueles de quem é próxima, que pensa como (sobre)viver na lateralidade dum mundo mentiroso onde tudo e quase todos são comprados. Trafica “La Reina del Sur”. Será “La Reina del Sur”. Arturo Pérez-Reverte desenha realidades submersas, e, logo de início, coroa Teresa Mendoza. Com justiça a honra nas quinhentas e trinta e uma páginas que apetecem duplicar não seja perdido o feitiço de tão impressiva escrita.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:52
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Quarta-feira, 24 de Agosto de 2011

"LA PIEL DEL TAMBOR"

Jack Beal

 

Não apetece largar a cantoria dos grilos nem o Outono anunciado de subtis maneiras. Os primeiros indícios surgem no cobre das videiras, nas folhas que caem pelo tempo de vida cumprido, nos entardeceres a pedirem malha leve que proteja as costas, no corado dos pêssegos, nas nozes cuja carapaça, antes verde e lisa, engelha agora.

 

Por fechar a totalidade das portadas, breve passeio ao Café Arcadas, quase à despedida de Gouveia para quem sobe a Estrada da Serra. Esplanada e interior silenciosos que o Tó Zé e a mulher, Maria Helena, atendem. Ambos licenciados em Inglês, ele em Inglaterra, ela em Viseu, após terem decidido, já casal e pensando em filhos, não ser Londres cidade adequada para a serenidade que requer aumento da família. Regressaram a Gouveia, construíram moradia e, por circunstâncias várias, abriram no espaço inferior lugar tranquilo.

 

Nos dias serranos, pelas cinco horas, ocupava ali, a mesa mais recôndita, após duche e banho de sol num terraço escondido de olhares. Continuava leituras, a última do Arturo Pérez-Reverte, La Piel del Tambor, que não interrompe fascínio pelo talento, semântica e léxico. O castelhano bem servido encanta, como qualquer língua cuja ligação das palavras escritas seja genial.

 

Na despedida, ainda que por semanas curtas, das encostas da Estrela, a ruptura deve ser lenta. Pneus em movimento, para trás a Dona Ventura estendendo turcos e lençóis usados em último, janelas abertas para que a ventilação condicionada não abafasse dos pinhais e dos eucaliptos os aromas. Marcha lenta, dedicada ao entreter da memória com sítios e alturas conhecidas. Somente na A1 os 140/160 foram precisos, nuvens prometendo chuva copiosa. Seguindo à frente delas, enxuta a chegada.

 

Lisboa, cidade triste, sem oferta de distâncias onde o olhar se recreie até centena de quilómetros. O apartamento/gaiola postado em sossego e negrume – gelosias cerradas, verdes implorando luz e presença que chegou sem vontade ou graça. La Piel del Tambor e a mulher foram continuidade.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 12:47
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