Sábado, 27 de Agosto de 2011

PÊLO NA VENTA E NA BARBA

Gustave Courbet

 

O falar da Beira Alta tem os seus quês e porquês. Destes, especialistas sabem. Os quês são conhecidos daqueles que por lá vivem ou viveram ou se informaram. São deleite algumas expressões populares pela expressividade ou humor, ainda que, nalguns casos, jocosas ou ofensivas. É de citar pêlo na venta ao querer exprimir mau génio ou frontalidade invulgar de quem perante desaforo não fechava a sanfona (boca). Pêlo na barba tem o sentido de mulher peluda no queixo. Aliás, barba é, na região, também sinónimo de queixo.

 

Gorgomilo, bofes, bucho são termos que significam, respectivamente, garganta, pulmões dos humanos ou do porco, estômago ou enchido feito de partes menores do porco e enfiado na bexiga ou no estômago do porco. As mulheres fazem este pitéu após a matança do porco, atam e põem-no ao fumeiro para ser cozinhado ou consumido em fatias no Domingo Gordo – domingo de Entrudo, o último antes da Quaresma.

No cortelho, lugar reservado ao porco, a pia feita de pedra servia para conter o alimento quer faria crescer o bicho até Janeiro, mês em que ia desta para vida outra nas salgadeiras dos arcazes (arcas em castanho velho) arrecadados na loja (parte inferior da casa situada ao nível da rua). Pelo balcão subiam os moradores até ao espaço reservado para habitarem.

 

Almoço, fatia, jantar, ceia designavam refeições equivalentes e pela mesma ordem a pequeno-almoço, comida levada pelos donos da terra aos trabalhadores agrícolas entre as onze e meia e o meio-dia, almoço e jantar. Madrugar e dormir cedo eram hábitos indispensáveis a quem iniciava cedo a jorna. A ausência de televisão, de leituras, o frio entrado pelas frinchas dos telhados e das paredes em granito contribuíam para ir à deita mal a noite era descida. Filhos muitos foram engendrados por falta de assunto ou pela quentura das cobertas (cobertores) que enganavam frio de arreganhar (arrepiar). Uns medraram (cresceram), outros morreram justificando a elevada taxa de mortalidade infantil antes e durante o Estado Novo. O ripanço (descanso) acontecia somente ao domingo quando ainda não era sonhado fim-de-semana à inglesa.

 

As matas e os milhos (milheirais) proporcionavam fugidios encontros românticos terminados em sexo. Rondada a futura amásia (amante) com rapapés (lisonjas) pelo candidato que lhe desejava o corpo, tudo acontecia num rufo (momento). Dando o povo conta, o passarinhar (andarilhar) dos amantes era vigiado por olhos curiosos, dizia o par amancebado e jamais esquecia o sucedido ainda que terminasse em casamento o romance. Galgas (mentiras) e nisgas (pedaços de nadas) de vaidade depressa alimentavam falatório e eram pretexto pra mandar pró catano (diabo) quem «argolava» comportamentos. _ Já bonda (chega)!, diziam. Também as malinas (doenças) de pessoas ou de videiras como a filoxera ou de pinheiros ou das batatas ou de outros produtos da terra que ajudavam à sobrevivência eram tema de conversa.

 

Das ovelhas, o leite para o requeijão e queijo serranos, o leite basto (leite coalhado com flor do cardo), os chibos (crias das ovelhas) eram pitéus, algumas vezes oferecidos a famílias, médicos e profissionais dos serviços que as gentes auxiliassem. Lambarices (guloseimas) para lambareiros (glutões) que àqueles presentes chamavam ‘um figo'.

 

Enxaugar era e é perversão de enxaguar, rastolho tanto podia significar variedade de pêra como assuada (confusão, barulheira). Com nanja (nunca) enfático, perguntas eram caladas.

 

Mais haveria pra apontar se a tal chegasse o saber. Mas não chega. Já bonda!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 12:04
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Domingo, 7 de Fevereiro de 2010

MÁRIO CRESPO/(DES)COURAÇADO POTEMKIN

 

Andrew Valko
 

Evitei o tema pelo enjoo e nojo que me consumia a objectividade. Breve referência consta no “Mistérios da Praça de Espanha” (4 de Fevereiro). Num comentário, o António, de novo, reflectiu e escreveu soberbamente. Mais não é acrescentado pelo autor que tudo diz com genial ironia «antoniana» (queirosiana, afirmo).

 

“Vamos então ao episódio do Mário Crespo, moderadamente: - com o tempo decorrido e declarações produzidas, digamos que a comoção já passou [e mesmo as virgens ofendidas que o afirmam grande profissional não deixaram caso; [ou seja, o episódio já passou e nem um rato pariu... - é evidente que a história, além de não comprovada (mas quem de boa fé esperaria tal de Mário Crespo?) está muito mal contada: - ao bife, Sócrates palitava ruidosamente os dentes; - e saíam-lhe perdigotos que mais pareciam mísseis contra esse potentado (um novo couraçado Potenkin, este Mário Crespo, também acham?) do jornalismo nacional; [que, além de escritor de excelentes crónicas da banha da cobra sem recurso a um único facto comprovado; [responde pelos entrevistados e termina entrevistas a dizer... o que acha! - vai daí, as "fontes fidedignas" falharam rotundamente a caracterização Primeiral [Sócrates, não o grego, mas o beirão, haveria de tirar um vernáculo que chegaria por certo ao Tribunal de Aveiro, ao Supremo e mesmo ao Constitucional; [aliás, menos que isso nem deveria ser aceite como output de um lauto almoço de amigalhaços da pandilha do Governo; - há também a coincidência de um livro no prelo com as belas crónicas que já toda a gente leu e releu e releu que infelizmente não param de circular pelo correio electrónico das correntes acríticas e dos reenvios acéfalos [ah... esquecia-me do Mário Crespo a tentar misturar-se com o JMFernandes, ex-director do Público, assunto que nada tem a ver a não ser também uma obsessão pela participação activa em iniciativas do PSD, [ou com a (Mário Crespo dixit: boa noite, eu também quero ser a) Manuela Moura Guedes, ex-deputada do CDS, que tem razões para mover guerras sem quartel e sem pudor contra José Sócrates e não se comove por não fazer nada que se pareça com jornalismo... bem, digamos que já dei qualquer coisinha para este peditório, mas compreende-se o desprezo a que tem sido votado o sujeito...”

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 09:29
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Olá Tudo bem?Faço votos JS
Vim aqui só pra comentar que o cara da imagem pare...
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