Lorie Merryman
Eram hortas, Senhor, eram hortas servidas por abrigo improvisado de alfaias modestas para agricultura de primícias e outra de sobrevivência. Em quase todas, o zelador instalara em solos desocupados pelo betão memórias do passado rural antes de ser transplantado para o trabalho escravo em Lisboa. Habitando perto e sendo ameno o tempo, três ou quatro dias por semana regava, subtraía ervas daninhas, um nico de adubo que não estragasse a pureza do que terra fértil produz. Na altura da colheita, diria orgulhoso: _ cultivado pelas minhas mãos e sem as porcarias do vendido nos superes. Ao sétimo dia, zelador e «esposa» retiravam da casita feita de chapa e madeiras velhas cadeiras bancas e descansavam.
No estio, dos assentos protegidos por guarda-sol enferrujado nas bordas viam o domingo dos outros. Zumbiam automóveis na via rápida a dois metros como se receassem que a praia ou o ‘passeio dos tristes’ fugissem. O casal era feliz gozando a beleza verdejante da horta que espantalho enfeitava mais que cumprir a função de proteger o que crescia empoeirado. Conversavam sobre a vida, sobre o deixado para trás: _ como estará a prima Justina? Será que o neto já nasceu? É verdade que a horta dela no Freixo é maior, mas olha que cuidada como a nossa não deve estar. Hoje, só nos faltam os netos. Gostam tanto de vir para aqui os meninos! Mas deixa lá que também merecemos estar sozinhos depois da semana a tomar conta deles. Chegada a hora de voltar a casa, eram arrumados os pertences, colhidas alfaces e tomates, feijão-verde e ameixas. Dariam para sopas e acompanhamentos.
Bill Fogé
Nem dois anos passados, o desemprego empurrou o filho, a nora e os petizes para o apartamento na Ajuda onde viviam os pais. Paredes com quarenta anos sem terem visto tinta que as alindasse, uma sala, uma casa de banho em que lavrava a ferrugem, dois quartos exíguos, cozinha para estrelar um ovo de cada vez. Lá se enfiaram como foi possível, misturaram os tarecos das duas famílias. A breve trecho, a coabitação forçada deu em discussões pelo tudo em falta, pelo nada de esperança. Ida a paz, vinda a míngua rezingona.
Os pais, temendo o pior na família do filho, pelos netos e por cansaço de fim de vida tão custoso, com lágrimas optaram por habitar a casa da horta. Uns arranjos - telhado mais sólido, duas janelas encontrados nos desperdícios de remodelações, alfaias a um canto, móveis no outro – e o espaço tornou-se habitável. Vizinhos da horta, aos poucos, pontapeados para o mesmo. Nem um ano mais, e, feito de tristeza, bairro de lata viria a nascer no lugar onde felicidade morara.
Nota: texto publicado em "Escrever é Triste"
CAFÉ DA MANHÃ
Bill Fogé
Céu que promete chuva e não dá. Que é azul para depois não ser. Que parece de Outono para se empinar em Verão. Encerradas portas de estabelecimentos, cadeiras e mesas das esplanadas ao monte no dentro vazio. Tardes puídas para quem trabalha e não. Bronzeados lustram corpos à deriva no bairro e na cidade. Aos poucos, fenece num Agosto brincalhão que atrapalha projectos de água e sol dos que na cidade fruem restos das semanas de lazer ditadas pela vontade e/ou pelo patrão. Rostos cabisbaixos já cruzam o caminho. Talvez pensem como pagar os manuais e outras precisões para o recomeço do ano escolar. Talvez deitem contas à vida e concluam que o subsídio de férias desapareceu sem aviso com a semana de Algarve, nas idas e vindas para a Costa, no frigorífico que avariou, nos caracóis e nas cervejas ao fim da tarde que compensassem férias em casa e passeios desconsolados quando a noite descia. E a verdade nacional e a tristeza acumulada e o emprego que periclita e o desemprego sem termo à vista não auguram melhores dias. Talvez Agosto termine risonho e Setembro continue o riso, vindo, embora, de cima para baixo e não ao contrário como os olhares murchos pedem.
CAFÉ DA MANHÃ
Adoçantes
Peregrinando
Brasileiros