Domingo, 28 de Agosto de 2011

GLÓRIAS D’ANTANHO

 

Pisando solos conhecidos, as lembranças que pareciam arrumadas em arca de sólido castanho cerrada por ferragens caprichosas respiram pelas fendas. Com tanta insistência o fazem que num sopro mais forte deslizam as aldrabas. Escancarada a arca, saltam novelos de recordações à mistura com fotografias e postais e cartas e bordados e rendas em linhos que foram alvos e ferrugem maculou. Todavia, basta químico adequado e uma barrela para voltarem ao branco primordial. Assim fosse com o tempo que dizem tudo sarar. Mas não. Bastas vezes corrói, deixa nódoas difíceis de remover, arruína o outrora belo sem que falado seja o corpo. No espírito, sim, acontece o voar do tempo trazer ao de cima imperfeições que refinou. Como nas pessoas, nas sociedades nas casas. Deixando aos anos laborar por sua conta e jeito, corcovam os telhados, neles as fendas pela zanga dos ventos.

                                             

 

Deixando aos anos laborar por sua conta e jeito, corcovam os telhados, neles as rachas pela zanga dos ventos, alastram limos nas paredes de granito que a moda duma época cobriu – regressando os emigrantes com alguns dinheiros ajuntados remodelavam ou construíam casas fatalmente pintadas; quem ficara, talvez não desejando restar atrás, sobre as paredes de rocha derramava baldes de tinta. Deu no que deu, o mesmo é dizer «maisons» por todo o lado indiferenciando doutros os lugares serranos. Descaracterizados da personalidade de outrora, empobreceram. Não foram os picos da Estrela encimando o vale a demarcar geografia de encher o olho, os pobres sem meios para mudar o herdado, a pronúncia e o léxico local, julgar-se-ia Beira outra. Hoje, passado o negro período migratório e miserável pelas condições de vida amanhadas na «estranja», estão de volta os granitos exibidos com raça e graça. Deo Gratias!

 

 

 

Para quem na arquitectura procura estórias muitas perspectivas há de as ler. Janelas e janelos por exemplo. Quando debruadas as primeiras por pedra com recortes notificam dos haveres e gosto do dono pela obra a crescer. Da época de construção. Os janelos tinham serventia na iluminação natural de corredores ou esconsos sombrios afastados das visitas que aos espaços ‘de receber’ arribassem.

 

Fachadas, pouco antes, pouco depois de 1900 não costumam enganar. Esquadrias simples apenas com detalhe diferenciador. Dentro, portadas de madeira que da noite aliviassem temores e do sol o calor, as cores dos móveis e objectos.

 

 

Na Beira Alta, casa sem ‘loja’ não o era. Sem forro interior, rocha por aparar à vista, era cómodo para lenha, lagar, garrafeira, carpintaria, para tablados onde as batatas recolhidas de chão fértil esperavam mãos hábeis que na panela ou no forno delas fizessem pitéus. Ainda lusco-fusco, o trabalhador agrícola, almoçava: tigela de sopa, batatas com farinheira ou morcela ou ovo ou o que da «ceia» - jantar para os urbanos - tivesse sobrado. Sendo o labor nos lanifícios, o mesmo. Uns e outros precisavam de amanhecer com sustento para aguentarem costas curvadas pelo peso da enxada ou a jorna de pé frente a tear sem parança.

 

 

 

Ruínas há muitas por esse país fora. No concelho de Gouveia, talvez menos que o habitual. Recuperadas na maioria, restam algumas que apetece espreitar para mais tarde sonhar. É tentadora a fantasia, projecto quiçá, dos granitos destelhados fazer habitação que lustre a paisagem e o ambiente rural, segunda moradia para quem habita nas cidades grandes entupidas por tráfego que ao dia rouba horas de descanso ou primeira se o tentado se pode arrogar privilégio tamanho. Porque o é, diz quem a mudança experimentou e renasceu para a simplicidade original.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:31
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