Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014

GAIOLA DE VIDRO (II)

 

      

Pablo Picasso                                               Pablo Picasso - Girl Before a Mirror                               Pablo Picasso

 

Ela entrava, eles também. Vez primeira, aberto o portão e somente o nome como abracadabra do condomínio via porteiro sisudo. A proprietária da fração devia ter, previamente, informado senhor cujos lábios esqueciam sorrisos de quem esperava. Ela com saco na mão, eles ajoujados sob rolos compridos. Ao atravessarem os jardins, o mais carregado perguntou se ela autorizava que retirasse do interior dos cilindros envoltos em plásticos o tubo que os mantinha hirtos. _ Que não sabia, que inquirissem sobre a possibilidade a destinatária. _ Sabe, há maiores e assim temos de ir pelas escadas até lá cima. E olhe que são muitos andares! Duvido que estre entre no elevador. _ Logo vemos, respondeu. Mas couberam para alívio dela e dos homens fardados.

 

No apartamento, porta aberta, duas mulheres esperavam no hall. A dona, uma, a arquiteta decoradora, outra. De novo, a pergunta. Quem respondeu que ‘sim, que os tapetes não ficariam vincados’ foi a mulher loira enfiada em cetim verde, elegante, bronzeada, pendurada em saltos agulha, mais parecendo dona do espaço que contratada para dele fazer obra de arte. Arriba a sócia, versão ‘vou-me daqui para caçar num monte alentejano’, com capote e botas e calças coerentes com o visual escolhido. Tal como a parceira, dama fina, boca muito aberta ao falar, vogais enfatizadas a denunciarem cópia de Cascais ou da Lapa ou doutros lugares que os há muitos.

 

Após as apresentações, as bochechas das especialistas (?) encostadas, como se fora beijo, às da mulher do saco na mão. Esta, rindo por dentro, tirou o fato de passarinho que modista havia alindado. E a dona gostou, achou-o ‘amoroso’. A de cetim condescendeu a um ‘tá demais!’. E os tapetes enrolados continuavam a entrar. E no salão, homem fardado ‘à maneira’, ferramentas sobrando dos vários bolsos, pendurava quadros nas marcas ditadas pela de cetim. E a mulher, já sem saco na mão, a tudo assistia boquiaberta. Para si resmoneava:

_ Onde estais protetor dos aflitos que gaiolas de vidro esconjuram?

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:36
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