Terça-feira, 25 de Junho de 2013

CONTO SEM ACRESCENTO DE PONTOS

 

Gigi Liverant

 

Reunião tardia. Noite descida sobre Lisboa. Eixo Norte/Sul desentupido. À ida. Pela vinda, empanturrado no acesso de Campolide.

 

Pontual, fruiu das velas e do chá quente e dos bolinhos miúdos que aqueciam o ambiente austero. Não lhe sentiu o peso no breu urbano por conhecê-lo leve durante o dia.

 

Ela sentava-se num dos sofás forrados com pele castanha. Sorriso fácil, presença afável. Por tudo, linda. Mãe competente de trindade juvenil. Profissional exemplar. Discreta, levantou-se. Sussurrou a razão:
_ Pela tua simpatia, pelo apoio quando precisei. É símbolo, não valor. Sei que o lerás tal qual pretende ser.

 

Abraço forte, emoção surpresa. Afeto na ponte infinita do amplexo. Dourado o embrulho pequeno. Passado de mão para mão. Deixou-o por abrir – não havia tempo nem sentido no interromper do decisivo. Guardou-o na pasta/apêndice, entalado entre o computador mínimo, dossiês e «micas» empapeladas. Gesto selado pelas faces que os lábios afloraram. Anos partilhados no mesmo local de trabalho. De novo, o muito perto feito essência. Rara. Fragrante.

 

Quando largou os pesos dependurados no ombro e nos braços, repetiu das chegadas os hábitos. Procurou o presente entretanto amarfanhado. Cautelosa, suprimiu os dourados. A caneta surgiu como potro de raça capaz de, num ápice, galgar o traço ou a palavra até campinas sem fim. Juntou-a aos bens raros que guarda, dá serventia, não se diluam numa gaveta e sem préstimo aromas de momentos felizes. 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:20
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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

DO CASARIO, A PATINA

Manuela Pinheiro - Casario

 

Texto esquecido

 

Para quem vem das Amoreiras e mergulha no bairro esquecido, cheiro a frango assado antecipa Campolide. De arquitetura pobre, comum em Portugal, a classe média que o recheava envelheceu e regrediu no pré mensal. Tempo recente, mudou, devagar, o retrato das gentes – é chique habitar nos clássicos bairros pobres da cidade. Tetos e janelas altas, escadas de madeira e corrimões atraem quem, de bom gosto, procura diferença d’antanho e pode de apartamento gasto fazer arte.

 

Com a patina do tempo – visão romântica da pintura descascada que a acidez da chuva sulcou de negro – o bairro laborioso tornou-se lar de terceira idade; apoio domiciliário substituído pelo comércio de vão de escada. O Sr. Zé, que vende frutas, legumes e básicos de sobrevivência, dá o alarme se contabiliza baixas nas visitas diárias. O mesmo com a Cidália que limpa as escadas de para cima de meia dúzia de prédios, ou a Dona Joaquina que, atrás do balcão, bem conhece os fregueses da leitaria herdada do defunto – “Mais valia tê-la vendido quando o «chinoca» quis comprar, mas que quer?, ensimesmou que gente daquela nem vê-la e olhe no que deu! Enfiou-me neste prisão. O enterro, que Deus o tenha, meio ano depois. De nada valeu a esquisitice porque o chinês abriu loja duas portas a seguir.”

 

Deslustra o bairro não ter marcha que arrebate troféu na dengosa Avenida em noite de Santo António. Merece olhar de esguelha pelo acesso direto ao humilde bairro da Liberdade prás bandas da Serafina. Falta-lhe o sortilégio do vizinho Campo de Ourique, cujo comércio a nata social (re)descobriu, ou o elitismo da Lapa. Não é uma das setes colinas engendradas pelo frade Nicolau de Oliveira à imitação de Roma - São Vicente, Santo André, Castelo, Santana, quinta S. Roque, Chagas e a sétima, a colina de Santa Catarina do Monte Sinai desdobrada em socalcos para o rio.

 

Bastando o bastante, em Campolide e desde o meio das manhãs, cheiro a frango assado anula «perfumes-de-sair» das poucas senhoras de sobrancelhas de lápis destacadas no pó-de-arroz.

 

Amoreiras e Campolide ainda extremam segmento de idiossincrasias duma cidade impiedosa no arrumo das classes sociais.

 

Nota: há instantes, publicado aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:17
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Sábado, 26 de Maio de 2012

(DES)ARRUMOS SOCIAIS

Autor que não foi possível identificar

 

Para quem vem das Amoreiras e mergulha na cidade esquecida, o cheiro a frango assado antecipa Campolide. De arquitectura pobre, comum em Portugal, a classe média que a recheava envelheceu e passou a envergonhada pelas reformas pequenas. Com a patina do tempo – visão romântica da pintura descascada que a acidez da chuva sulcou de negro – o bairro laborioso tornou-se lar de terceira idade, o apoio domiciliário substituído pelo comércio de vão de escada. O Sr. Zé, que vende frutas, legumes e básicos de sobrevivência, dá alarme se há baixas na contagem das visitas diárias. O mesmo com a Cidália que limpa as escadas de para cima de meia dúzia de prédios, ou a D. Joaquina que, atrás do balcão, bem conhece os fregueses da leitaria herdada do defunto – “Mais valia tê-la vendido quando o «chinoca» quis comprar, mas que quer?, ensimesmou que gente daquela nem vê-la e olhe no que deu!, enfiou-me neste prisão; foi-se, que Deus o tenha, meio ano depois de nada valendo a esquisitice porque o chinês abriu uma loja duas portas a seguir.”

 

Deslustra o bairro não ter marcha que arrebate troféu na dengosa Avenida na noite de Santo António. Merece olhar de esguelha pelo acesso directo ao humilde bairro da Liberdade prás bandas da Serafina. Falta-lhe o sortilégio do vizinho Campo de Ourique, cujo comércio a nata social (re)descobriu, ou do elitismo da Lapa. Não é uma das setes colinas engendradas pelo frade Nicolau de Oliveira à imitação de Roma - São Vicente, Santo André, Castelo, Santana, quinta S. Roque, Chagas e a sétima, a colina de Santa Catarina do Monte Sinai desdobrada em socalcos para o rio. Já bastando o bastante, viria o cheiro a frango assado desde o meio das manhãs anular os perfumes-de-sair das poucas senhoras de sobrancelhas de lápis destacadas no pó-de-arroz.

 

Amoreiras e Campolide extremam segmento de idiossincrasias duma cidade impiedosa no arrumo das classes sociais.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 11:16
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