Domingo, 28 de Setembro de 2014

NUMA RUA, A LISBOA MARQUESA

 

Quem a sobe, reconhece-lhe nobreza. Descaraterizada aqui e além, muitos aqui para rua que poderia ser duquesa. Tem história, raça e beleza. Gradeamentos impressivos, jardins desenhados no início do século passado, o rosa português conferem majestade à rua do meio para cima, porque é ascendente o percurso se dela o melhor for procurado.

 

 

A arquitetura arredonda varandas e conserva persianas de madeira, exibe florões talhados em calcário, troncos grossos de buganvílias por este tempo podadas. Em Abril, auge em Maio, florescem cachos carmim e rubros; ferros enrolados, outros lisos, do jardim fundo apenas revelam partes. Daí a curiosidade, a paragem, olho surpreso e crítico, o captar registos.

 

 

Linhas retas suavizadas por curvas, tons pastel na pintura do edificado, cruzar de ruas perpendiculares entre elas. Apartamentos sem garagem, quase todos, ditos andares em idos mui recuados. Por isso e pelos prédios que alojam serviços, automóveis fazem bordado metálico na rua, sujeitos a parquímetros tão zelosos como os zeladores que bloqueiam rodas. Salvam-se da vigilância apertada moradores que se descabelam para estacionar perto da casa. Viver no coração da cidade em edifício bem datado, pé-direito invejável, divisões muitas, tem frequentes contrariedades – malas e malotes, sacos do supermercado arrostados da rua, faça sol ou chuva, até recato caseiro.

 

 

Como alívio de tanta lata, retorno ao jardim afundado. Quando as rosas de espécies raras florirem, outro será o encanto. Por ora, a beleza dos verdes e das flores resistentes aos ventos, à invernia, à frialdade. Coram espaço pontificado por árvores despidas ou despertando em rebentos prometedores, ainda vestigiais.

 

 

Portas. Ferro trabalhado, metais outros em desenhos de época. Delas entram e saem moradores de todas as idades - os mais velhos por opção antiga, os mais novos por herança ou compra dispendiosa. Funcionárias domésticas, distintas pela farda ou bata, acorrem ao quiosque e compram publicações variadas para leitura refastelada dos patrões. Arrastam carrinhos ou carregam seiras donde espreitam alhos franceses, grelos, rama de nabos. Passeiam cães. Levam meninos fardados aos colégios ou às carrinhas que esperam, entupindo circulação viária.

 

 

Porta e janela encantadas. Arrojadas ao tempo da concretização, estilizadas, hoje. Vidro e branco. Pintura sem lascas. Preservada. A imaginação realiza filme onde jovens mulheres com pele de marfim, romanticamente enchapeladas, flores de tule, vestidos de organza ou de cetim, esperadas por dândis com bigode afilado, fato esticadinho e chapéu. Depois, talvez passeio na Avenida, talvez São Carlos, talvez teatro, talvez chá em casa amiga ou pública.

 

 

Recanto sombrio, fresco no Verão, espera gentes assentadas, cervejas, jogos de bisca, póquer, xadrez ou damas. Final de Inverno e vazio que apetece à fotógrafa de ocasião. Por ali fica, inventando cenários, enquanto olha gelosias fechadas.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:30
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Domingo, 4 de Novembro de 2012

SANTA ENGRÁCIA

 

 

 

 

Notícia: reabriram os comentários no SPNI.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:42
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Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

JÁ FOI VADIO, CASTIÇO

Pablo Picasso, autor que não foi possível identificar

 

Lamento musicado. Questões da alma na voz e nas cordas das guitarras. Já teve xaile aos ombros e flor no cabelo da cantadeira. Já foi vadio, castiço, fado canção, banda sonora de filmes nossos e de fora. No José & Pilar, pré-seleccionado para Melhor Filme Estrangeiro, é a voz do Camané no fado “Já Não Estar”, também pré-seleccionado para atribuição do Óscar à Melhor Canção Original, que empresta fundo a isto de ter nascido português.

 

Porque do fado o que sei não vai além do gosto/não gosto e sendo gosto acompanha-me em leituras e afazeres, recomendo o que nesta ligação foi escrito. Aprendi e se alargar conhecimentos me agrada!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Interpretações diferentes do mesmo. As vozes são decisivas na perturbação que com cada uma delas experimento.

 

 

publicado por Maria Brojo às 07:39
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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

“LEVA-ME AOS FADOS”

Gustavo Fernandes, Manuela Pinheiro

 

“A decisão da UNESCO foi favorável à candidatura portuguesa e o Fado passou, a partir de ontem, a ser considerado Património Imaterial da Humanidade.” Sinto-me alegre como badalo de igreja ao exultar, oscilando, boas novas.

 

(Url)

  

"Chegaste a horas
Como é costume
Bebe um café
Que eu desabafo o meu queixume
Na minha vida
Nada dá certo
Mais um amor
Que de findar me está tão perto

Leva-me aos fados
Onde eu sossego
As desventuras do amor a que me entrego
Leva-me aos fados
Que eu vou perder-me
Nas velhas quadras
Que parecem conhecer-me

Dá-me um conselho
Que o teu bom senso
É o aconchego de que há tempos não dispenso
Caí de novo, mas quero erguer-me
Olhar-me ao espelho e tentar reconhecer-me."

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 00:05
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Domingo, 6 de Fevereiro de 2011

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA

Colecção "Inverno 2010-2011"

 

Depende por onde é feita a entrada. Escolhida a menos frequentada, espanta árvore com folhagem castanha, diria morta, resistente ao cair dos troncos e galhos onde se dependura. À sombra dela, vindo o estio, talvez a secura da raiz não seja facto, rebentos tenham desabrochado em folhas largas e espessas protegendo de sóis excessivos o banco, por ora, vazio. Ao lado corre água que mais parece parada. Cobre sustento em calçada portuguesa que o designer esgalhou no projecto e artífices escrupulosos concretizaram. Calceteiros é nome pouco para arte tal que papiros bordejam. 

 

 

No entrementes, a moda de madeira «encasquelhada» reveste solo donde brotam cíclames rubros e semiesferas picadas de verdes não identificados. Lindos à vista, obrigam a demora no olhar. São muitos, não demais – a vida nunca é excessiva seja qual for o aspecto tomado.

 

 

A capela, igreja no tempo recuado em que era sítio fora de portas o lugar hoje incluído em Lisboa cerca?, desenha no horizonte reminiscências rurais. Dela consta a torre sineira esvaziada sabe a história o porquê. Em frente, largo modesto. Conhecedores da obscuridade da noite onde candeeiros públicos escasseiam, aproveitam-no para acoitar satisfação de urgências lúbricas. O desejo ordena e o Senhor que ali morou. mora?, é tolerante. Assim seja. Ámen. 

 

 

Existe esconso natural na topografia do terreno. Bem aproveitado por exotismos verdejantes ordenados em desenho num qualquer ateliê paisagista. Neste, seixos rolados cobrem a terra alinhados em tiras de extremos: o preto e o branco são da luz nada e tudo ou contrário segundo a perspectiva da reflexão e absorção total da luz.

 

 

A casa amarela impõe-se com discrição. Primeiro, um esconso óbvio. Passos depois, outro, mas intrigante. Avançando, é parte do todo que configura a fachada importante. Engano. Avance a curiosidade e outras surgem. Belo o conjunto por muito e pelo tradicional português, provocador pelo ocre vibrante ao qual atrevi designação de amarelo. Sem ser. 

 

 

Este é o lado das memórias principais. Entardeceres de Verão, noites de Outono quente levaram-me à descoberta da casa amarela sob lusco-fusco que partes dela esfuma. Somente no dia meado deste Inverno lhe descobri o exterior tal qual - telhas perfeitas na conjugação dos tons do barro cozido a temperaturas diferentes, as caleiras, o ferro das grades, as pontas de lança que as terminam.

 

 

Ainda Janeiro, e rebentos espreitam o sol. Prometem retomar a imponência das árvores e arbustos frondosos que lembro. Os aromas. As flores além do lilás, além da fantasia, além do desejo para beber e esgotar suco num instante da vida.

 

CAFÉ DA MANHÃ

  

 

publicado por Maria Brojo às 10:13
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