Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

DO CASARIO, A PATINA

Manuela Pinheiro - Casario

 

Texto esquecido

 

Para quem vem das Amoreiras e mergulha no bairro esquecido, cheiro a frango assado antecipa Campolide. De arquitetura pobre, comum em Portugal, a classe média que o recheava envelheceu e regrediu no pré mensal. Tempo recente, mudou, devagar, o retrato das gentes – é chique habitar nos clássicos bairros pobres da cidade. Tetos e janelas altas, escadas de madeira e corrimões atraem quem, de bom gosto, procura diferença d’antanho e pode de apartamento gasto fazer arte.

 

Com a patina do tempo – visão romântica da pintura descascada que a acidez da chuva sulcou de negro – o bairro laborioso tornou-se lar de terceira idade; apoio domiciliário substituído pelo comércio de vão de escada. O Sr. Zé, que vende frutas, legumes e básicos de sobrevivência, dá o alarme se contabiliza baixas nas visitas diárias. O mesmo com a Cidália que limpa as escadas de para cima de meia dúzia de prédios, ou a Dona Joaquina que, atrás do balcão, bem conhece os fregueses da leitaria herdada do defunto – “Mais valia tê-la vendido quando o «chinoca» quis comprar, mas que quer?, ensimesmou que gente daquela nem vê-la e olhe no que deu! Enfiou-me neste prisão. O enterro, que Deus o tenha, meio ano depois. De nada valeu a esquisitice porque o chinês abriu loja duas portas a seguir.”

 

Deslustra o bairro não ter marcha que arrebate troféu na dengosa Avenida em noite de Santo António. Merece olhar de esguelha pelo acesso direto ao humilde bairro da Liberdade prás bandas da Serafina. Falta-lhe o sortilégio do vizinho Campo de Ourique, cujo comércio a nata social (re)descobriu, ou o elitismo da Lapa. Não é uma das setes colinas engendradas pelo frade Nicolau de Oliveira à imitação de Roma - São Vicente, Santo André, Castelo, Santana, quinta S. Roque, Chagas e a sétima, a colina de Santa Catarina do Monte Sinai desdobrada em socalcos para o rio.

 

Bastando o bastante, em Campolide e desde o meio das manhãs, cheiro a frango assado anula «perfumes-de-sair» das poucas senhoras de sobrancelhas de lápis destacadas no pó-de-arroz.

 

Amoreiras e Campolide ainda extremam segmento de idiossincrasias duma cidade impiedosa no arrumo das classes sociais.

 

Nota: há instantes, publicado aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:17
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Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

‘CAFÉ DAS VELHAS’

Alberto Vargas, Karen Chase

 

À mulher recostada no sofá, fosse pela tepidez da noite que entrava porta-janela adentro, fosse pelo filme menor, uniram-se as pálpebras dormentes, pendeu-lhe a cabeça. Dali para o conforto da cama, passos curtos. Acordaria repousada, sorriria à manhã de sol descoberta por cada centímetro de estore subido. Ligou a rádio com automatismo no gesto, espreitou o verde luminoso nos plátanos jovens da rua e, enquanto o ‘café das velhas’ fazia, ouviu:

 

- redução histórica da despesa nacional – em comparação com período homólogo do ano passado caiu 3.7%, com pessoal diminuiu 8%; a receita fiscal aumentou 15%, a maior subida desde há uma década, o défice do Estado diminui 60%.

 

- António Costa, por dois anos, desde há uma semana que despacha a partir da nova casa da Câmara de Lisboa sita no Intendente. Ainda a cheirar a tinta, minimalista no espaço e recheio, o Presidente da cidade (uma de muitas) dos genes mouros pretende que a área cuja fama duvidosa inspira temores adquira face confiante, que gentes voltem a habitá-la, que Alfama, Mouraria e Castelo sejam requalificadas com respeito pela ambiência histórica.

 

- em vez inaugural, três equipas portuguesas estão nas meias-finais da Liga Europa. Final com uma, garantida; entre duas, possibilidade.

 

Propensa à felicidade das coisas pequenas, sorriu com os lábios e o olhar. Enviou p’ras malvas receios que suscitam o alojamento do FMI durante dez anos em Portugal.

 

Bebericando o leite frio de sempre, sem despegar pupilas das folhagens envasadas e substituem, mal, o jardim beirão, declarou-se oficiosa e oficialmente feliz. Encadeou o sentimento com o pensar: _ E se a catástrofe das contas nacionais tivesse explodido no Inverno dos dias cinza e pingões?  Muito pior seria pela macambúzia meteorologia. Assim, alguns portugueses despediram-se do ‘menos mal’ até agora vivido, esgotando destinos para férias mini além das fronteiras. Ao regressarem, que nos aeroportos surja, especado, o pior – a pele dourada, os recuerdos, a alma cheia de bem-bom são muralha defensiva. Tristeza somente quando as memórias se desvanecerem, remetidas a registos com muitos pixéis.

 

CAFÉ DA MANHà

 

 

publicado por Maria Brojo às 10:20
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