Segunda-feira, 30 de Junho de 2014

OS HOMENS QUE GOSTAMOS

  

Mariana Kalacheva

 

São diferentes pela terna corrente de aço que os prendem a nós. Melhores e piores que os outros nos defeitos e virtudes _ neles exacerbamos expoentes de imperfeita perfeição. A que interessa. A outra, a «compostinha» e erudita que não desafina num semitom, é tédio insuportável.
 
Passa um ano ou passam anos. Telefonemas ocasionais.
_ Está bem? Queres contar de ti?
_ Começas tu ou eu?
 Qual enguia, desliza o tempo. Ele e ela experimentam a falta do «estarem». Noção que o quotidiano cheio havia erodido. Até um dia. Até a ausência adquirir o estatuto insano de prioridade em desalinho. Como o cabelo no acordar.
 
Antes do reencontro, o arrepio desce do cérebro até às pontas do corpo. A cumplicidade do olhar, da fala com lábios em frente estará intacta? Está. Estão. Ou não. Sabem no primeiro segundo. Depois é a escalada rumo a picos novos. Outros.
 
Já defendi, com veemência, a possibilidade de amizade sem pele entre um homem e mulher. O mesmo é dizer asséptica. Limpa de carne e sentimentos menores. Como o ciúme. Maiores, como a sedução e o desejo. No presente, medito nas certezas de outrora. Nada sei. Mas sinto. Amigo homem traz, implícito, registo diferente do estabelecido entre duas mulheres. Ambos aprazíveis. Porém, condimentados com especiarias desiguais. Pimenta e alecrim. Caril e salsa. Cravinho e noz moscada.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 14:18
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Sábado, 30 de Junho de 2012

ALDRABAS D'AMANTES

Mariana Kalacheva, Sean Milne

 

Das aldrabas do baú que encerram amores e amantes as mais das vezes preferimos mantê-las cerradas. Quando, sem apelo nem agravo, memórias irrompem, apetecem torniquetes para que delas nada escorra – fluidos, carícias, junção de peles e corpos e ilusões e risos doutrora.

 

A magia de momentos, pela distância temporal revelados enganosos, com asas invisíveis sobe em voo do baú fechado não carecendo de chave que o abra. E assim deve ser. Libertar o encerrado em gaiola de frechas curtas. Dar corda ao certo e aos erros em idos. Que voem, à solta. Que pelas conclusões analíticas desviemos o caminho, sendo adequado, ou voltemos a passadas direitas com o horizonte previsto, quiçá destinado.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 13:13
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