Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

CINEMA IDEAL – NOVO CINEMA NO CORAÇÃO DE LISBOA

 

 

Foi com o filme “Cinema Paraíso”, do italiano Giuseppe Tornatore, que a paixão pelos velhos cinemas se transformou em símbolo decadente das transformações por que tem passado o cinema e o seu consumo. Que o filme não passasse de um melodrama banal, muito distante das glórias do género, eis um pormenor que não exclui o reconhecimento de que Tornatore sabia tocar uma nota sensível da atualidade audiovisual: a degradação, ou mesmo a perda, dos lugares tradicionais de acesso aos filmes, à sua sedução e aos seus mundos imaginários.

 

Seguindo o mesmo raciocínio, em 2005, a jornalista Ana Cavaco escreveu: “Ao longo dos anos, muitas salas de cinema desapareceram da superfície de Lisboa quase sem deixar rasto. De algumas, ficaram as fachadas; de outras, apenas a memória de que, um dia, um projetor iluminou um ecrã numa sala escura. É desses tempos que vamos falar. Tempos em que ir ao cinema representava um acontecimento social; em que ver um filme era mais que estar sentado, quieto, em silêncio. Ir ao cinema já não é o que era. Os trajes especiais usados para assistir às estreias ou sessões em grandes salas foram substituídas pelas roupas confortáveis da modernidade, os leques, as plumas e outros adereços deram lugar a bebidas gaseificadas e a pipocas barulhentas. Uma simbólica máquina do tempo serve de guia numa viagem à época em que ir ao cinema era uma ocasião mais que especial.”

 

O Cinema Ideal era um cinema popular, frequentado por pessoas modestas do bairro, por ardinas, marinheiros, e foi um marco na exibição de cinema em salões populares. Quando o Cinema Ideal abriu, a prática da arte cinematográfica era ainda recente. As experiências de cinematógrafo dos irmãos Lumière aconteceram em Paris em 1895. O Ideal esteve na vanguarda e foi lá que surgiu, iniciada por Júlio Costa [pioneiro do cinema português], a primeira companhia dramática que dava voz aos filmes mudos”, escreveu a investigadora Maria do Carmo Piçarra.

 

O Cinema Ideal, em Lisboa, reabre hoje, e as primeiras sessões diárias do Cinema Ideal vão ser repartidas entre a estreia do premiado documentário “E Agora? Lembra-me”, de Joaquim Pinto, e a nova versão digital de “A Desaparecida”, de John Ford (1956), clássico do cinema norte-americano, com John Wayne, Jeffrey Hunter e Natalie Wood, eleito um dos dez melhores filmes de sempre pela revista “Sight and Sound”, do British Film Institute e que João Bénard da Costa designou como «o mais belo dos Ford». “A Desaparecida” ocupa as sessões das 13h30 e 19h00. “E Agora? Lembra-me” é apresentado às 15h45 e 21h15.

 

A recuperação da sala de cinema mais antiga da capital (foi inaugurada em 1904, três anos antes do Animatógrafo), que já foi Salão Loreto, Salão Ideal, depois Cinema Ideal, Piolho do Loreto, Cine Camões e Cine Paraíso, está localizado na Rua do Loreto, entre a Baixa/Chiado e o Bairro Alto e a Bica, foi anunciada em dezembro de 2013. As instalações foram reconstruídas e renovadas, ao longo dos últimos meses sob o projeto do arquiteto José Neves (Prémio Valmor 2011 e Prémio Secil de Arquitetura 2012). Com uma capacidade de cerca de 200 lugares, uma cafetaria e uma livraria, vai estar aberto cerca de 14 horas por dia, e ao fim de semana terá sessões para famílias.

 

A programação do Cinema Ideal será feita por uma associação cultural, que reunirá mais de uma dezena de figuras da área do cinema, entre produtores, realizadores e atores, como a atriz Rita Blanco. Para o primeiro mês desta sala lisboeta, está prevista a estreia, a 11 de setembro - mês em que o Cinema Ideal cumpre 110 anos -, do filme «Os Maias», de João Botelho, na versão longa de realizador que, segundo o responsável da Midas Filmes, Pedro Borges, será um exclusivo do Cinema Ideal. Numa parceria com a Cinemateca, herdeira dos filmes de Paulo Rocha (1935-2012), o novo espaço cultural irá também exibir a última longa-metragem deixada pelo realizador, intitulada "Se eu fosse Ladrão, roubava". Ainda no âmbito desse trabalho com a Cinemateca, serão igualmente exibidas cópias restauradas de dois filmes de Paulo Rocha dos anos 1960 - "Os Verdes Anos" e "Mudar de Vida" - obras fundadoras do chamado Novo Cinema Português, a par de produções de outros cineastas, como Fernando Lopes, António da Cunha Telles ou José Fonseca e Costa.

 

A última grande remodelação teve lugar nos anos 50, mas conserva o charme de um cinema de bairro, com o seu foyer, balcão e plateia. Acima de tudo, é o único cinema sobrevivente no centro da cidade de Lisboa. O preço dos bilhetes vai oscilar entre os cinco euros (às quintas-feiras, "Dia Ideal", e nas primeiras sessões, até às 13:00) e os sete euros (sessões da noite). Para as sessões da tarde (até às 18:30), para sessões especiais, a indicar pela Midas Filmes, e para detentores dos cartões jovem e de estudante, o preço é de seis euros.

 

É hora de festejar a devolução à cidade, ao bairro, ao cinema português e ao cinema independente duma sala histórica na divulgação do cinema.  

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

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Sábado, 30 de Abril de 2011

NO ESCURINHO CÚMPLICE

Elizabeth Taylor por Baron Von Lind

 

Porque me serve a pele d'hoje, reposição.

 

Doces, subservientes, ingénuas ou malvadas, temperamentais, sedutoras. Lindas, todas. Musas de realizadores e costureiros cujo renome transtornava a cabeça das mulheres. Plissados? Preto e branco? Drapeados? Pérolas e laçadas? A Bouvier (Jackie Kennedy) usa? A Ingrid Bergman também? E repetiam, e zurziam as costureiras não sendo perfeitas as cópias dos figurinos. Entre alfinetes e alinhavos, desfiadas exigências como contas do rosário que sabiam de cor. No "mês de Maria", terço rezado diariamente. Porque sim e pelo sim, pelo não.

 

Era a época do celulóide _ os polímeros haviam nascido nos forties. Dos mitos nados em Hollywood, França e Itália. Deles, fora do tempo em que nascera, teria memórias complementadas pelos filmes que a Cinemateca passava. E a mulher viu, mais tarde, o que a mãe lhe contara. Do escândalo com a nudez da Bardot que admirava. Dos casamentos múltiplos da Taylor. Das paixões engendradas nos estúdios. Da Bacall, da Loren, da Katherine e da Audrey Hepburn. A Katherine, pelos anos trinta, chamada 'veneno de bilheteira' _ dos 15 filmes realizados nessa década, a maioria foi fracasso económico. Pelos quarenta, seria a eterna amante de Spencer Tracy. Depois princesa, Grace Kelly. E a miúda aprendeu. No ecrã, regrediu ao tempo em que não era. Aprendeu a ver e escolher cinema que bem a sentasse no ‘escurinho’ cúmplice. Por isso trauteia ainda, da Rita Lee, "No Escurinho do Cinema". 

 

A mulher, sem dar conta, tomou por seus gestos e tiques: como descalçar meias de liga, despir um vestido, atirar para o lado os sapatos mesmo se o desejo é mandador. Viria a recontar contos do cinema. Partilhar clássicos com os filhos. Gerações cinéfilas que persistem em filmes de autor. Se independente, esperam diferença/surpresa. Novos actores e actrizes descobertos no escuro da sala onde o ecrã foi e é protagonista. Como a mãe. Como a avó.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:06
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Quarta-feira, 21 de Abril de 2010

‘NO ESCURINHO DO CINEMA’

Elizabeth Taylor por Baron Von Lind

 

Doces, subservientes, ingénuas ou malvadas, temperamentais, sedutoras. Lindas, todas. Musas de realizadores e costureiros cujo renome transtornava a cabeça das mulheres. Plissados? Preto e branco? Drapeados? Pérolas e laçadas? A Bouvier (Jackie Kennedy) usa? A Ingrid Bergman também? E repetiam, e zurziam as costureiras não sendo perfeitas as cópias dos figurinos. Entre alfinetes e alinhavos, desfiadas exigências como contas do rosário que sabiam de cor. No "mês de Maria", terço rezado diariamente. Porque sim e pelo sim, pelo não.

 

Era a época do celulóide _ os polímeros haviam nascido nos fourthy’s. Dos mitos nados em Hollywood, França e Itália. Deles, fora do tempo em que nascera, teria memórias complementadas pelos filmes que a Cinemateca passava. E a mulher viu, mais tarde, o que a mãe lhe contara. Do escândalo com a nudez da Bardot que admirava. Dos casamentos múltiplos da Taylor. Das paixões engendradas nos estúdios. Da Bacall, da Loren, da Katharine e da Audrey Hepburn. A Katharine, pelos anos trinta, chamada 'veneno de bilheteira' _ dos 15 filmes realizados nessa década, a maioria foi fracasso económico. Pelos quarenta, seria a eterna amante de Spencer Tracy. Depois princesa, Grace Kelly. E a miúda aprendeu. No ecrã, regrediu ao tempo em que não era. Aprendeu a ver e escolher cinema que bem a sentasse no ‘escurinho’ cúmplice. Por isso trauteia ainda, da Rita Lee, "No Escurinho do Cinema". 

 

A mulher adquiriu, sem dar conta, gestos e tiques: como descalçar meias de liga, despir um vestido, atirar para o lado os sapatos mesmo se o desejo é mandador. Viria a recontar contos do cinema. Partilhar clássicos com os filhos. Gerações cinéfilas que persistem em filmes de autor. Se independente, esperam diferença/surpresa. Novos actores e actrizes descobertos no escuro da sala onde o ecrã foi e é protagonista. Como a mãe. Como a avó. 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 06:46
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