Segunda-feira, 2 de Março de 2015

DE ISLINGTON AO BULE DE OUTRORA

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 Mark Spain

 

 

Ao falar de uma cidade que julgo bem conhecer, anteponho pronome possessivo. A relação de posse - a «minha» Coimbra, Roma, Évora ou Nova Iorque - tão somente significa que amei do todo uma parte. O que nos lugares de afeto me prende é o meu modo de os ver: pessoal, subjetivo, por isso intransmissível. De igual modo, ao descrevê-los, perpassa o que deles sinto e pouco do que são.

 

 

 

A «minha» Londres começa para as bandas de Islington ao descer meia dúzia de degraus e apanhar o autocarro. De King’s Cross em diante, prefiro caminhada até Covent Garden que, se as horas bem tiver contado, encontro semifechado pelas nove e pouco da manhã. Por ali pauso na espera da azáfama renascida, olhando a chegada das caixeiras, as portas uma a uma abertas para infinitas saídas e entradas, os expositores que os ambulantes desembrulham e recheiam de quinquilharia ordenada. Um expresso depois, rumo a direito até à sala da National que o apetite escolha - o enleio na loja da galeria adio. O meio do dia encontra-me no cimo de Hyde Park ou descendo a Kensington para farta paragem em Knightsbridge. Petisco no Harrod’s, afastada a turba do almoço, e deixo Chelsea para a tarde. Aos domingos, preciso da paz de Notting Hill para o pequeno-almoço, de percorrer os cais-sul do Tamisa, deambular na Tate Modern que remato com as lambidelas do vento na travessia da Millenium Bridge.

 

 

 

Do «meu» Porto mais lembro o sol do que a chuva ou a morrinhada. Gosto, na Foz, do pequeno hotel de charme próximo da rotina da Agustina Bessa Luís e do bulício das lojas e das esplanadas soalheiras abrigadas por corta-ventos. E do Bule para almoçar. Nos dias de utilidade reconhecida pelo trabalho das gentes, está deserto. As madeiras sólidas, os angulados recantos para espera entretida com diálogo ou um copo, a sala sóbria, o avançado que estende além do jardim o olhar de quem come, os idos da água correndo pela parede de vidro são detalhes que degusto enquanto o palato agradece. A generosidade do pato lascado à mistura com o arroz que o refogado bronzeou, mais o serviço amavelmente eficaz e o gosto fiel da refeição nortenha, seduz-me. Na despedida bem-disposta pelo equilíbrio perfeito entre a qualidade e o emagrecimento da carteira, é renovado convite o sorriso iluminado pelo azul da chefe de sala - um metro e oitenta delgado encimado por cabelo louro e rosto lindo, mais provável numa passerelle do que em lugar de comer lembrando os hotéis turismo.

 

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 08:00
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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

SOBRE BALIDOS, TUGIDOS E MUGIRES

John Reynolds, Henry Philipe Loustau

 

Foi divulgado na Animal Behaviour, estudo da Universidade de Londres* onde consta que dos cabritos os balidos evoluem com o crescimento e socialização com os pares. Eram apenas julgados os humanos, morcegos e cetáceos, algumas aves, capazes de imitar sons. Engano redondo – as cabras fazem semelhante e, tal como as crias adquirem sotaque próprio. Também as vacas regionalizam o mugir.

 

Regionalismos humanos, conhecemos, mas de animais sem ‘razão’? Alguns dos nossos deputados dão crédito ao sabido e à novidade. Que rugem e mugem sabíamos. Mas pensemos esta frase do deputado Agostinho Lopes a Álvaro Santos Pereira após escaldante troca de palavras acusatórias:

_ “Não diga asneiras, porra!”

 

Os animais ditos irracionais maravilham-nos, humanos nem tanto no que à fonética concerne. Excepção feita, e é cinéfila, a fabulosa Audrey Hepburn no papel de florista de rua, Eliza Doolittle, inicialmente às portas de Covent Garden antes de Rex Harrison, professor Henry Higgins, a transformar numa My Fair Lady como exemplo social.

 

* http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1534231

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 12:04
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