Quarta-feira, 2 de Março de 2011

NÁUSEA E COMÉDIA DE ENGANOS

Hubert de Lartigue, autor que não foi possível identificar

 

Outra reunião a milhares de quilómetros. Havia menos de semana, regressara duma. Mais do mesmo, que as novidades diluí-as o tempo e a experiência. Cruzou as pernas sob a secretária estilizada. Estava cansada de viagens restritas ao «vou-ali-volto-já» do costume – aeroporto, hotel, aeroporto. Por isso, a mala de cabina não saía do quarto, entre a cómoda e a porta. A de agora marcada para depois do dia seguinte. Com tecnologia além do suficiente, qualquer vídeo-conferência, rosto a rosto nos momentos cruciais das negociações, seriam bastantes. Mas não. Hierarquia superior ao departamento que chefiava insistia em privilegiar contactos directos, supostamente ganhadores nas múltiplas vertentes. De início, surpreendera-a listagem precisa quanto a procedimentos, cedo aprendidos, e imagem – minúcia no reflexo social, saia e casaco ou vestido e casaco, saltos, calças nunca. Sedução, competência, disponibilidade, altivez afável eram itens.      

 

Sabia da cobiça suscitada nos olhares masculinos. Em tempos, ocorrera-lhe ter sido a figura elegante mais decisiva na contratação do que a excelência do curriculum. Assomando o pensamento e a realidade experimentada, libertava fúria. Bem paga, habituara-se às mordomias entre idas e vindas: classe executiva, automóvel às ordens, hotéis estrelados até perder de vista. De novo, abdicaria da presença no aniversário do Manuel - confiava nos avós e no companheiro/pai para a certeza da felicidade do filho. Ligaria, ouvi-lo-ia, à distância cuidaria dos detalhes impossíveis de cumprir antes da partida. O T5, compra recente num condomínio de luxo, a decoradora, a manutenção do estatuto económico obrigavam-na. Também o prestígio, a ilusão de por modo este a família, o Manuel em particular, acrescerem nas vidas momentos únicos e despreocupados que os comezinhos não desfrutavam. Desculpas?

 

O voo fora rápido. Feito no hotel o check-in, soube da meia hora de espera até subir ao quarto convenientemente arrumado e limpo - descuido que reportaria. Quis saber do Manuel. Conversar sem telemóvel. Enviar-lhe o vídeo retrospectivo dos catorze anos mediados desde o nascimento. Surpresa que a ocupara horas antes da viagem/trabalho. Concentrada, notou e esqueceu o demais até olhar insistente se interpor. Sabia de cor a rábula seguinte. Irada, manteve o sorriso e a postura. Cumpriu o «abc» duma resposta sedutora ao arrogante (rendido?) olhar masculino. Descruzou as pernas para outro cruzar aliciante. Viu chave, que não sua, deixada ao lado do computador. Simples: ele estava a pedi-las. Vigiou-o na entrada no elevador, convencido da irresistibilidade da sugestão. Ela desligou a máquina e levantou-se. Chave/oferta/assédio na mão depositou-a junto ao homem que no bar matava espera ou náusea ou nostalgia. Pelo olhar de revés, persuadiu-o. Perplexo, ergueu-se, entrou no elevador agitando o ‘abre-te Sésamo’ da gruta que não possuiria.

 

Nota: conto inspirado no vídeo a seguir.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:18
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