Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010

SANDES DE PEPINO

Douglas Hofmann, Jack Vettriano

 

Ler Eça e absorver a fusão entre romantismo e realismo. Apetitosamente mordaz nas personagens tipificadas, deliberadamente escolhidas para intocável retrato do país. Desfolhada a última página, tirar um café e estender visão íntima pelo que éramos e somos. Antes e agora, um sítio, este Portugal de ambições que a história enumera e soube, infelicidade nossa, desbaratar o havido. Começou o imbecil D. Fernando I e dele até agora, à custa da miséria do povo, só o narigudo Salazar comporia os cofres do Estado. Tenho para mim que poder nas mãos de bem apessoados reinantes (literal ou metaforicamente), exaurem as finanças públicas. Salazar tinha aquele ar de judeu das caricaturas que lendas e contos associam a avareza e a olho longo sobre o alheio. O nariz ajudava, a origem beirã complementava o modo como era e é lido nos feitos e defeitos.

 

Lá fora, Jane Austen, nascida, aproximadamente, três quartos de século mais cedo que Eça, não lhe ficou atrás. Através de ficções românticas, como era de bem para mulher filha da sua época, lidava com as palavras melhor do que com feitura de sandes de pepino. Intervinha cirurgicamente na sociedade que a envolvia – escrita cortante, subtilmente irónica. Sem piedade esventrava a desinteligência dos normativos públicos, tanto mais rígidos quando o estatuto económico subia ou era almejado trepar na rígida escada social. Desenhava homens perfeitos, mulheres frágeis e vítimas de tentação.

 

O texto despretensioso (Sexo? Sim, mas com orgasmo!) em que a Teresa C. aborda inquietação e dúvidas femininas sobre o constatado nos comportamentos de alguns homens sem que sobre eles teça vilanias, não foi genericamente entendido. Tomado como panfletário, súmula de queixas e mágoas de mulheres consignadas pelo estereótipo em uso. As argumentações dos comentadores provam-no. A razão última do ruído na comunicação escrita prende-se com a falta de talento em objectivar questões pela imitação rafeira de cronista que, querendo ou sem querer, a Teresa C. é.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:54
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Quinta-feira, 22 de Abril de 2010

FELICIDADE NA CAIXA DE ESMOLAS

Douglas Hofmann

 

Num interlúdio, apeteceu-lhe o nada. Pasmar. Pastar em deambulações frívolas. Na mesa em frente, um «coiso» gratuito com forma de jornal. Embora, ao lado, a converseta fosse animada, preferiu o silêncio. Desfolhou páginas de letras gordas no tablóide mini e rasca. Parou nos anúncios dos resolvo-tudo-desde-que-comprem-banha-da-cobra. Garantida sorte ao jogo, sorte a tudo, fidelidade absoluta entre ‘esposos’. Delirante a prosa, não fossem demais aqueles que lhes enchem a caixa das esmolas/ofertas _ soe recusa de aparar na mão vil papel do Banco de Portugal. Pagamento? Nunca! Afirmam-se generosos, voluntários ao serviço da felicidade alheia. No discurso mencionam, por acaso (descaro insuspeito!), dádiva inferior a sessenta euros fora da tabela _ média auferida, vinte a mais ou a menos, por cabeça cliente. E os profetas desencartados nas previsões futuras desbobinam predizeres.  

 

Ela há muito sabia dos moldes das negociatas fundadas na ânsia do ‘diga-me que a minha vida fará de mim majestade na fortuna, nos amores e negócios’. Pessoa amiga e boa iniciou-a. Começou por boleia. Acabou frente a mestres e santos de papel. Saiu infeliz pela inopinada queda num ‘sim’ que foi malquerer. Outras experiências vieram como acompanhante. Doutras soube pela voz atendida, emocionada, que lia as previsões ouvidas e, em simultâneo, escritas na agenda dedicada ao assunto. E ela tão descrente, tão dúbia, tão pusilânime, tão dividida entre a partilha e a negação, entre desfazer alegria nova e analisar criticamente o ditado pela linearidade lógica. Tentou desmoronar argumentos, discursos roídos por traças velhas. Apontar espertezas de ocasião, o ‘não senso’ aflitivamente básico dos profetas. Chumbou nas estratégias. Desistiu _ mais vale fé comprada por mil dinheiros do que poço lastrado com limos da desesperança.

 

Recorda como momento/surpresa a potencial regressão a vidas anteriores. A chuvada à ida e na vinda de Cascais. Após discurso iniciático, a hipnose começou. A pessoa amiga deitada no divã, ela observadora. Sentada na cadeira de acompanhante e habituada a relaxar cada músculo do corpo pelo treino em “body balance”. À medida do progresso da sessão decidiu aproveitar tempo: integrar o método. Por pouco, não resvalou no assento. Conheceu o insucesso hipnótico e a  paga escandalosa quando acordou de sono pacífico que não a fez vir de lugar nenhum. 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 06:52
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