Quinta-feira, 27 de Março de 2014

A PIRATA DA WILAYA

  

Edward Hopper – Two on the Aisle, 1927   EdwardHopper – New York Movie

 

Porque é Dia Mundial do Teatro, lembrei-me deste conto participante num concurso de textos aqui no SPNI*. Poderia ser levado à cena em palco digno. Como sairiam alegres os espectadores!

 

"Eu andava por aí, um pouco por toda a parte, quando aquilo aconteceu lá em Tamanghasset, no sul da Argélia, durante a missão de apoio a uma equipa de geólogos de uma empresa angolana com sede em Lisboa.

 

Naquelas paragens, a milhares de milhões de quilómetros de qualquer sítio conhecido, era raro passar alguém que não estivesse ou tivesse estado relacionado com o negócio; e o negócio tanto podia ser o gás como as gajas do Niger e do Mali ou outra candonga qualquer. Aquele em que eu estava envolvido era a prospeção de um afloramento de manganésio que um consórcio encabeçado pela DjazirMine mas controlado por franceses e angolanos, se preparava para explorar em condições de concessão pouco claras e que tinha transformado por completo o até então imutável bem-estar da gente seminómada que ali vivia feliz desde o princípio do mundo.

 

Em menos de um ano Tamenghest passou a ser TamenVille e os hotéis, lupanares, cinemas, lojas de vídeo, tabakifarias e tudo e mais alguma coisa, tinham invadido o lugar. As discotecas, cabarets e clubes noturnos também e embora de iniciativa berbere, alguns exibiam muita qualidade; foi num deles que tropecei nela, na Dama.
 

De ambiente denso e fingidamente dramático, como interessa nestes negócios de sedução, o Ksar-Adal era inesperadamente luxuoso e ao gosto europeu. As empregadas eram selecionadas segundo padrões bem estabelecidos - tinham que falar inglês e francês, que podia ser arrevesado ou com sotaques exóticos; tinham que ser altas, com mais de um metro e setenta; loiras, mesmo que fosse artificialmente e tinham que conhecer todas as danças de salão - tangos, paso-dobles, quick-step, etc.- capazes de fazer o encanto de qualquer escandinavo, grego ou nipónico, mesmo que fosse vesgo, engenheiro ou apenas vendedor de maquinaria para extracção do precioso mineral estratégico. O néon em dois verdes, por cima da entrada, era bem explícito

 

أخضر قصر
KSAR - ADAL DANCING
DELUXE

 

Deluxe! De facto, depois de atravessar um pequeno hall, iluminado com apliques déco, passava-se a um enorme salão de decoração muito cuidada, com cortinados de veludo, mesas redondas com pequenos candeeiros de abat-jour carmim, cadeiras de madeira maciça e uns sofás à volta, por baixo dos espelhos das paredes, a fazer recantos; ao fundo, sobre um plateau, a orquestra de dança e ao centro, a pista encerada.


Como ia a dizer, foi lá que tudo... tudo foi a minha morte emocional! A perdição do meu ser desportivo e arriscado. Até o beduíno das ideias ali ficou destroçado - tudo foi vê-la.

As meninas-dançarinas do Ksar-Adal andavam vestidas de verde e tinham nomes da mesma cor - a Mary Green, uma americana de grande chapéu de feltro e casaco de pele de cobra até aos pés, por cima do corpo nu ou quase; a Grün Fräulein, uma valquíria silenciosa, vestida de couro reluzente e apertado ao corpo, com a saia abaixo do joelho e botas de salto em agulha, altas mas a deixar entrever uma nesga da perna; a Paloma Verdecita, maquilhada pelo Almodovar lá do sítio, com a boca e unhas e olhos e sabe-se-lá-o-quê, tudo pintado em grenat e que dançava descalça; Mlle. Jeanne La-Verte, distinta, enigmática, com um bonito tailleur sem ombros mas com um accent a lembrar a Rue St. Denis; e outras, que embora muito atraentes e fascinantes se apagaram incaracterísticas quando a vi - a Dama-de-Verde!

 

O gesto nada teria significado se não fosse a intencionalidade do olhar simultaneamente gélido e incandescente com que me fitou quando, do alto da sua segurança profissional me chamou para a dança, de braço esticado na minha direção, com uns movimentozinhos rápidos do indicador a dizer "anda cá!". Era uma ordem; que me deixou inseguro e ao mesmo tempo intrigado. Devia ser tudo construção minha... é do kif! pensei; mas era embaraçoso não só porque, com o meu escasso metro e sessenta e pouco, era bastante mais curto que ela como porque nunca fui capaz de dançar aquelas coisas clássicas como toda a gente. Mas o que mais me afligiu foi o intenso fascínio em que me achei surpreendido e o pasmo por ela me ter chamado no preciso momento em que me imaginava a abraçá-la, perdido de gozo, no meio da pista, a dançar e a viver e a morrer de... whatever!

 

Em fundo, a música envolvente, tocada por um grupo que preenchia os intervalos da orquestra habitual, agora cantados por uma senhora em tudo semelhante às outras mas com um cabelo preto, lindíssimo, que lhe caía pelas costas abaixo. Talvez um privilégio por não ser dançarina; ou uma condição de contrato, por ser cantora

 

shee... wooore... bluueee veeelvet... oohh ohh
bluer than velvet were her eyes
warmer than May her tender thighs
la la laaa... la...

 

Foi uma pequena distração em que me diluí mas ela lá estava, impositiva, com um brilho no olhar, a dizer "Vamos!". Levantei-me e cambaleando mentalmente, segui a personagem de magia que me tinha saído no tarot daquela noite e de quem só conseguia perceber a imagem. Era uma mulher de idade imprecisa, esguia, com mãos muito compridas e que parecia absorver tudo aquilo em que punha, depunha, os olhos azuis, escuros dum tom como nunca vira. Denotava a segurança vinda da experiência de uma maturidade provavelmente arrancada a ferros mas que não deixara marcas visíveis, nem no corpo nem na cara; a não ser uma certa fixidez do olhar, momentânea, que notei por entre o zumbido mental que me obstruía.

 

A orquestra tinha regressado e agora, ali no meio da sala, a Dama-de-Verde tornara-se leve e a frescura que saía do seu corpo fez-me sentir quase tranquilo. Com a cara encostada ao peito dela lá ia escapando ao olhar de céu-e-inferno que era um dilacerante repuxar dos sentidos e que exercia sobre mim um fascínio quase dor. Parecia que sempre dançara o tango, La cumparsita! Ah Gardel... que volúpia!

 

Aspirava-lhe cada movimento e absorvia-lhe os ténues cheiros inebriantes. Aquela mulher seria minha; ou eu dela. Ou as duas coisas.
Incrédulo, ouvi-me a dizer, surdamente, Onde é que você vai quando sair daqui? e logo a seguir, num crescendo imparável, Se estivéssemos na idade média roubava-a! Levava-a comigo à força... você é minha.


Nunca me sentira tão forte. Parecia renascer a cada minuto e sentia-o com uma certeza que me deu outro alento, Você diz adeus a isto tudo. Daqui vai ao vestiário buscar a sua carteira e vai ter comigo ao Hotel Al-Mansour. Amanhã vamos para a Tunísia e foi quando caí em mim, estarrecido; ao ouvi-la dizer, Foi de lá que vim! Mas vou para onde quiseres. Tenho andado sempre atrás de ti...
O quê!? exclamei, mas... como!? Nunca estou muito tempo no mesmo sítio. De onde é que tu és?

 

A resposta nem a ouvi, perdido em investigações de memória dispersa. Sou de Lisboa, disse ela, desta vez fingi vir de férias e com um sorriso denso que me pareceu enigmático, acrescentou, trabalho no SIS e vim para cá para ver o que andas a fazer com esses lavadores de metais... mas já não consigo e afundei-me, eles não sabem de mim. Amo-te e vou contigo para qualquer sítio! Eu sou tua.


Um zumbido denso enevoou-me os sentidos. Apatetado saí dali à pressa, quase a correr.

Nunca mais a vi."

 

Pirata-Vermelho

 

http://sempenisneminveja.blogs.sapo.pt/869969.html 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:46
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