Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012

RESUMO DUM AMOR DESCUIDADO

 

René Magritte, The Lovers, 1928

 

Chegara tarde: as horas extraordinárias no trabalho esticaram-se a mando do mandador. Sabia-a dormida. Outro serão entre paredes cujas manchas e frestas a mulher conhecia de cor ao meditar no casamento em que o seu homem era visita em vez de companheiro. Nem os fins-de-semana partilhavam pelo trabalho em turnos - nesta semana, calhara o dia.

 

Ao deitar-se sorrateiro, não acordasse na mulher a tristeza, também ele tentou embalar o sono afastando do pensar o quotidiano mal pago, a exploração que aos dois castigava. Adiar filhos, consequência. Talvez um dia a vida girasse. Talvez gravidez e família como o desejado. Talvez ganhasse o “euro milhões”.

 

Recusando Morfeu acolhê-lo nos braços, levantou-se. Na cozinha, fruta da época; pouca, que a soma do pré de ambos a mais não chegava. Retirou maçã luzidia, verde na cor; polpa suculenta, parecia. Aconchegado no sofá puído, olhava a maçã. Perfeita. Rodou-a na mão. Tomara que o seu pequeno mundo fosse assim macio e não tolhesse os sonhos que ele e a mulher haviam construído no início. E rolava a maçã. E a paz conquistou-o. O sono chegou com ela.

 

Ao acordar no sofá, já a mulher havia saído para as limpezas no banco - ‘ponto’ não ‘picado’ a tempo obrigava a desconto no salário mínimo. Seis da manhã, informou o despertador aos gritos. Era o duche, a carcaça mastigada à pressa, o café doméstico. No gingar do comboio, impôs-se o sonho vívido. Lembrava detalhes, não o todo. Maçãs como rostos, chapéus de coco, homens de fato e gravata negros pingando do céu, cachimbos. Bizarro, concluiu.

 

René Magritte parody

 

A concentração no trabalho manteve incólumes as imagens. Mais viu: beijo quente trocado com a mulher. Senão: rostos tapados e lábios sem contato direto. Beijo era, mas faltava a suavidade das marés nas bocas. Pela vida e culpa própria, resumo dum amor descuidado.

 

René Magritte

 

Nota: texto publicado aqui por inspiração deste do Diogo Leote.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:16
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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011

ARROZ E “DOU”

Angelo Morbelli, Arthur Sarnoff e Pat Dugin

 

Porque as soluções radicais da crise planetária em poderes e economias rodariam em 180º o mundo, vão surgindo paliativos. Pouco alteram, são migalha de broa inteira, dizem. Contraponho: das mudanças, por pequenas que sejam, novos ideares, outros comportamentos surgem. E porque água tanto insiste até que fura obstáculos rijos, melhor fazem os humanos se objectivo valoroso passar de individual a colectivo.

 

Tomemos como exemplo o hábito de poupar. Meio século atrás, em Portugal, era comum. A generalidade das famílias aforrava parte dos ganhos e constituía pé-de-meia para enfrentar futuro – educar filhos, dar resposta à doença se num mau dia fizesse deslizar o ferrolho. Hoje, poupar é slogan publicitário e os meios de comunicação ensinam o «bêabá» do gesto tão esquecido e diferente pela evolução social e sub-reptícios ou expostos apelos ao consumo. Ganhando pouco ou muito habituámo-nos à «chapa ganha, chapa gasta» - o Estado, os bancos tentaculados ao plástico dos cartões lá estavam para suprir faltas e saciar devaneios.  

 

Duas iniciativas simbólicas merecem atenção. O padre Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal revelou o desígnio da Igreja Católica em estimular a poupança substituindo a chuva do irritante arroz sobre os noivos pelas tradicionais pétalas de flores que bem podem ser sobras da actividade das floristas. Cálculo feito a um ou dois quilogramas por casamento, quarenta toneladas são desperdiçadas ao ano quando o cereal tanta falta faz a tantos. Gesto simbólico como outro também sugerido aos convidados de oferecerem presentes úteis ou verbas com a indicação de fatia estabelecida num cheque ter como destino obra social previamente escolhida. Na Escócia é procedimento comum. Como reagirão os noivos portugueses? Se faustosa a festa do casamento, concordo. Se simples e de acordo com as dificuldades do casal recente, melhor ajudá-lo com o possível.  

 

Pedro Saraiva, é um dos responsáveis da segunda, inovadora no país. Conta:

_ “O computador do meu pai avariou. O problema estava na placa gráfica e fiquei um bocado irritado com um informático que me disse que a placa nova custava 70 euros e o computador novo 200. Acabei por arranjar uma placa grátis que demorou muito tempo a chegar-me às mãos, o que me fez pensar numa forma de agilizar o processo para mudar mentalidades. Somos neste momento um dos países com um índice de reutilização mais baixo da Europa, o que quer dizer que alguma coisa não está correcta nos nossos hábitos de consumo.”

Nasceu o portal ‘dou.pt’. Facilita serem entregues a quem necessita objectos dos quais os doadores não precisam; vai ao «pormaior» de ter em “conta a proximidade geográfica e o círculo social através dos Facebook dos utilizadores”. Bem visto! Darei volta aos meus pertences úteis mas em desuso e pô-los-ei à disposição de quem os desejar, não esquecendo que roupas previamente limpas, produtos de higiene e outros de semelhante teor irão, como sempre fiz, para obras sociais ou para de quem conheço as precisões.  

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Sugestão de C..

 

publicado por Maria Brojo às 05:42
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Segunda-feira, 6 de Junho de 2011

‘MEA CULPA’ CONFESSA A PECADORA

Jeffrey Batchelo

 

Dia de enfiar papel dobrado no esquife eleitoral. Antes, almoço na esplanada do parque verde preferido. Sóbria a ementa escolhida, conversas cruzadas. Atrás de mim, mãe argumentava contra escolha masculina para enlace casamenteiro. A filha restava em silêncio como se entre duas uma: ou o que a mater família dizia entrava a dez e saía a mil, ou recusava diálogo sobre assunto que somente lhe pertencia. Gostei da rapariga que fantasiei ilusionada, odiei a soberba materna de quem por baixo do cabelo ensarilhado em laca possui toda a sabedoria. Postura tão preconceituosa e manipuladora há eras não ouvia e via.

 

Ao redor, membros das assembleias de voto com lugar marcado, famílias mescladas pelas gerações, pais e criançada ruminando bufete e felicidade parecida com genuína. O relvado extenso pedia biquíni e protector de «UVs». Mas não. Despedi-me com desgosto do lugar tranquilo quando a abstracção esquece ruído domingueiro e avança para pensares íntimos.

 

No canto da assembleia de voto, xadrez político em rostos sisudos e num sorriso. Pela «pinta» melosa, pela espinha ligeiramente curvada, identifiquei-o como representante de partido que não me seduz – muitos anos a dobrar boletins, direi, percepção bastante de frívolos fundamentando atitudes reactivas pelo vestir doutrem. Uns tristes! Mas devolvi o sorriso e votei no partido oposto. Quanto gozo por ludibriar convencidos! Soubesse o maltrapilho mental a verdade e um esgar teria o meu endereço. Assim, não: encheu peito e ego. Não dei por mal empregue o sorriso - bom préstimo escuteiro, aceite seja a hipocrisia a que não me habituo e por vez rara em quem sou. Mea culpa! Não ajoelhei, nem rezei, tão pouco me submeti a cilício. Mui pecadora me confesso, conquanto faltas outras sejam mais satisfatórias do que esta venialidade.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:20
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