Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2015

OS FILMES QUE JÁ VI EM 2015

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Julianne Moore a partir de uma obra de Bouguereau                    Eddie Redmayne by Marius

 

 

"Está aí a noite dos Oscars. Con­fesso que é das noi­tes para onde durmo melhor. Dos fil­mes de 2014, já falei. Só que, alguns dos fil­mes can­di­da­tos vi-os este ano. Por­tanto, ou falo agora, ou me calo para sem­pre.  Não é con­versa para almas sen­sí­veis. Saiu-me, como vão ver, um minu­eto alle­gro molto, a come­çar em vénias e outras mesu­ras e a aca­bar em sodo­mia. Olhem, aguentem-se.

 

 

 

Ah, pois é, ainda estou à espera que 2015 me lave os olhos. Mas tenho de agra­de­cer aos acto­res do filme de Ale­jan­dro G. Iñar­ritu. No seu  Bird­man, Michael Kea­ton , Edward Nor­ton e Emma Stone são sober­bos. É pena que haja “estilo” a mais na rea­li­za­ção (não era pre­ciso tanto Iñar­ritu), mas isso já é aquela con­versa da treta de que­rer ser eu a fazer o filme que outro tipo fez. E ia já falar de Whi­plash e do Ame­ri­can Sni­per e da série True Detec­tive. Refreiem-se os cava­los, que Roma e Pavia não se fize­ram num dia. Já falo (e só por esta pri­meira pes­soa do indi­ca­tivo se vê como a lín­gua por­tu­guesa é uma lín­gua daquilo que estão a pen­sar, isto é e ame­ni­zando, traiçoeira).

 

 

 

Em Janeiro, fui ver o Fox­cat­cher. A rea­li­za­ção é de um Ben­nett Mil­ler, com quem não fiquei com von­tade nem sequer de tomar o pequeno almoço. É um filme emper­ti­gado, de um ricaço e mui­tos pobres, de wres­tling, domi­na­ção e sub­mis­são, com um tiro no bucho a fechar. Os acto­res não têm culpa nenhuma: Chan­ning Tatum e Mark Ruf­falo, tudo pon­de­rado, estão muito bem. Steve Carell, que é no filme um mili­o­ná­rio, para os meus pobres olhos está agar­rado e ver­gado ao que a rea­li­za­ção e argu­mento acham que é uma ideia e a mim me parece que é um espar­ti­lho. Estou de cer­teza enga­nado, mas quem dá o que tem, como eu vos estou a dar, a mais não é obrigado.

 

 

 

Tam­bém vi Adieu au Lan­gage (Adeus à Lin­gua­gem), de Jean-Luc Godard. Vi o filme em 3D, mas os meus olhos já não são o que eram e a ideia de 3D de Godard, de uma radi­ca­li­dade des­cons­tru­ti­vista, pôs o meu olho direito a olhar para uma câmara e o meu olho esquerdo a olhar para outra. Até gosto, como já várias vezes con­fes­sei, de fechar os olhos nos fil­mes, mas a ideia não é fica­rem a doer-me. Se bem per­cebi a pul­são esté­tica do filme — e Godard é mesmo um dos gran­des cri­a­do­res do cinema da segunda metade do século XX, digam lá o que quei­ram dizer — gos­tava de lem­brar que um peque­nino filme seu, uma enco­menda da France Tele­com a que cha­mou “Puis­sance de la Parole”, há uns 20 e picos anos, já fazia do cinema pin­tura, já con­ver­tia toda a lin­gua­gem em puro afo­rismo, numa deriva nietzs­chi­ana a roçar-se pela voz e pela lin­gua­gem de Deus. Ainda assim, nin­guém ou quase nin­guém filme o corpo de uma mulher, a sua funda e negra ori­gem do mundo, como Godard o filma. Tam­bém aqui em “Adeus à Linguagem”.

 

 

 

Foi em Janeiro que vi The Imi­ta­tion Game (Jogo de Imi­ta­ção). O filme tem um rea­li­za­dor, mas tanto se dá ou tanto faz. Sei que vou cau­sar o maior des­gosto ao Pedro Nor­ton, mas “O Jogo de Imi­ta­ção” é um daque­les pas­te­lões ingle­ses que se des­lum­bra com a his­tó­ria que quer con­tar e se esquece do que eu me habi­tuei a cha­mar cinema. Este “Jogo de Imi­ta­ção” foi a sala de cinema, a cores, e já não digo em 35 mm, que isso agora não inte­ressa nada, mas podia ser uma série da BBC, um docu­men­tá­rio, ou podia ser só um gajo inte­res­sante com uma voz bonita a con­tar tudo a uma miúda que gosta de o ouvir, mas que só pensa “este gajo está tão encan­tado a ouvir-se que vai ficar a falar umas duas horas e nunca mais me salta para cima”. Faço notar que estou a falar de um filme em que entra Keira Knigh­tley — ora a boca entre­a­berta de Keira é, aten­dendo à minha idade e meios, a única coisa que hoje me tira sexu­al­mente do sério. No filme, tam­bém entra, azar dele, Bene­dict Cum­ber­natch: faz boqui­nhas intestinais.

 

 

 

Veio, depois, o mês de Feve­reiro. Vi Whi­plash, (Whi­plash, Nos Limi­tes). Belo filme. É uma luta entre dois acto­res. Os acto­res, como se sabe, têm de ser alguma coisa. Em “Whi­plash” há um jovem bate­rista de jazz em pro­cesso de apren­di­za­gem e há um pro­fes­sor razo­a­vel­mente esta­li­nista ou, para que toda a gente me com­pre­enda, nazi. São muito bem fil­ma­dos por Damien Cha­zelle, que tam­bém assina o argu­mento, e é pena por que devia ter pedido ajuda. Para mim, “Whi­plash podia já ser um dos fil­mes de 2015, se a namo­rada e o pai do bate­rista tives­sem só mais um boca­di­nho de den­si­dade, e se a per­so­na­li­dade dos pro­ta­go­nis­tas ganhasse algu­mas nuan­ces.

 

 

 

Em roma­ria amo­rosa, fui à Cine­ma­teca ver um docu­men­tá­rio. Chama-se João Bénard da Costa– Outros Ama­rão as Coi­sas que eu Amei. É um doc de Manuel Mozos, que conheço muito mal, mas por quem tenho uma irre­du­tí­vel sim­pa­tia. Por João Bénard tenho amor. Escuso, por isso, de vos dizer — ou melhor, digo mesmo — que vi com estre­me­cida emo­ção o João a falar, a falar dele, a falar de fil­mes, aos bei­jos à Gene Tir­ney, à Joan Craw­ford e até à mal­vada Mer­ca­des McCam­bridge (e é pre­ciso que se diga que essa mulher que nem parece bonita no “Johnny Gui­tar”, exsuda  uma valente e rija sexu­a­li­dade de alto — e oh se está alto — lá com ele). É o melhor João, o melhor escri­tor de e sobre cinema, a sua silhu­eta mítica, que o Manuel Mozos nos dá a ver.

 

 

 

Vi e tal­vez fosse melhor não ter visto, The Canyons. Realizou-o Paul Sch­ra­der, o mesmo Sch­ra­der que rea­li­zou “Ame­ri­can Gigolo”, o mesmo Sch­ra­der, obses­sivo, psi­có­tico, cal­vi­nista que escre­veu “Taxi Dri­ver”.  Pois é, já não é o mesmo. Ou pelo menos não foi o mesmo. O argu­mento é de Brest Eas­ton Ellis, um escri­tor com que andá­mos ao colo ali pelos anos 80. Juntaram-se, se assim posso dizer, dois mora­lis­tas. Ora, dois mora­lis­tas jun­tos não fazem faísca. O cató­lico Scor­sese e o pro­tes­tante Sch­ra­der, em “Taxi Dri­ver”, faziam faísca. Aqui, neste “The Canyons”, por onde tan­tas vezes pas­sei e de que tanto espe­rava, nem há blas­fé­mia, nem há tesão. É só a cir­cuns­tan­cial e muito eco­nó­mica puta da vida. Adiante.

 

 

 

Dei comigo e estava na sala do El Corte Inglès a ver o Ame­ri­can Sni­per. É, com o “Whi­plash”, o melhor filme de fic­ção que vi este ano. Não é per­feito, nem é Ford, como já para aí ouvi dizer (digam mer­das des­sas e depois admirem-se que o velho irlan­dês se levante da cova funda e vos venha aba­nar pelos cola­ri­nhos). “Ame­ri­can Sni­per” é um filme colado ao mais não-empático dos heróis. Clint Eastwood, rea­li­za­dor de meia-dúzia de obras-primas (“Mys­tic River”, “A Per­fect World”, “Abso­lut Power”, “Grand Torino”, etc…), esco­lheu muito bem ao esco­lher o básico Bra­dley Coo­per, que é in-charmoso todos os dias. Afi­nou depois a mira para uma ideia pre­cisa, a de um homem com um dom. Lembrei-me do De Niro do “Deer Hun­ter” a elo­giar a sublime lim­peza do “one shot” com que abate vea­dos. Eastwood trans­fere para o Ira­que as mon­ta­nhas da Pen­sil­vâ­nia de Michael Cimino e caem vea­dos que nem tor­dos, se assim se pode, impi­e­do­sa­mente, dizer. É quase tudo irre­pre­en­sí­vel, menos o equi­va­lente sni­per islâ­mico que é uma coi­si­nha tipi­fi­cada e ane­dó­tica, menos algu­mas mon­ta­gens cru­za­das, de con­traste for­çado, a meter dedos pelos olhos aden­tro, como sói dizer-se. Nos tem­pos que cor­rem, belo filme, quand même.

 

 

 

Tam­bém fui ver The The­ory of Everything (A Teo­ria de Tudo). Estava a ver e “ói, onde é que eu já vi isto?” Pois é, vi isto no “Jogo de Imi­ta­ção”. Os mes­mos cená­rios, a mesma ideia nar­ra­tiva, tudo ao ser­viço da “his­tó­ria”, da puté­fia da men­sa­gem, dos temas sérios com’ ó caneco. Cinema, viste-o, não viste? Tudo como se  o dig­ni­fi­can­tís­simo drama, vida e obra de Stephen Haw­kings esti­vesse a pas­sar no canal His­tó­ria e a recons­ti­tui­ção viesse ser­vida com aquela ele­gân­cia de chá, tor­ra­das, e  um boca­di­nho de empro­ada pane­lei­rice de Oxford do “Bri­deshead Revi­si­ted”. Nem digo o nome do rea­li­za­dor que é para a mãe dele não se obri­gar a vir aqui des­pe­jar comen­tá­rios impróprios.

 

 

 

Este fim de semana, feliz no fute­bol, no amor e no dinheiro, saíram-me mais duas rifas no cinema. Vi um tal Wild Tales (Rela­tos Sel­va­gens), uma co-produção hispânico-argentina, de fábrica almo­dó­va­ri­ana. Percebe-se a ideia — mais ou menos indig­nada — tão ade­quada a estes tem­pos em que se pro­cura encon­trar num palheiro a treta da afi­ada agu­lha que se per­deu na cozi­nha. É uma cam­bada de short sto­ries, rea­li­za­das pelo argen­tino Damián Szi­fron , todas elas engra­va­tando de humor negro situ­a­ções do mal estar con­tem­po­râ­neo, da auto-estima à buro­cra­cia, pas­sando pela intrin­cada afec­ti­vi­dade que nos leva a casar e a divor­ciar. Tanta men­sa­gem, tanta denún­cia, tanta bufaria.

 

 

 

Hoje mesmo, fui ver Inhe­rent Vice (Vício Intrín­seco). É um filme de Paul Tho­mas Ander­son. Frag­men­tado, cons­truído em mosaico, creio que como no livro que não li de de Tho­mas Pyn­chon em que se baseia. Ou um tipo se deixa levar e se ri (ri algu­mas vezes, sobre­tudo de metade do filme para a frente quando per­cebi que se não me risse, o bilhete e o tempo tinham sido um mau inves­ti­mento) ou um tipo não se deixa levar. A bem dizer, não me dei­xei levar. Falando de Joa­quin Pho­e­nix, o pro­ta­go­nista, diria que muito pro­va­vel­mente não pode­ria estar mais cabo­tino. Ainda assim, lá para o fim daquele “Vício” todo, vem-lhe cair no colo, lite­ral­mente, a Kathe­rine Waters­ton, lin­da­mente nuí­nha, de mami­nhas per­fei­tas, de pom­bi­nha, em espesso intu­mes­ci­mento (perdoem-me a ten­ta­tiva de des­cri­ção grá­fica, mas faço-o com pro­pó­si­tos crí­ti­cos a roçar o cien­tí­fico), aca­bando tudo em mode­rada sodo­mia — a meu ver mais mode­rada do que parece, mas é claro que cada um sente as coi­sas à sua maneira.

 

 

 

Às vezes é pre­ciso dei­xar o cinema para se encon­trar o cinema. Já aqui tinha gabado True Detec­tive. É tele­vi­são, dir-me-ão, não conta. Conta, pois. Os oito epi­só­dios de “True Detec­tive”, de que é autor Nic Piz­zo­latto, são, até agora, o melhor filme que vi em 2015. Vi-os todos em três dias segui­dos„ como quando ia à Gul­ben­kian, às pro­gra­ma­ções do João Bénard, ver um filme à 6ª à noite, três ao sábado, das 15 à meia-noite, e dois fechar o domingo. “True Detec­tive” tem crime, tem pedo­fi­lia, tem sexo, tem ritu­ais satâ­ni­cos, tem polí­tica, mas tem isso tudo metido numa fabu­losa cons­tru­ção nar­ra­tiva, com mise-en-scène e mon­ta­gem, efei­tos sono­ros e música. E tem acto­res. Matthey McCo­naughey e Woody Har­rel­son não ser­vem o argu­mento, reescrevem-no. Nos olha­res, na ten­são dos cor­pos, no movi­mento, seja o mais natu­ra­lista, seja o mais codi­fi­cado e tea­tral dos movimentos.

 

 

Daqui a mais um mês, temos mais con­versa ciné­fila."

 

 

Nota – Texto escrito por Manuel S. Fonseca no Escrever é Triste.

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 11:53
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