Quinta-feira, 11 de Junho de 2015

JÁ OUVIRAM?

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Marco Domanico

 

 

- Ava­riou minha senhora? Não, não pode­mos subs­ti­tuir a placa, não tem arranjo. Tem que com­prar um novo. – Não quê minha senhora? Não ouve da coluna da esquerda? Qual é a marca do apa­re­lho? Oh! Esse mate­rial não tem arranjo. A senhora tem que com­prar um novo! – Minha senhora esses ratos já nem exis­tem no mer­cado. A senhora tem que com­prar um novo! – Para Espa­nha minha senhora. Sim, só lá é que tal­vez possa resol­ver o pro­blema. Mas olhe que não damos garan­tia por­que o mais certo é não ter arranjo.

 

 

Pois tem sido assim até des­co­brir o Sr. José Antó­nio Pingo e a sua empresa de Porto Salvo. Tudo come­çou no dia em que um que­rido amigo me disse lá em cima no sotão : olha que estás sem bai­xos! Nin­guém diria mas sou surda como uma porta aos bai­xos. Só há pouco tempo aprendi a ouvir para lá dos agu­dos, por isso fiquei tão espan­tada quando per­cebi que a minha apa­re­lha­gem “xpto” estava com pro­ble­mas. Recomendaram-me a TV Zener de Porto Salvo e levei o peso pesado até ao Sr. José Antó­nio que em pouco tempo per­ce­beu onde a gerin­gonça estava em falta.

 

O ampli­fi­ca­dor vol­tou para casa fino e na semana seguinte eu estava a levar-lhe o chip do apa­re­lho que pro­jec­tava pin­ti­nhas bran­cas no ecran. O chip não. O apa­re­lho que tinha o chip por trás da lâm­pada e debaixo de 32 para­fu­sos. A marca, com repre­sen­ta­ção em Por­tu­gal, não tro­cava chip’s. Ou com­prava um pro­jec­tor novo ou então ficava a ver cinema às estre­li­nhas até o ecran ficar uma nuvem per­feita.

 

Arris­quei em man­dar vir o chip de Espa­nha, caro para burro e espe­rar que o Sr. José Antó­nio des­mon­tasse o velho e espe­rasse para mon­tar o novo sem ter­mos a cer­teza que o pro­blema era mesmo do chip. Era!

 

Depois foi o rato. Tenho um rato hiper qual­quer coisa (sen­sí­vel) que de um momento para o outro dei­xou de fun­ci­o­nar. Aliás a ima­gem mos­tra o rato e o tra­ba­lho que o Sr. José Antó­nio teve para des­co­brir por­que é que eu tinha que pres­si­o­nar o botão do rato como se esti­vesse a garan­tir uma impres­são digi­tal no car­tão de cida­dão. Trouxe para casa o rato como novo depois de me terem garan­tido na loja que os ratos quando tinham este pro­blema não tinham arranjo. Estou a olhar para o rato aqui ao meu lado que pisca de con­tente.

 

 

Mas a peça mais inte­res­sante que levou arranjo e aquela que criou um laço de ami­zade entre mim e o Sr. José Antó­nio foi o cir­cuito inte­grado da placa do motor que abre o por­tão da gara­gem. Esta placa que está inte­grada no motor é res­pon­sá­vel pela sequên­cia de ordens que a máquina faz ao abrir e fechar o por­tão. Faz não! Fazia … até as les­mas (mal­di­tas) resol­ve­rem assen­tar praça, com o calor que faz den­tro da caixa, em cima das resistências. (…)

 

 

 

Nota – Fotografias com lesmas e tudo, mais o texto hilariante de Rita Roquette de Vasconcellos em falta aqui.

 

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 09:11
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Terça-feira, 2 de Junho de 2015

“ESTE BLOG ACABA DE TER ALTA. É OFICIAL.”

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Vincent Willem van Gogh

 

 

“Há uma semana, tal como acon­te­ceu às oli­vei­ras em Itá­lia, este blog foi con­si­de­rado ofi­ci­al­mente doente. Agora, e depois de tera­pias inten­si­vas, veio toda a classe médica ates­tar que não há, nem sobra, um único — unzi­nho — dos sin­to­mas que con­du­zi­ram ao com­pe­tente diagnóstico.

 

 

Os Tris­tes do Escre­ver é Triste estão cura­dos. Não há cá hér­nias, nem fro­zen shoul­ders.. .Nem gases. Foi uma semana mag­ní­fica, vivida em exal­tante ambi­ente hos­pi­ta­lar, uma semana de com­pri­mi­dos e inje­ções, raios X, uma ou outra res­so­nân­cia mag­né­tica, um dis­creto toque rec­tal. Vol­tá­mos todos feli­zes da enfer­ma­ria para as nos­sas alvas camas.

 

 

É claro que alguns dos Tris­tes, mais dis­traí­dos, ainda não trou­xe­ram as aná­li­ses e os rela­tó­rios médi­cos. Não se admi­rem, por isso, que, ao longo dos pró­xi­mos dias, pos­sam sur­gir posts con­fes­si­o­nais sobre esta dra­má­tica expe­ri­ên­cia a que não fal­tou, é claro, dimen­são trans­cen­dente. Cada um tem a meta­fí­sica que merece. Se há quem tenha a do cho­co­late, por que não have­mos nós de ter a meta­fí­sica do este­tos­có­pio e do cateter?

 

 

Vol­ta­re­mos ao hos­pi­tal? Bom, só para ter­mos o ban­ner que a Rita Vas­con­ce­los nos trouxe, já valia a pena. Mas sabem bem que não somos muito de nos repe­tir. Depois do Hos­pi­tal, quem sabe se não fare­mos uma semana de Escre­ver é Triste no Médio Ori­ente ou, se é para con­flito vamos ao con­flito, uma semana na Escola Pri­má­ria. Se os esti­ma­dos lei­to­res qui­se­rem fazer suges­tões, não se acanhem.”

  

 

Nota – Aqui.

publicado por Maria Brojo às 08:00
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Segunda-feira, 18 de Maio de 2015

SLB: FELIZES AQUELES A QUEM CERCA A FAMA GLORIOSA

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Por ser uma só a raça dos homens e dos deu­ses, dei­xem que vos traga os pri­mei­ros ver­sos da 7ª Ode Olím­pica de Pín­daro. Pas­sa­ram mais de 2.500 anos e é a mesma a águia que rasga os céus. Marco Valé­rio Mar­cial, romano da grande His­pâ­nia, à águia que levava nas suas asas o deus dos deu­ses, per­gun­tou: “Diz-me quem trans­por­tas tu, ó rai­nha das aves?” A nós, diria eu! O povo rubro que, em festa, enche as ruas de Portugal.

 

 

 

VII Ode Olímpica

 

 

Como alguém que, com a mão opu­lenta,

ergue a taça, onde espuma o rocio da vinha

e a ofe­rece a seu genro,

brin­dando em nome da sua casa pela dele,

– taça que é de ouro maciço e o mais requin­tado

dos seus tesou­ros — para hon­rar o ban­quete~

e a nova ali­ança, e cau­sar emu­la­ção

entre os ami­gos pre­sen­tes

por tão bem logra­dos esponsais,

assim eu, man­dando aos atle­tas vito­ri­o­sos

  este líquido néc­tar, dom das Musas,

doce fruto do espí­rito,

dou ale­gria aos ven­ce­do­res de Del­fos e Olím­pia.

Feli­zes aque­les a quem cerca a fama gloriosa!

 

 

 

Nota – Artigo de Manuel S. Fonseca aqui.

 

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 08:37
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Segunda-feira, 11 de Maio de 2015

O MISTÉRIO DA SENHORA VAROUFAKIS

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“Já se sabe que Yanis Varou­fa­kis – pelas boas ou más razões, isso fica ao cri­té­rio de cada um — anda nas bocas do mundo. Por arras­ta­mento do fenó­meno mediá­tico em que se trans­for­mou, tam­bém a sua mulher, Danae Stra­tou, pas­sou a ser alvo da curi­o­si­dade geral. Isto fora da Gré­cia, por­que den­tro já o era há muito, antes mesmo de se tor­nar a senhora Varou­fa­kis, por mérito pró­prio do seu tra­ba­lho de artista plás­tica, e por herança – o seu pai era e é um dos indus­tri­ais mais ricos de ter­ras helé­ni­cas. Mas o que até há pou­cos dias nin­guém sabia – tal­vez nem a pró­pria – é que Danae, na ver­dade, já era uma estrela pop à escala mun­dial desde que Jar­vis Coc­ker e os seus Pulp lan­ça­ram o sin­gle Com­mon Peo­ple em Maio de 1995 (can­ção que veio a inte­grar o mar­cante álbum Dif­fe­rent Class do mesmo ano). Para quem não sabe, Com­mon Peo­ple é a mais can­tada e ouvida can­ção dos Pulp. E das mais can­ta­das e ouvi­das can­ções pop de sem­pre – uma das tais can­ções pop cuja pere­ni­dade (já lá vão vinte anos e nin­guém con­se­gue cansar-se dela) con­tra­diz a pró­pria essên­cia de efe­me­ri­dade da pop. Como se per­cebe pela letra da can­ção (ou, mesmo antes, pelo seu título), Com­mon Peo­ple trata de alguém – uma jovem de vida fol­gada, nas­cida num meio social que lhe per­mi­tia todos os luxos e mor­do­mias – que teria como aspi­ra­ção a de viver como “gente vul­gar”, com os recur­sos limi­ta­dos de uma “pes­soa nor­mal” (não levem a mal as expres­sões, as aspas indi­cam bem que não são minhas e me limito a tra­du­zir o que Jar­vis Coc­ker quis dizer atra­vés da canção).

 

 

 

 

Ora, a ser ver­dade o que esta semana con­tou um jor­nal grego, Jar­vis Coc­ker inspirou-se em Danae para escre­ver a can­ção. A pró­pria letra des­venda o mis­té­rio: a jovem em causa vinha da Gré­cia, tinha um pai rico que lhe pagava as con­tas todas, e, nos anos 80, estu­dava (tal como Jar­vis) no St. Mar­tins Col­lege of Art and Design. Acon­tece que Danae, para além de bela e rica, estu­dou escul­tura no St. Mar­tins Col­lege entre 1983 e 1988. E parece que, nesse período, não have­ria outra jovem grega bela e rica no St. Mar­tins (ou, pelo menos, tão bela e rica como ela). Só numa coisa Jar­vis fal­tou escan­da­lo­sa­mente à ver­dade. A miúda nunca o quis levar para cama, o pró­prio já admi­tiu que ele, sim, ten­tou fazê-lo, sem o con­se­guir. Até o facto de Jar­vis Coc­ker ter falhado as suas ten­ta­ti­vas para a levar para a cama bate certo. Só isso explica que tenha ten­tado com­pen­sar o falhanço com uma can­ção tão cínica e mor­daz. Um gen­tle­man – e Jar­vis Coc­ker, ape­sar de lhe dar para a alar­vi­dade em palco, é um gen­tle­man com as senho­ras — nunca faria isso a uma mulher (e muito menos a uma linda senhora como Danae) que com ele par­ti­lhou a cama.”

 

 

 

Nota – Texto publicado por Diogo Leote no ‘Escrever é Triste’.

 

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 08:00
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Segunda-feira, 27 de Abril de 2015

ESTILO? OS GATOS TÊM-NO COM ABUNDÂNCIA

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Foi assim, aliás, que David se lixou com Betsabé (Gerome Betsheba)

 

 

 

Perdi o estilo. Já tive uns lai­vos do estilo de que fala aqui o vee­mente Char­les Bukowski. Agora, nem pó. Farei o que for pre­ciso para o recu­pe­rar: ou vou preso ou arranjo um gato. Arrisco mesmo pendurar-me numa varanda para te ver a saí­res nua do banho sem que me vejas a mim. Foi assim, aliás, que David se lixou com Betsabé.

 

 

Entre­tanto, à falta de melhor, tra­duzi o que podem ouvir o des­bo­cado Bukowski can­tar no vídeo. E depois não digam que o “Escre­ver é Triste” não é ser­viço público.

 

 

Estilo é a res­posta para tudo

Uma forma grá­cil de fazer coi­sas cha­tas ou peri­go­sas

Fazer uma coisa chata com estilo é pre­fe­rí­vel a fazer uma peri­gosa sem ele

Fazer uma coisa peri­gosa com estilo é o que eu chamo arte

 

 

 

Tou­rear pode ser uma arte

O boxe pode ser uma arte

Amar pode ser uma arte

Abrir uma lata de sar­di­nhas pode ser uma arte

 

 

Nem todos têm estilo

Nem todos sabem con­ser­var o estilo

Já vi cães com mais estilo do que homens

embora nem todos os cães tenham estilo.

Têm-no com abun­dân­cia os gatos.

 

 

 

Quando Hemingway espar­ra­mou os mio­los na parede com um balá­zio,

teve estilo.

Às vezes as pes­soas dão-nos estilo

Joana d’Arc tinha estilo,

João Bap­tista

Jesus

Sócra­tes

César

Gar­cia Lorca.

 

 

Encon­trei na pri­são homens com estilo.

Encon­trei na pri­são mais homens com estilo do que fora dela.

Estilo é a dife­rença, um modo de fazer, um modo de ser feito.

Seis gar­ças de pé, qui­e­tas, numa poça de água

ou tu, nua, a saí­res da casa de banho, sem veres que te vejo.

 

 

Fonte - Manuel S. Fonseca no "Escrever é Triste".

 

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 10:05
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Segunda-feira, 13 de Abril de 2015

DIAS E DIAS

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Claude Théberge

 

 

“Há Dias assim, as nuvens da manhã lan­çam lágri­mas aos olhos, e mais tarde aque­ces o corpo na varanda. As melo­dias soam longe, como se de outro mundo fos­sem, e são, mara­vi­lho­sa­mente aber­tas de um azul pro­fundo como o mar mais solto.

 

 

 

Há dias que o teu amor é só memó­ria, é só tempo, sem ser agora, mas dias em que tudo se esconde sobre a som­bra da luz da tarde, o ar que cheira a maçãs ver­des, a água parada e o tojo queimado.

 

 

 

Há dias assim, mas não são todos, entre os tron­cos lisos dos chou­pos, o mar lá atrás sor­rindo em ondas bran­cas de barba, as revo­lu­ções esque­ci­das, desinteressadamente.

 

 

 

Há dias que não exis­tem por­que são cópias de outros pas­sa­dos, os mes­mos ges­tos, o mesmo tocar, o amor repe­tido como se fosse cas­sete de música — põe lá outra vez.

 

 

 

Há dias assim que só exis­tem uma vez e nunca mais. Dias de um calor sufo­cante sobre a cidade silen­ci­osa e coberta de uma luz ver­ti­cal, dou­rada, branca, o medi­ter­râ­neo per­dido na poeira levantada.

 

 

 

Há dias que ante­ci­pam outros dias, e dias que subs­ti­tuem outros dias, mais velhos, expe­ri­en­tes do olhar do tempo, soli­tá­rios e supe­ri­o­res por terem já sido.

 

 

 

Há dias que “se me con­ta­res toda a tua dor eu nunca mais irei sorrir”.* (…)”

 

 

Nota – Texto de Bernardo Vaz Pinto aqui.

 

 

CAFÉ DA MANHà

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 10:25
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Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2015

LA DONNA É FELIZ? OU SOFRE DE MELANCOLIA?

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Oleg Zhivetin – “New Addition”

 

 

 

Eu sou daquele tempo rela­ti­va­mente remoto em que mui­tos pro­ble­mas seriam resol­vi­dos caso as mulhe­res alcan­ças­sem o poder, em vez dos homens. Depois, houve That­cher, uma das mulhe­res com mais tes­tos­te­rona da his­tó­ria; e Mer­kel, Cris­tina Kir­ch­ner e Dilma. E pronto! Nada de subs­tan­cial, afi­nal, mudou

 

 

 

Os velhos roma­nos dividiam-se sobre estas maté­rias. Embora na época, segundo nos infor­mam Phil­lippe Ariès e George Duby na sua monu­men­tal His­tó­ria da Vida Pri­vada em cinco volu­mes, o poder em causa fosse aquele que se tem den­tro do lar. Os velhos paters eram amiúde con­tra o casa­mento con­si­de­rando que isso sig­ni­fi­cava um homem submeter-se ao poder de uma mulher (eles lá sabiam, meus filhos, eles lá sabiam).

 

 

 

Mas os médi­cos, por exem­plo, não só eram a favor do casa­mento, por­que às mulhe­res alguma ati­vi­dade (já se vê qual) faz-lhes bem, como defen­diam a tese de que o marido con­fi­asse na cara-metade, dando-lhe a cura (governo) da casa. “Vigiar o escravo padeiro, vigiar o fei­tor e dar-lhe os géne­ros de que neces­sita, dar a volta à casa para veri­fi­car se tudo está em ordem” eram outras ati­vi­da­des bené­fi­cas para as damas não se aban­do­na­rem à depres­são (melan­co­lia), tanto mais que as donas de que os his­to­ri­a­do­res têm registo eram ricas e não faziam mesmo nada – nem pentear-se, nem des­cal­çar os sapa­tos, nem tirar as ves­tes. Uma única coisa faziam sozi­nhas (e não é a que estão a pen­sar): lavar os dentes!

 

 

 

 

Já agora, aquela em que esta­vam a pen­sar, não era no recato de um quarto a dois. Havia escra­vos e escra­vas a cir­cu­lar. Diga­mos que a vila romana era pior do que um pré­dio de habi­ta­ção social… Sabe-se que um amante apa­nhado pelo marido no quarto da sua que­rida mulher, se jus­ti­fi­cou estar ali pela escrava. Um dos satí­ri­cos cita­dos por Duby e Ariès diz que “quando Andró­maca mon­tava Hei­tor” os escra­vos e escra­vas masturbavam-se.

 

 

 

Enfim, a vida já foi melhor para uns e pior para outros. A longa luta de liber­ta­ção femi­nina tem muito que se lhe diga e, embora justa no essen­cial, tem pas­sado anos de mais no des­co­nhe­ci­mento des­tes por­me­no­res da His­tó­ria que não dizem res­peito às brin­ca­dei­ras dos meni­nos – guer­ras, polí­tica, lutas – mas sim àquilo que é fun­da­men­tal: como nos rela­ci­o­na­mos entre nós? E nesse aspeto, sim, con­ti­nu­a­mos a lavar os den­tes sozi­nhos… só que tam­bém temos de tirar os sapa­tos e a roupa… e, em mui­tos casos, depois disso, temos de nos ves­tir outra vez.

 

 

Henrique Monteiro no “Escrever é Triste

 

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 11:07
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Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2015

LIVROS PROIBIDOS

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Vilhena

 

Nota prévia – Faz hoje duas semanas que ocorreu a chacina de cartoonistas do Charlie Hebdo. Momento adequado para lembrar livros interditos pela Censura.

 

 

O “Expresso” anun­ciou a dis­po­ni­bi­li­za­ção, aqui, de um inven­tá­rio dos livros que a Velha Cen­sura proi­biu. Fê-lo José Bran­dão e a lista que esta­be­le­ceu vai em 900 livros. Já fui ver e li imen­sos antes do 25 de Abril, dos Harold Rob­bins aos cha­tís­si­mos Simo­nov e Cho­lo­kov, pas­sando pelo Mal­raux (ainda tenho essa “Con­di­ção Humana”), o padre Jean Car­do­nell (este não está alcance nem do mais pin­tado dos inte­lec­tu­ais, ah, ah, ah), Henry Mil­ler e Har­per Lee. Até “A Nossa Vida Sexual” de Fritz Kahn me pas­sou lim­pi­nho pelas mãos. Na ver­dade, o pai de um dos meus ami­gos de bairro era ins­pec­tor da Pide e tra­zia os livros proi­bi­dos, assim pro­vi­den­ci­ando, por ínvios e per­ver­sos cami­nhos, à edu­ca­ção dos infantes.

 

 

 

Olhando para as capas que o “Expresso” repro­du­zia, des­cu­bro que li, nes­ses tem­pos de Dita­dura, em Angola, o Jubi­abá e os Capi­tães de Areia, de Jorge Amado, as Mãos Sujas, de Sar­tre e, o que diz alguma coisa sobre a minha idi­os­sin­cra­sia, quase todos os livros do mais proi­bido dos auto­res, o José Vilhena, até a minha mãe os apa­nhar e eu ter mos­trado ver­go­nha sonsa e ado­les­cente arrependimento.

 

 

Nota final – Artigo publicado aqui por Manuel S. Fonseca.

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 08:00
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Terça-feira, 9 de Dezembro de 2014

QUEM ORDENA NO MÍTICO “ETERNO FEMININO”?

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Tamara de Lempicka (Varsóvia, 16 de maio de 1898 – Cuernavaca, 18 de março de 1980) foi uma notável pintora ‘art déco’ polaca. (“The Sleeping Girl”)

 

 

“Aqui, que ninguém nos ouve: o mundo torna-se um lugar absolutamente enfadonho se forem as maioritárias fantasias masculinas a defini-lo. Felizmente, as mulheres complicam-no, complexificam-no e intensificam-no - o que é tudo diferente entre si. E, felizmente, nós continuamos primários em algumas coisas. Muito, muito infelizmente parecemos [e somos alguns de nós pelo menos] desesperadamente básicos noutras. O que também é diferente. Se por um lado a atual imagem da mulher é tão absurdamente redutora e imposta pelos [desejos dos] homens, por outro, as mulheres ainda não estruturaram alternativas que sejam sólidas o bastante para se imporem no mesmo campo de batalha: o dos falsos valores de uso, o do mercado, o da publicidade. Ou porque não mandam ainda no mundo, ou porque não é isso que lhes importa. É interior a mudança, interior o (…)

 

 

Nota – Texto enviado por um leitor que pode ser lido na íntegra aqui. Vem a propósito do vídeo com desproporcionado êxito da Agência Cut que num minuto exibe como o paradigma da beleza feminina mudou em 100 anos.

 

 

CAFÉ DA MANHÃ  

 

 

publicado por Maria Brojo às 10:49
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Domingo, 13 de Julho de 2014

Três Mulheres Nadas na Alemanha - Segurelha, Canela e Noz-moscada

Segurelha                                                                       Canela                                                              Noz-Moscada

 

Duas picantes e outra nem por isso. (...)

 

Mais dicas além das que constam aqui: a primeira é sexy, dona das pernas do século XX, a segunda foi pioneira em «brinquedos» eróticos, a terceira adoçou-nos a infância.

 

Sugestões no "Escrever é Triste" por favor.

publicado por Maria Brojo às 19:43
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Terça-feira, 13 de Maio de 2014

NA FITA DA VIDA

 

Na memória, o fabuloso Querelle. Jean Genet da ficção existencialista e homoerótica foi leitmotif. O porto de Brest, recriado artificial e provocadoramente ereto nas torres em forma de pénis, testemunha relações de paixão/ódio entre o marinheiro, Querelle, e os homens e mulheres da cidade. Desejo na procura, prazer na margem/crime. Volúpia transtornada.

 

Quem mergulha em Fassbinder espera e tem lateralidade das vidas. Sufocantes. Aprisionadoras. Feias. Vívidas. Por tudo, arrebatadoras. Encontra desgostos com recheio de amor insubmisso - no Querelle pintados com tons de fogo obsessivos. Ácidos como a autodestruição que retratam. Muitos dias assim na fita da vida. Num qualquer deles, (…)

 

Nota – texto integral publicado, ontem, aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:59
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Segunda-feira, 21 de Abril de 2014

"CAMPEÃO É O QUE LEVA O FILHO AO COLO"

  

 

Gosto da festa da vitó­ria, mas con­fesso que gosto mais do jogo. Das vir­tu­des do jogo e das vir­tu­des que vêm com o jogo.

 

E, hoje, na festa da vitó­ria, na Cate­dral, quando os joga­do­res do SLB iam pas­sando com os filhos às cava­li­tas e Lui­são bei­java a mulher na boca, algu­mas das vir­tu­des do jogo tin­gi­ram feliz­mente a festa: ino­cên­cia, afecto, cama­ra­da­gem e o para­guaio Car­doso a apon­tar para a ima­gem de Eusé­bio, dizendo “é para ti”.

 

Os joga­do­res do Ben­fica iam falando à tele­vi­são e retive duas coi­sas. Creio que foi André Gomes que, per­gun­tado sobre o que sig­ni­fica ser cam­peão, disse que era “dar ale­gria aos outros”. Depois, ou já tinha sido antes, Steve Vitó­ria, joga­dor her­cú­leo, massa mus­cu­lar luso-canadiana, com o que era pouco mais do que um bebé nos bra­ços, disse: “Este é um grande clube para ser  ser cam­peão, um grande clube para se fazer a festa com um filho ao colo.”

 

Hoje, dia da res­sur­rei­ção de Jesus (que ao con­trá­rio do Pedro eu tive a ten­ta­ção de cru­ci­fi­car no fim da época pas­sada), a minha ale­gria é estar nesta festa em que um homem pode levar um filho ao colo.

 

Texto de Manuel S. Fonseca no “Escrever é Triste”

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:19
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Sábado, 15 de Março de 2014

ESCREVER É TRISTE? TEM DIAS!

 

 

"Escrever é triste", frase de Carlos Drummond de Andrade, é nome de lugar na rede classificado como o melhor blogue em 2013 pelo Pedro Rolo Duarte. E se ele é fiável nestas e noutros pensares muitos!

 

Entre publicações que poderia ter importado dali, escolhi as duas últimas. Esta, da Rita Roquette de Vasconcellos, é imperdível. Apesar de, justificadamente, tratar do invisível, mais visível é impossível. E que passe em claro a quadratura dos «ível». Divertimento e aprendizagem assegurados.

 

O Manuel S. Fonseca publicou crónica na imprensa (Expresso, sábado, dia 8 de Março) que ontem também surgiu no "Escrever é triste". Tem por nome "Sempre que gritam Stella, é por ela que gritam".

 

Mais não digo porque melhor que tresler é ler. Para começo de fim-de-semana de escrita online ignoro melhor.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

O vídeo da Rita                                                                                                            O vídeo do Manuel

 

 

publicado por Maria Brojo às 09:12
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Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013

LOU REED BY MANUEL S. FONSECA

 

  

Paul Meijering - Lou Reed   Autores que não foi possível identificar – Lou Reed

 

“Era um aris­to­crata nova-iorquino. Ou, visto, de Los Ange­les, um des­ses snobs con­ti­dos que toca gui­tarra como se não lhe cou­besse um fei­jão já se está a ver onde. Visto daqui, de Lis­boa, será sem­pre um tipo que cami­nhava pelo lado selvagem.

 

Tinha tanto de poeta como cara de velha. Misturava-se nele uma poe­sia sim­ples e direta, um con­ví­vio fácil com as outras artes, um gosto suave por uma certa deca­dên­cia exis­ten­cial. Como todos os nova-iorquinos, pare­cia que podia ser euro­peu, mas nunca teria sido nada sem Bro­o­klyn ou Coney Island.

 

Um tipo de veludo, um tipo das cata­cum­bas. Teve alguns dias per­fei­tos. Fez can­ções e, sem o escar­céu de Keith Richards, tomou uma valente car­rada de droga, da boa e da pesada. Para fazer can­ções, diz ele, batia uma todos os dias. Sem tra­ba­lho não se vai a lado nenhum.”

 

Nota: publicado no "Escrever é Triste".

 

Duas obras que vão além do simples retrato de Lou Reed. A primeira, de Peter Rodulfo - Living with Lou Reed, a segunda, de Fabrice Plas – Vicious, inspirada por um dos temas mais aplaudido de Lou Reed.

 

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:20
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Quarta-feira, 6 de Março de 2013

DOIS «As» – ABOMINÁVEIS ANÓNIMOS

 

Yuri Matsik - Clowns

 

Valente anonimato

 

“Uma das coi­sas que abo­mino na bloga, em toda a net, é o anonimato. Toda a dia­tribe sem assi­na­tura, toda a ico­no­clas­tia atrás de uma más­cara, São o que são: pusilânimes.

Neste blog, ainda por cima um blog que se quer de escrita lúdica, sem pro­pó­si­tos de arre­gi­men­ta­ção, em que todos os auto­res assi­nam com o pró­prio nome, gos­tava que os comen­ta­do­res usas­sem tam­bém o deles. Não gosto de falar com pseu­dó­ni­mos, com fati­nhos de arle­quim e mas­ca­ri­lhas de Zorro.”

 

Manuel S. Fonseca aqui.

 

Eu conheço o anónimo!

 

“Caro, eu conheço o anó­nimo. É uma besta cha­pada, um alarve, um safado. É um tipo que jul­ga­ram inte­li­gente, por­que aos três meses já andava pelo seu pé, mas veio a saber-se que era ape­nas por­que nin­guém que­ria andar com ele ao colo.

 

O anó­nimo tem o cabelo ole­oso, a unhaca do dedo min­di­nho cres­cida e caspa nas sobran­ce­lhas. De figura é um nojo, com queixo pro­e­mi­nente donde parece escor­rer em per­ma­nên­cia um fio de azeite mau. E tem mau hálito, o que agrava o qua­dro, por­que sendo bai­xote dirige, quando fala, o bafo na direção das nari­nas do circunstante.

 

Inte­lec­tu­al­mente é um calhau. Dizem que ficou em segundo lugar num con­curso de estú­pi­dos e que foi con­fun­dido com um peru quando ten­tou mul­ti­pli­car nove por nove. Há quem sus­tente que devia estar inter­nado, mas veio a saber-se que ele era assim por gosto e não por qual­quer defi­ci­ên­cia, salvo de caracter.

 

Não sei se lhes disse que é cor­rupto… Mas é! E men­ti­roso. E viga­rista. O anó­nimo só tem uma uti­li­dade que é esta: pode­mos des­car­re­gar nele o fígado, por­que, cobar­de­mente, embora saiba bem que é dele que fala­mos, nunca haverá de dizer quem é.

 

E tu escu­sas de ficar cha­te­ado. Não é de ti que estou a falar.”

 

Henrique Monteiro aqui.

 

Por me assentar também o gorro, de hoje em diante exposto o que todos sabiam: Maria Brojo já foi “Tati” e “Teresa C.”

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:34
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