Domingo, 6 de Fevereiro de 2011

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA

Colecção "Inverno 2010-2011"

 

Depende por onde é feita a entrada. Escolhida a menos frequentada, espanta árvore com folhagem castanha, diria morta, resistente ao cair dos troncos e galhos onde se dependura. À sombra dela, vindo o estio, talvez a secura da raiz não seja facto, rebentos tenham desabrochado em folhas largas e espessas protegendo de sóis excessivos o banco, por ora, vazio. Ao lado corre água que mais parece parada. Cobre sustento em calçada portuguesa que o designer esgalhou no projecto e artífices escrupulosos concretizaram. Calceteiros é nome pouco para arte tal que papiros bordejam. 

 

 

No entrementes, a moda de madeira «encasquelhada» reveste solo donde brotam cíclames rubros e semiesferas picadas de verdes não identificados. Lindos à vista, obrigam a demora no olhar. São muitos, não demais – a vida nunca é excessiva seja qual for o aspecto tomado.

 

 

A capela, igreja no tempo recuado em que era sítio fora de portas o lugar hoje incluído em Lisboa cerca?, desenha no horizonte reminiscências rurais. Dela consta a torre sineira esvaziada sabe a história o porquê. Em frente, largo modesto. Conhecedores da obscuridade da noite onde candeeiros públicos escasseiam, aproveitam-no para acoitar satisfação de urgências lúbricas. O desejo ordena e o Senhor que ali morou. mora?, é tolerante. Assim seja. Ámen. 

 

 

Existe esconso natural na topografia do terreno. Bem aproveitado por exotismos verdejantes ordenados em desenho num qualquer ateliê paisagista. Neste, seixos rolados cobrem a terra alinhados em tiras de extremos: o preto e o branco são da luz nada e tudo ou contrário segundo a perspectiva da reflexão e absorção total da luz.

 

 

A casa amarela impõe-se com discrição. Primeiro, um esconso óbvio. Passos depois, outro, mas intrigante. Avançando, é parte do todo que configura a fachada importante. Engano. Avance a curiosidade e outras surgem. Belo o conjunto por muito e pelo tradicional português, provocador pelo ocre vibrante ao qual atrevi designação de amarelo. Sem ser. 

 

 

Este é o lado das memórias principais. Entardeceres de Verão, noites de Outono quente levaram-me à descoberta da casa amarela sob lusco-fusco que partes dela esfuma. Somente no dia meado deste Inverno lhe descobri o exterior tal qual - telhas perfeitas na conjugação dos tons do barro cozido a temperaturas diferentes, as caleiras, o ferro das grades, as pontas de lança que as terminam.

 

 

Ainda Janeiro, e rebentos espreitam o sol. Prometem retomar a imponência das árvores e arbustos frondosos que lembro. Os aromas. As flores além do lilás, além da fantasia, além do desejo para beber e esgotar suco num instante da vida.

 

CAFÉ DA MANHÃ

  

 

publicado por Maria Brojo às 10:13
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