Segunda-feira, 2 de Abril de 2012

NUM TEOR DE TRAMA


Walter Girotto

 

“Títulos de filme saíam das páginas brancas de finos cadernos, e as cores pousavam em pequenos bilhetes de letras gravadas. Era o ritmo das ondas que sempre diziam de memórias de crescidos deuses, até no latido quase silencioso de ruas ascendentes. Regresso e ida eram apenas monograma em prata de um dorso grafitado, afinal tão de vento em sua estreita face.

 

Dizia-lhe evidências que recusava, no modo cruel como odiava a passagem da sala, a humildade de protesto em recusa de veneração. As coisas não eram forçosamente o que lhe queriam mostrar. Vultos ilustres cabiam na pequenez de uma forma de ave, ovo abaulado num teor de trama. Dizia não, porque gostava de ser da outra face, do cerco de vidro ou pó de qualquer coisa que não trago.

 

Nunca as linhas se cruzaram com tanta força como nesse quarto distante de aldeia. Daí os nomes de mel e de tintura em pena, uma bacia e barcos parados num esmalte inútil. Ou as lanternas, limo ocioso num aroma vago de sabonete, acrescendo num vagar sem nome. Voltava muito a essas espessas tardes sem recreio, a Lua ainda no atraso de além do mirante, latidos e medos em cada esbracejar das folhas.”

 

Para o SPNI, Fernando York.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 00:57
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Terça-feira, 16 de Março de 2010

O VERNIZ PRETO DE UMA SANDÁLIA

 

 Michael Mobius


"Sabia a roupa e compusera o traje, o verniz preto de uma sandália, o branco transparente de um tecido. Na altura, fábricas de capa e paisagens de disco cresciam abruptas na janela metálica dos comboios. Mesmo se trauteasse as letras, seria nas placas anónimas que descobria a luz. Freguesias íngremes eram destinos de quase pobres, e nos centros humildes maquinavam-se conjuras de sonho com rio em fundo. Escolhera aquelas cores como se fosse fé, mas no couro macio das pulseiras residia um lado nédio de abastada falha. Estancos e comércios de vidro e folha, até num aroma de clandestino vício, um redondo de sebe em tremura de apenas quase. A parede e as letras, agora outras, quadras jorrando numa água fria de poço. Um voo e um caminho estreito em bosque, cancelas e casas de cenário ou seu inverso, a lenta fila parada na espera de uma luz. Era madrugada mas o frio não se colava em ferida, apenas o rebuço e um de despojo na manhã da rotina que deixara então. Ouvia em cada esquina um esquiço de fado, mas era norte e não tocava a linha. Olhava numa melancolia estranha a catedral que conduzia além, vultos azuis numa risca rubra. Colava e recortava e suas fadas eram apenas isso, desenhos impotentes de vara em riste. Numa mulher um cinto, noutra a sombra que lhe tapava a face. De costas, tão nua na sua voz de areia, o azul na pele dos olhos brilhando não lado lascivo da saudade." 

 
Nota -  para o SPNI, Fernando York. Katie Melua neste vídeo foi sugestão que também lhe devo.


CAFÉ DA MANHÃ

 

Da querida Isa, magnífica fotografia e texto, “Tango à Chuva”, aqui.

 

 

publicado por Maria Brojo às 06:58
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Terça-feira, 9 de Março de 2010

ELA ERA COMO ERA

Autor que não foi possível identificar

 

"Ela era como era, e olhava-se como em esgares de gazela cobiçada, ágil e breve. Por isso lhe telefonava (a ele) porque lhe sabiam bem as palavras macias com que a mimoseava, o carinho, o mimo, as propostas lúbricas num charme de graça. Malhas dos dias e os desabafos que iam caindo em cada toque de telemóvel. Porque ele (o outro, o oficial), sempre de falo de em riste, era apenas uma sucessão de orgasmos, de me gusta mucho, de jactos mornos em zonas laterais. Ciumento_ contava. Gosto de me sentir olhada, as coxas brilhando numa saia mini, os bicos furando a renda da blusa, olhos babados de comensais, suspendendo o garfo.


O não amigo, o que recebia as chamadas, falava-lhe com um ar de anjo travestido em Mefistófoles. _ Mereces mais, sentes-te desconfortável na relação, pareces frustrada. Ela ripostava com as vezes que o outro riscava a parede por cada vez que (se) vinha, como nas vindimas se contavam os cestos. Há um lado puta em ti que ele não aprecia. É inseguro, bronco e toda a parafernália de insultos com que os preteridos enfeitam os eleitos. Ela aquiescia, e dizia-lhe a roupa que trazia vestida, a cor das cuecas, as mamas entesando por sabê-lo (ao do telefone) endurecer.


Quanto mais ciumento mais corno_ picava-a ele, sugerindo-lhe, como se fosse antibiótico, idas a sex shops, massagens e beijos na boca.
Depois seria fim de semana, e como acordado, ela repetiria gestos e gritos, humedecendo-se q.b. O telefone ausente como se não importasse.
Um pouco à guisa de crónica, pares que não casais trocariam número de telemóveis, olhariam de esguelha rabos de rapazes e coxas muito nuas de dançarinas em discotecas na moda ou muito pouco. Apenas mudava o nome dos perfumes e marca no elástico das cuecas.


Na segunda-feira, ele (o do telemóvel) falar-lhe-ia de bares giríssimos (onde não estivera) e onde garantia gostar de a ter levado num vestido muito curto. Do outro lado ela reafirmava orgasmos domésticos, palpava as pernas, sentia ardor.
_ Qualquer dia, fodo-o, pensou baixinho."

 

Nota: para o SPNI, crónica de Fernando York.


CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 06:30
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