Sábado, 6 de Abril de 2013

ONDE A AUTOCRÍTICA É CONFESSA

 

Eric Zener

 

Estendo a mão à palmatória e reconheço ter cedido vezes demais à ironia, quiçá sarcasmo, ao perorar sobre a condição masculina. Algumas dissertações foram decantes frívolos pela dispensa da objetividade como filtro.

 

Ao contracenar no palco da vida, não distingo condição feminina e masculina. Neste particular, os acasos da fortuna têm sido generosos. Negar desencontros no carreiro dos meus dias seria mentira. A tal me escuso. Todavia, pelo crivo da exigência suavizado com tolerância, peneiro atitudes próprias e alheias, deixando cair arrogâncias vãs. Racional, sim, apaixonada sempre. Uma cartesiana emotiva. O pecúlio de incoerência salta à vista.

 

Com a ciência aprendi a evitar o «sempre» e o «nunca». Que os extremos conceptuais são limites a que a natureza foge. Ela mescla, destrói para criar, não desperdiça, conserva matéria e energia. Que dos convencionados atributos psíquicos masculinos e femininos todos possuímos, dou por certo. A caricatura dos sexos resulta de atavismos históricos que desembocaram em preconceitos de ontem e do agora.

 

Pela correria da evolução social não é tarefa fácil integrar os novos papéis e desafios que sujeitam homens e mulheres. E baralhamos e ensaiamos e recuamos e avançamos. Porque a harmonia existe, é absurdo o refúgio nos clichés ou em retaliações ditadas por fátuas soberanias.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:16
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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2013

DO BALOIÇO ÀS SEDAS DESPIDAS

 

David R. Darrow

 

Assim fora, assim nunca seria. Ela, que sempre e nunca rejeitava, usava-os vezes demais. A incoerência reclamada como defesa e arma para advires etéreos. Não conjugava futuros. Ou conjugava pelo gozo da negação seguida. Sabia da pequena esfera recolhida junto ao nervo/comando da visão. Talvez morte, talvez vida. Esquecia-a. Lembrava-a se entretinha a tentação do prever. Ceifava-a como na infância vira nas terras fecundas pela natureza e regas. Montanha ao alto, vale em música de cantares/alívios de corpos doridos. Os lobos à espreita, as raposas rapinando poedeiras que supriam faltas míseras. Recontos aconchegados nos colos das matriarcas, foram. A menina, ao tempo, das labaredas conhecia as das lareiras confinadas à pedra, castanho velho por remate. Já não assistia às queimadas nos campos nus onde o Outono descia manto de cinza fria. A urbe, do centro capital, era dez meses de existir, escola, liceu, faculdade. Na geometria parental, a criança era o terceiro vértice. Vazio outro que desejava ocupado por laço fraterno. Sem ele, ficava a menina debulhando leituras e, pelo carvão, no «cavalinho» registando falhas e fantasias. O quarto de brincar, excessivo, recolhia a criança só. Sem primos na rua de baixo ou de cima ou na cidade que pelos afetos e birras habitassem a irmandade possível. E lembrava da casa beirã o baloiço pendurado no braço robusto da nogueira velha e formosa. O teto de folhagem e frutos verdes. O vaivém que, nas férias serranas, o primo de Lisboa arrojava rápido e alto.

 

_ Voa! Voava. Sem medo. No Jorge constelava universo de confiança. Como no pai, cúmplice e autoridade. Como no tio franciscano. Como no avô que musicava os dias em pautas de alegria, primeiro nos acordes da viola afagada na tarde quase extinta. E havia fogo e turquesa no recorte do vale descido da Estrela até ao Buçaco que os malvas dissolviam.

 

Dos homens e mulheres entendeu o que via entre paredes de amor. Eles laboriosos, providentes e previdentes, ternos, base e fundo da confiança. Elas companheiras, voluntariosas, pondo e dispondo com autonomia sob o tule do véu que levavam à missa de incensos e altares de tranquilidades floridas. Só na aparência submissas. De facto, senhoras donas da família.

 

Da crisálida no seu casulo, houve mulher com criança dentro. Porque da dormência das sestas adultas, na infância, constituíra reinos e da precária liberdade experimentara a magia, aprendeu a deter-se. No silêncio, jogar ao ‘faz de conta’. Uma e outra e outra figura. Personagens múltiplas que viria a integrar enquanto despia e vestia sedas da mãe copiando gestos de filmes antigos que o preto e branco coloria. Desequilibrada nos saltos, encenava graça e langor no palco que o espelho devolvia. A sedução da mãe, das mulheres de Hollywood repetidas no descalçar da meia e na alça caída do ombro por suave estremecer. Um dia, sua. Egoísta pela relevância do querer, houvesse ou não quarto cheio de homem que a visse.

 

Nota: há pouco, texto publicado aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:51
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