Segunda-feira, 25 de Novembro de 2013

ANTES DAS OITO

 

      

Graham McKean

 

Mal começado o dia que o sol ainda não ilumina, madrugada, portanto, cinco graus na rua, eles chegam. Caminham devagar. Enroscados nos abafos. Olhos no chão. Coluna inclinada às ordens do vento. Mais homens, que mulheres – elas arribam mais tarde, quase sempre com filhos pela mão. Encostam-se à parede e exorcizam o frio com o bater dos pés no chão, com as mãos nos bolsos ou enluvadas, com golas ao alto e o aconchego dum cachecol puído. Olham com ansiedade o relógio e permutam a informação de quanto falta para as oito. Falas poucas, que o desconforto é muito.

 

Clareado o dia com o avanço dos ponteiros, a língua desata-se. Histórias de maleitas, de sofrimentos, de vidas ingratas. Partilham, antes da abertura próxima, que técnicos, enfermeiros ou médicos entraram. Endireitam a fila desorganizada pela espera, pelo frio, pelo vento – alguns dos idosos que são maioria haviam-se recolhido no vão da entrada do condomínio fronteira. Outros, os mais afortunados que estacionaram em frente da porta do Centro de Saúde, aguardam no automóvel o ajeitar da fila até minutos antes de vir à porta o segurança. Homem possante, fardado como cumpre. A muitos conhece; quer saber como vai a mulher ou o marido. Mesmo que económico no sorrir, há solidariedade no estar. E conforta. Às oito, vai lá dentro: averigua se tudo está apto a receber os utentes. Entram, finalmente. Com eles, a vaga ilusão de regresso a casa mais esperançado do que fora a saída.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:05
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Quinta-feira, 22 de Agosto de 2013

ESTRADA, BELEZA E OVÁRIOS

 

Rendo-me ao humor de Gil Elvgren e de Graham McKean.                                                                

 

Na comunidade científica, há quem defenda que quanto maior é o nível de estrogénio, a principal hormona sexual feminina produzida principalmente nos ovários, mais bonitas são as mulheres. Por outro lado, estudos criteriosos afirmam o estrogénio como uma das razões das mulheres terem menos acidentes que os homens. Sem sobrepor a minha dúvida metódica ao que os especialistas concluem, custa-me a crer que mistura de estrona, estradiol e estriol, também conhecidas como E1, E2 e E3 respetivamente, tenha o condão de nos poupar aos desconchavos automobilísticos. Mais credibilidade me merece outra razão apontada: a capacidade do cérebro feminino de se desdobrar em várias perceções simultâneas.

 

Não fico surpresa pelo reconhecimento dos benefícios vários da nossa atenção repartida. Displicentemente afirmada como dispersa, se não volúvel, a ela é devida a capacidade de gestão de uma multiplicidade de tarefas psíquicas num dado momento. Executar um gesto profissional rigoroso enquanto delineamos as faltas na despensa e pensamos na Inês que foi para o colégio com uma pontinha de febre. Como a qualquer virtude está associado um defeito, também aqui o mesmo sucede. Os homens são invejavelmente mais eficazes na separação dos compartimentos psíquicos, nomeadamente no modo como dos alhos arredam os bugalhos emocionais. Já para a mulher, lidar com as emoções é enredo como novela sem happy end à vista.

 

Das generalizações, conhecemos abusos redutores; todavia, denominadores comuns existem e nos sexos ajudam ao entendimento. Por isto distingo pela positiva a atitude diferente de alguns homens perante descarada infracção ao código da estrada. Ainda ontem, efetuei inversão da marcha em franco despropósito. Os espectadores da manobra arregalaram o olho, e adivinhei-lhes palavras mal-encaradas ao rematar o quadro com estacionamento em sítio proibidíssimo – garantida a cautela de a ninguém lesar com a manigância. Abandono o carro, piscando desvairado, e vou-me à compra rápida. Ao passar pelos expetantes olhares, em vez de tirada admoestadora ouço piropo. Assim vai a tolerância entre sexos.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Em nada associado ao texto, porque gosto. Muito.

 

publicado por Maria Brojo às 09:12
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Quinta-feira, 28 de Março de 2013

DICIONÁRIO «BUÁ-PORTUGUÊS»

 

Graham Mckean

 

Observando o nosso povo, arrisco: já somos velhos no primeiro «buá-buá». Houvera dicionário «buá-português» e dos recém-nascidos o choro seria lamento – “que não, que não podia ser, que estavam tão bem aninhados no útero, era direito adquirido desde a conceção, não tinham sido avisados do aluguer a prazo do lugar, e era injusto, ou lá se era!, verem-se obrigados a, dolorosamente, encher de ar os pulmões.

 

No estado adulto e na essência, as lamúrias, não diferem – somos infelizes ou desafortunados pela incompetência do poder político, pelo sobranceiro domínio do dinheiro (quem diz dinheiro diz petróleo ou água num qualquer amanhã). Pouco mais que traças sem agasalho para esmoerem. Sociedade que ignora a justiça, é cruel e arrivista. Só para os graúdos no «ter» a vida é rosa bebé. Nem para esses, vendo bem: uns esmifrados pelo crescimento dos lucros, sem tempo para a família, para eles, para fruírem dos milhões acumulados, enrolados em affairs de carne ou iates ou de contas bancárias que lhes deem a precária ilusão de vivos numa vida amortalhada. Faltam génios como alguns de outrora: um Newton, Churchill, um Mahatma Gandhi, um Einstein, um Eisenhower, Aristides de Sousa Mendes. Inventivos. Corajosos. Determinados.

 

E há fatia de verdade no reduto da insatisfação. Que não é de hoje - sempre houve e existirá. Fado? Sim por ser natural no pensar humano a ânsia por melhor. Louvável por negar o espírito contentinho no pensar e exigir. Não por que as sociedades são dialéticas e se renovam. Não por nos faltar distanciamento imprescindível para ler os acontecimentos numa perspetiva conjuntural. Não por serem indistintos nos seis mil milhões de terrestres os motores de arranque das mudanças geniais e as hordas de boas-vontades solidárias. E quando os vemos despontar, depressa tentamos aniquilá-los com clichés: lunáticos, excêntricos, incumpridores na peneira do fisco, social ou moral.

 

Quantos anos de cadáver corroído por biliões de vermes são precisos para atribuir genialidade a quem, na atualidade, a possui?

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:58
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

COM A CABEÇA QUAL BICHO ANDA?

Jane Brewster, Pat Dugin, Graham McKean

 

Na volta, o real. Criança, uma. Idosos, quase todos. Grávidas, algumas. Pacientes oncológicos, diabéticos, menos. Sentados em cadeiras azuis ligadas por plásticos e metal. É de espera a sala para quem, papel e senha na mão desde antes das oito, é obrigado a extrair sangue e encher seringa com urina, depois entregue no gabinete de recolha. “Análises” informa a tabuleta sofisticada que da finalidade informa os utentes.

 

Assentos esgotados. Senhas divididas consoante urgência pré-determinada. Ecrãs com números sempre longínquos do obtido, menos pela inequívoca eficácia do pessoal especialista do que pela gente a mais. Mas estão e chegam conformados – sabem o seguinte por alturas outras. Casais acompanham-se mutuamente, filhos(as) fazem o mesmo com a mãe ou o pai ou a tia cuja idade e debilidade justificam cuidados - o ouvido e a visão já foram melhores, por arrasto o entendimento também, as seringas para recolha de urina na única casa de banho com fila permanente são difíceis no desenroscar da tampa por onde o líquido excretado subirá. E cresce a espera. A fome pelo jejum. E a insulina adiada. E os remédios da manhã por tomar. E a procissão além da porta.

 

No durante, há o ‘louco de Lisboa’, cinquenta e pós, limpo e cortês, que cumprimenta um a um os empilhados. Deseja bom dia. Tem laracha endereçada e assertiva para cada um. À criança pergunta: _ Qual o bicho que anda com a cabeça? O menino sorri, olha o pai e assume o não saber. O homem responde: _ o piolho que tu não tens por seres rapaz asseado. Ao menino luzem as pupilas. Adiante, indaga dum casal a mulher: _ Qual a palavra com 40 acentos/assentos? Perplexa, conferencia com o marido, reconhece a ignorância. Esclarece: _ O autocarro! Esboço de sorriso, riso mesmo, nas faces até ele tristes. À mulher mais nova recita quadra tão popular quanto romântica; sem permissão, passa, ao de leve, dedos no rosto. Inquire senhora postada no extremo da carreira: _ Numa mulher, o que mais cheira a banana? _ O nariz! Pagelas debitadas em amanheceres esgalgados. Mal acaba o périplo, a cada um: _ Pode dar-me um euro se não lhe fizer falta? Ao vê-lo, insiste: - não recebo caso lhe faça diferença.

 

Ritual/desassossego completo, os «vampirados» esticam o pescoço na cafetaria fronteira para decidir medíocre pequeno-almoço que não lhes coma euros acima de dois estando na frente a caixa de pré-pagamento, o sorriso brasileiro tão plástico como as cadeiras largadas. Talvez consulta a seguir ou volta inteira para casa. Talvez madrugada/cópia após dias ou meses medidos com a régua do desespero.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 16:16
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Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

EM AGUIAR DA BEIRA, SORTE PEQUENA


Graham McKean


_ PT?
_ Não! A obscuridade escancarada teima no ‘lava-mãos’. De início, imaculadas. Depois, uma pintalga aqui, outra ali. No «acoli», demissões. Sem paciência para escandaleiras terroristas, prefiro as do futebol - jamais pensei escrever isto! Nestas, a culpa tem nome: o do árbitro.
_ PEC?
_ Não! No momento, vale tanto como o foguetório sobre as micro, pequenas e médias empresas durante o período eleitoral.

 

Do levanta à deita, mais existe para reflectir. Tive notícia de prostituta disposta a abandonar a profissão. Excessivos os anos para alternar. Cinquenta fartos de rua e matagais. Vida asseada era projecto. Digno. Procurou recomeço. Um par de vezes, a Segurança Social recusou-lhe o Rendimento Social de Inserção. Com passado de modista, a reacção seria outra. A guarda avançada dos ‘pré-conceitos’ foi muro coeso. Regressou às estradas, ao avia no automóvel ou entre giestas (motorizadas impróprias para a função). Nos arrabaldes de Aguiar da Beira, garante a sobrevivência até as artroses e males piores a levarem para completa miséria ou morte. 

 

Porque as tragédias humanas estão no prédio, na esquina ao lado, clamar por ajudas divinas serve de parco adianto. Lembrei registo:

Conversation   avec   Dieu
L'homme dit: Dieu?
Dieu dit: Oui.
L'homme: Puis-je vous poser une question?
Dieu: Bien sûr.
L' homme: Qu'est-ce qu' un million d' années pour vous?
Dieu: Une seconde.
L' homme : Et un million de dollars?
Dieu: Un centime.
L' homme : Pouvez-vous me donner un centime?
Dieu: Attends une seconde...

 

Entretanto, oito milhões de homens elegeram a mulher ideal. Venceu Emanuelle Chriqui. Para trás, ficaram Kate Beckinsale, Alessandra Ambrósio, Beyoncé, Penélope Cruz e Gisele Bundchen. Sem desmentir os atributos da ganhadora, prefiro outra Emanuelle: a Béart. Elegância à tona. Sedução no parecer. Quiçá no ser. Curtos anos aquém da excluída pela (in)Segurança Social. Por explicar, como sempre, ter saído, na lotaria da vida, sorte pequena à mulher que ronda Aguiar da Beira.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 01:29
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