Quinta-feira, 15 de Agosto de 2013

COMUNIDADE DE AVEIRO, 23 DE AGOSTO DE 2002 (II)

 

1ª tentativa de aguarela em grande formato e carvão do final da minha infância inspirados nos testemunhos da tia da pobreza no mundo

 

“Querida Rosinha e Manuel,

 

(…) Recordo a missa nas Aldeias, linda na sua simplicidade.

 

Tenho a certeza, a certeza da Fé, de que os nossos queridos pais estão felizes e são eles, com certeza, que pedem por nós.

 

Fiquei muito feliz com o gesto discreto do Manuel, quando foi ter contigo ao café. É assim, o amor alimenta-se de pequenos gestos de ternura que vão ao encontro da sensibilidade de cada um. E nesta etapa de vida, vós e eu, não precisamos de grandes coisas, mas de gestos de amor verdadeiro e profundo.

 

E pronto. Estou feliz por ter escrito tudo isto. Uma encomenda deve chegar na 2ª ou 3ª feira.

 

Beijinhos, beijinhos da Mª do Céu

 

P.S. – Deixei o carregador do telemóvel na sala de jantar. Arranjei solução aqui. Não se preocupem. Tragam-mo quando regressarem a Coimbra.”

 

Assim termina a carta cuja publicação foi iniciada ontem. Termina também no SPNI a homenagem à tia Maria do Céu Brojo iniciada esta semana. Não esqueço a influência que esta mulher excecional teve no meu percurso. Desde cedo e pelo diálogo, orientou-me leituras - Sartre, Camus, Simone de Beauvoir e outros sempre na língua original -, depois discutidas em família, que completavam as que os pais recomendavam. Sempre respeitados a minha curiosidade e gosto.

 

Uma das músicas que a preenchia era o “Imagine” dos Beatles. Trauteava-a frequentemente com a sua magnífica voz. O conteúdo da letra harmonizava-se com um dos objetivos da missão que escolhera aos dezasseis anos, ainda estudante no Colégio do Sagrado Coração de Maria na Guarda. Para trás, deixou o início de um namoro feliz com o António Pinho Brojo. Este e os pais, a avó Mamia e o avô Artur, tentaram demovê-la. Assentiu em refletir nos dois anos de espera pelo noviciado. Na “Ordem do Sagrado Coração de Maria”, já em Lisboa, escolheu o nome de Madre Anunciata. Prosseguiu estudos nas Universidades de Salamanca e Roma. Lecionou nos colégios da Ordem e em vários liceus do país, sempre vigiada pela PIDE. Razão? Não perder uma oportunidade de apelar à justiça social e, mais tarde, à "Teologia da Libertação". No final dos anos setenta, optou por “Les Frères de La Charité” a que ainda pertence.

 

Imagine

 

Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people living for today

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people living life in peace

You, you may say
I'm a dreamer, but I'm not the only one
I hope some day you'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people sharing all the world

You, you may say
I'm a dreamer, but I'm not the only one
I hope some day you'll join us
And the world will live as one

 

John Lennon  

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:48
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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

MUROS E MUSGOS

Magritte reinventado, Richard Franklyn

 

-9ºC em Carrazeda de Anciães, -6ºC na Guarda, - 4ºC em Viseu. Na Europa, a vaga de frio vinda do Norte já matou para cima de duzentas pessoas. Só na Ucrânia, mais de 110, maioritariamente sem-abrigo encontrados sob a neve. E lembro, com gosto, os «pingentes» que na Beira Alta, tempo de férias no Inverno, enfeitavam muros e musgos. Os caminhos, feitos escorregas, para a miudagem fruir. E a garota deslizava; com luvas partia o rendilhado do gelo que debruava fronteiras. Ignorava o perigo nas estradas porque dela o gozo era a região fria, o divertimento, amigos outros que os interregnos entre períodos escolares permitiam rever. Era feliz. Corria o contentamento encapuçada pelas ordens matriarcas, gargalhava ao cair, mergulhava as botas na neve que lhe fazia a graça de cair. Quando o sol arribava, luziam montes, encostas, vales e o chão próximo. O azul despontava lá em cima muito antes da neve enegrecer pelos fumos do corrupio automóvel. E quando luto entristecia a alvura, avançava serra acima à cata da impoluta. Enterrava as pernas até delas mear a altura. Subvertia o desafio das recomendações. E ria e era menina/adolescente/jovem rica do que mais importa: liberdade.  

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

«Pra» aquecer: Fernando Botero. Nasceu em Medellín / Colômbia, no ano de 1932. Pintor, desenhista e escultor de grande originalidade. Conhecido pelas figuras obesas (a sua marca) onde retrata a família, o quotidiano, a vida burguesa, a cultura popular colombiana, animais, flores e personagens históricos. Estilo inconfundível, único, conquanto em Portugal um pintor o imite com enorme distância na qualidade.

 

publicado por Maria Brojo às 11:27
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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

PODIA SER DEZANOVE O SÉCULO

 

Tem trinta e quatro anos, baptizada Célia, é filha duma irmã. Foi engendrada em silêncio incestuoso no quarto dos irmãos, ao lado daquele onde dormia a mulher do pai. Família pobre entre os mais pobres. Cresceu em ambiente de rancor e ódios, excepto no seio dos irmãos/tios. Todos iam à lenha para alimentar o fogo donde magras refeições eram distribuídas, amanhavam leiras que gente boa e condoída lhes dava para cultivo delas provindo a fatia maior do sustento. Roupas, o mesmo. Recebendo pintos ou coelhos, era feita criação; a seu tempo, presenteavam os benfeitores – haviam aprendido, sabe Deus como, o sentido da palavra gratidão.

 

Infância e adolescência cruel para meninos tão meninos como todos. Gostavam da escola que lhes abrandava os carregos, sentiam-se iguais aos colegas nas horas ocupadas com livros e cadernos e lápis. Chegados a casa, a faina costumada. Como brinquedos sobras de outras crianças, aqueles que construíam, os animais do campo, os segredos das matas próximas. À medida dos anos e da força, trocavam escola por ofício que acrescentasse pecúlio à família. Os mais afoitos emigraram. Foi o caso da Célia, não sem que antes, tinha dezasseis anos, parisse filho do que viria a ser marido. Na Suíça, viu luz o segundo, fisionomia copiada da mãe. Porque o álcool desatinava o seu homem, os maus-tratos fizeram dela fugitiva com uma criança ao colo e outra pela mão. Instituições facilitaram-lhe o regresso. Par de anos depois, engravida de um namorado. O pai avisou-a:

_ Sendo menina não a quero em casa.

E foi. Que remédio outro senão procurar sítio onde vivesse com os três filhos? Uma vizinha tinha casebre desocupado. Ofereceu-lho. Aceitou. Fardos de palha serviam de cama, piolhos atormentavam-na e às crianças. Perante a realidade, foi-lhe proposto dar a pequerrucha para adopção. Consolou-a fantasiar a menina com um viver melhor que o dela.

_ Sei onde a minha filha está e vejo-a, às escondidas, quando as saudades apertam.

Tempo de alcoolismo, do alheamento da realidade, da cura deliberada através da ajuda que pediu.

_ Não estou curada. Serei alcoólica toda a vida. Mas, sempre que a tentação chega, penso em mim, na minha família e ultrapasso-a. Continuo as reuniões que sinto ajudarem-me.

 

Ontem, seguiu para a Guarda a caminho de mais uma. O actual companheiro, homem trabalhador que a ama, acompanhá-la-ia até ao autocarro. Seis e meia do amanhecer, pequeno-almoço no tabuleiro pousado na mesa do terraço, assento no cadeirão de verga, lusco-fusco na montanha em frente, candeeiro público aceso, senti os passos da Célia. Por nesga da sebe, vislumbrou-me.

_ Bom dia minha senhora!

_ Que ida e volta corram bem, minha querida!

“Querida” sentido pela admiração e coragem desta jovem mulher.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

- Renovo gratidão ao Justo por estas lembranças boas de idos do SPNI. Muito obrigada.

- Em breve, retomarei a intervenção nos comentários. De momento, escasseia disponibilidade.

 

publicado por Maria Brojo às 10:35
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Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

AMANTE BRANCA

 

Vem do céu. Quando esperada, rebelde como é, fica ausente. Se a surpresa lhe alimenta o vício do aparecer intempestivo, de um momento para o outro, cerra o horizonte. Torna-o diáfano. Pinta-o com brancura mesclada, com mistério enrolado em frio e em quentura interior. Que entreabram as cortinas e lhe espreitem o surgir. Silencioso. Que a desejem e não a temam – liquefaz-se num suspiro despudorado. Derrama o que era seu.

 

Não lhe importa a fidelidade às antecipações que dela fazem. Desdiz e diz e contraria e aceita e é submissa quando partilha o querer e o estar e o sentir. Que seja noticiado o excesso se dele precisa e dispõe dar. Que interrompa vias por onde circulam afectos. Motorizados. Ser banida com cloreto de sódio e pás não a assusta – sabe das memórias que prevalecerão. Noites longas, fervura íntima, dias brancos. De tudo constitui património e herança.

 

Por ora, Vila Real e Bragança sentem-lhe a alvura. Isola povoações. A região da Guarda substituiu-a por gelo. Sabe o que perdeu. E a mulher vive saudade da neve na Beira Alta que ama. Do crepitar da lenha e do fogo latente nas brasas. Porque o Natal já é e terá apogeu daqui a uma semana, pela totalidade dos presentes embrulhados com amor e sem consumo que a consuma, lembra a pista de sky na cidade, as luzes dum alongado Natal vivido há dois anos, os imaculados farrapos caídos do céu que fotografou.
 

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 06:27
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