Sábado, 2 de Novembro de 2013

PEREGRINAÇÕES AOS FIÉIS DEFUNTOS

 

Gustave Courbet – Un enterrement à Ornans

 

Alegram-se hoje com flores mil, velas e lamparinas os lugares onde os que partiram jazem. Em peregrinação até eles, cordões de gentes que os não esquecem. Algumas delas souberam construir saudade boa, da que não asfixia e permite caminhar rumo ao amanhã com serenidade. Porque se a morte parece fim em pó, não a considero tal: antes meta que a quem os amou acresce importância na memória aos momentos felizes vividos. E quando, de súbito, é sentida vontade de estar com eles, tanto faz se lavamos as campas e as florimos num dia ao acaso sem espera pela data oficial ou se na paz dum jardim longe olhamos, vividamente, idos partilhados. Com ternura. Com um sorriso. Depois, há a transmissão aos mais novos que não recordam antepassados próximos desaparecidos e por estes amados. Raízes que a borracha do tempo não apaga, mas estrutura a consciência de quem são, donde vieram. Precisamos do passado como da água bebida. Sem ele, deserto afetivo e tempestades de areia que sugam o ânimo e nos tornam mortos-vivos.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Vídeo em português a merecer o tempo que demora. Detalhadamente, interpreta o contexto histórico e social da obra acima. Parte da história francesa e das tradições que ainda hoje nos pertencem estão aqui. Um enterro na cidade de Ornans onde Gustave Courbet nasceu.

 

publicado por Maria Brojo às 07:04
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Quarta-feira, 9 de Maio de 2012

MEMÓRIA

Gustave Courbet

 

De cabalística não sou maskilim e pouco sei além do mistério emprestado ao sete e ao nove. Nela me iniciei às voltas na Regaleira e por ficções de credibilidade duvidosa. Dizem ser o três número mágico – a família clássica confortada pela primeira maternidade, o tempo humano traduzido pelo presente, passado e futuro, o mínimo de pernas para suportar mesa ou assento, a base transgressora da pluralidade nas fantasias eróticas, a conta que Deus fez.

 

Terá sido o acaso ou um capricho da fortuna que nos angulou a geometria? Na ausência da malvasia – casta louvada por Shakespeare –, a mistura de tequila e cointreau se à eloquência do discurso pouco acresceu, soltou as emoções. Desprendeu a fala. Quebrou as rédeas do riso. Restituiu à liberdade os gestos. Não que o embaraço fora previsto – no quotidiano justapunha-mos as vidas. À beira das águas mansas do Tejo, e antes do na tua, na dele ou na minha, abrimos portas à volatilidade das intenções. Não nos satisfez o resguardo meticuloso do passado, o presente arrumadinho, a embalagem conformada ao peso e à medida rígida da expedição postal, o fazer adiado para amanhã que pode nem chegar. Da noite a cumplicidade. Da maresia o odor. Do sal o deleite. E acordámos na frase puída - os “(a)casos” podem não ter finais felizes, mas os começos... Ah, esses!... Felizes são.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:38
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Terça-feira, 1 de Maio de 2012

SOBRE O 1º DE MAIO

Gustave Courbet

 

Que pare o labor, que seja quebrada a rotina sujeita a déspotas ou a simples mandadores. Que o povo saia à rua e cante e reivindique e diga das respectivas razões para o descontentamento em que vê passar os dias. Que a solidariedade seja lei, condenada a sabujice, a escravidão penalizada e gritados os direitos devidos ao cidadão até as gargantas doerem.

 

Não somos ratos sujeitos a queijo/engodo. Somos gente. Temos espírito. A sensibilidade à injustiça anima-nos. Ai de quem ignora estas verdades e dos mais frágeis tenta fazer marionetas sem tento nem vontade.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:45
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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

NA PRIMAVERA DO INVERNO

Chris Peters, Gustave Courbet

 

Não sei quem escreveu, tão pouco se é dito popular, mas por voz amiga soube: “O Outono é a Primavera do Inverno”. Ora, implantado «calor de ananases» em cada dia nascido, garantindo os meteorologistas não haver perspectivas de nuvens que vertam o líquido que nos constitui e ao planeta em cerca de 70%, escasseia o bem maior. Em Bragança, é tempo de secura nos solos e nos ribeiros; a água potável em reserva apenas satisfaz as necessidades das 35000 pessoas afectadas durante mês e meio. Secura também nos pastos alentejanos. Dramática antevisão do que aos vivos espera daqui a décadas continuando desperdícios insanos.

 

Vozes se alevantam contra a entrada paga aos domingos nos museus. Por esta, estou de acordo com a decisão desde que duas horas, ou uma e meia antes do encerramento sejam, diariamente, gratuitas. Em Londres, Paris, Nova Iorque, Paris e noutros lugares o mesmo acontece desde que me lembro e não consta ter diminuído a afluência dos esfaimados por cultura ou dos curiosos. Mesmo considerando que se trata de países ricos cuja população tem nível de vida abissalmente melhor que o do nosso povo, os convénios com instituições, escolas entre elas, as horas gratuitas de visita previnem acesso a todos. Fosse substituído pelo transporte público a inundação de automóveis no regresso a casa, haveria ganho de tempo para visitar «à borla» um museu - está subentendida franja de compatibilidade nos horários. Depois, sábados e domingos também são dias para aproveitar horas da tarde em visitas graciosas, assim haja querer.  

 

Nota: começa hoje e termina no domingo a Feira do Livro de Frankfurt – montra privilegiada para os livros escritos em português.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:16
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Sábado, 27 de Agosto de 2011

PÊLO NA VENTA E NA BARBA

Gustave Courbet

 

O falar da Beira Alta tem os seus quês e porquês. Destes, especialistas sabem. Os quês são conhecidos daqueles que por lá vivem ou viveram ou se informaram. São deleite algumas expressões populares pela expressividade ou humor, ainda que, nalguns casos, jocosas ou ofensivas. É de citar pêlo na venta ao querer exprimir mau génio ou frontalidade invulgar de quem perante desaforo não fechava a sanfona (boca). Pêlo na barba tem o sentido de mulher peluda no queixo. Aliás, barba é, na região, também sinónimo de queixo.

 

Gorgomilo, bofes, bucho são termos que significam, respectivamente, garganta, pulmões dos humanos ou do porco, estômago ou enchido feito de partes menores do porco e enfiado na bexiga ou no estômago do porco. As mulheres fazem este pitéu após a matança do porco, atam e põem-no ao fumeiro para ser cozinhado ou consumido em fatias no Domingo Gordo – domingo de Entrudo, o último antes da Quaresma.

No cortelho, lugar reservado ao porco, a pia feita de pedra servia para conter o alimento quer faria crescer o bicho até Janeiro, mês em que ia desta para vida outra nas salgadeiras dos arcazes (arcas em castanho velho) arrecadados na loja (parte inferior da casa situada ao nível da rua). Pelo balcão subiam os moradores até ao espaço reservado para habitarem.

 

Almoço, fatia, jantar, ceia designavam refeições equivalentes e pela mesma ordem a pequeno-almoço, comida levada pelos donos da terra aos trabalhadores agrícolas entre as onze e meia e o meio-dia, almoço e jantar. Madrugar e dormir cedo eram hábitos indispensáveis a quem iniciava cedo a jorna. A ausência de televisão, de leituras, o frio entrado pelas frinchas dos telhados e das paredes em granito contribuíam para ir à deita mal a noite era descida. Filhos muitos foram engendrados por falta de assunto ou pela quentura das cobertas (cobertores) que enganavam frio de arreganhar (arrepiar). Uns medraram (cresceram), outros morreram justificando a elevada taxa de mortalidade infantil antes e durante o Estado Novo. O ripanço (descanso) acontecia somente ao domingo quando ainda não era sonhado fim-de-semana à inglesa.

 

As matas e os milhos (milheirais) proporcionavam fugidios encontros românticos terminados em sexo. Rondada a futura amásia (amante) com rapapés (lisonjas) pelo candidato que lhe desejava o corpo, tudo acontecia num rufo (momento). Dando o povo conta, o passarinhar (andarilhar) dos amantes era vigiado por olhos curiosos, dizia o par amancebado e jamais esquecia o sucedido ainda que terminasse em casamento o romance. Galgas (mentiras) e nisgas (pedaços de nadas) de vaidade depressa alimentavam falatório e eram pretexto pra mandar pró catano (diabo) quem «argolava» comportamentos. _ Já bonda (chega)!, diziam. Também as malinas (doenças) de pessoas ou de videiras como a filoxera ou de pinheiros ou das batatas ou de outros produtos da terra que ajudavam à sobrevivência eram tema de conversa.

 

Das ovelhas, o leite para o requeijão e queijo serranos, o leite basto (leite coalhado com flor do cardo), os chibos (crias das ovelhas) eram pitéus, algumas vezes oferecidos a famílias, médicos e profissionais dos serviços que as gentes auxiliassem. Lambarices (guloseimas) para lambareiros (glutões) que àqueles presentes chamavam ‘um figo'.

 

Enxaugar era e é perversão de enxaguar, rastolho tanto podia significar variedade de pêra como assuada (confusão, barulheira). Com nanja (nunca) enfático, perguntas eram caladas.

 

Mais haveria pra apontar se a tal chegasse o saber. Mas não chega. Já bonda!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 12:04
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