Sábado, 1 de Outubro de 2011

TRAVESSA DE ARROZ DOCE

Jacek Yerka, Hoyt

 

Saíra do pó em nuvem que o interior do Prado toldava como terra ressequida que enxada lavra. A Sandra, companheira da limpeza, esquecera que o primeiro andar arrecadara mais lixo que o segundo. Eu também. Por isso, sentávamo-nos no balcão de pedra emborcando água em golfadas. O ar serrano, inspirado até às profundas, limpava pulmões mas era impotente perante desmazelo tamanho. Dele m’envergonho e me penitencio. Após a partida das tias-avós, anos e anos, persisti no remanso das doces férias na Estrela, sem atrever a moradia guardiã das férias rurais infantis. P’ra meu opróbrio confesso não ter sido o ultimato da Junta de Freguesia em conluio com a Câmara para todos os proprietários limparem os terrenos e nem subiria ao Prado. Do lado das Aldeias, acesso por escadaria mal enjorcada que caprinos e humanos utilizam, como prova as inevitáveis esferas negras dos dejectos. No lado Norte, caminho transitável até o desleixo autárquico esquecer três centenas de metros. A família viva e falecida batalhou sem resultado positivo. Os senhores mandantes locais esquecem percurso indispensável à recuperação de oito magníficas ruínas, mais duas minhas, além da casa de feliz traça chamada Prado. Amontoados de granito destelhados não pingam votos. Destroços pujantes para quem os lê até às entranhas poderiam alocar, houvesse caminho decente, turistas e novos habitantes para as Aldeias, que os há procurando naquelas bandas possibilidades ao alcance da bolsa, visto os bancos apenas financiarem credores de milhões e os remediados sem dívidas tidos por “gentinha pedinchona”!

 

Terminada outra jornada de trabalho, entro em casa “mais morta que viva”. Mergulhada em água tépida, cheirosa, ouço o telefone. Por tudo estar preso no sítio, nada caiu além do desgosto. Encharcada, catrapisco o inoportuno. Era a Sr.ª D. Ventura, funcionária ano inteiro e cozinheira onde crítica é impossível botar.

_ Vou aí, Senhora Doutora! Tenho um arroz doce ainda morno que acabei de fazer. Achei-a desfigurada. Isso é fome e excesso de trabalho.

_ Não se incomode. Remedeio-me com qualquer coisa.

Apertando a gula pelo pitéu, somei:

_ No estado em que traz a perna não deve andar. Vou a sua casa.

_ Não vale a pena. Tenho o dedo na campainha.

E tinha. Recusou entrada pela hora tardia. Deixou-me o doce e foi-se no breu sem que me fosse permitido dar serventia aos ténis já calçados para a condução.

 

Obliterei a «banhoca» interrompida. Duma assentada, comi meia travessa. Suspirei, gemi durando o deguste. Olhei para o restante e decidi ficar para o dia seguinte. _ Qual quê? Já na cama, livro na mão, havia desconforto. Era a travessa meada o problema. Deixou de ser. O sono chegou num ápice.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 13:48
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