Quinta-feira, 28 de Julho de 2011

GUIA DE MARCHA

Bryan Evans, Bruce Braithwaite

 

Porque a instituição ficava em sitio escuso a que faltava lugar para estacionar, táxi para lá e no regresso. Na ida, condutor ao serviço do dono da viatura, rondava os trinta. Ouvia TSF e não o posto que debita, sem parança, Amália, ou qualquer outro perito no entretém com música de gosto duvidoso. Indagado sobre a escolha daquele comprimento de onda, explicou:

 _ Gosto de ouvir notícias de meia em meia hora, música boa, debates que me interessam, informações regulares sobre o trânsito.

 

Após diálogo centrado nos poucos clientes e a dívida de Manuel Alegre - quatrocentos e tal milhar euros a prestadores de serviços nas festarolas e propaganda na última campanha eleitoral – veio a propósito o dizer:

_ Ora eu que tive a polícia em casa ameaçando-me de prisão durante dois meses por não ter pago multa de trânsito, estes senhores devem milhares ou milhões e andam por aí de nariz empinado como honesto figurão.

Mais contou quando lhe foi pedido ser fiador da irmã na compra dum automóvel. Ela deixou de cumprir as prestações, e três mil euros sobraram para ele. Às habituais quinze horas ao volante somou trabalho extra numa pizzaria até o encargo sumir. Não lhe falo desde então.

 

Na volta, outro taxista, cinquenta e nove anos, desta patrão e sem funcionário por conta, explicou:

_ Clientes rareiam. Os turistas não animam o negócio – hotéis e agências fornecem serviço em excursões a Sintra e arrabaldes dignos de ver no centro e nos arredores de Lisboa. O aeroporto já foi: os transfers em carinhas são concorrência, ilegal na maioria. Quarenta por cento da receita pertence ao combustível, muito vai, directa, para os impostos. Trabalho neste ramo há vinte anos e guardo facturas de então para cá. No inicio, cada hora na oficina custava cinco euros à hora. Hoje, o mínimo é trinta. O gasóleo consumia 10% do ganho. Comparei o ordenado dessa altura com o de agora. Pois quer saber? É igual. À época gozava quinze dias de férias, número idêntico ao das horas ao volante que diariamente gasto ao volante, e levava a família para o Algarve. Depois de período largo sem descanso, o ano passado, foram cinco dias. Fiquei em casa. Este, conto ir uma semana à casa dos meus pais no Norte para ver se me passa o cansaço. É que dou por mim no final do trabalho a quase parecer boneco movido a pilhas gastas. Olho o amanhã e vejo-me a conduzir muito além dos sessenta anos que tinha como meta. Até quando aguentarei? Se calhar até um acidente me der guia de marcha sem retorno.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 12:29
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